por Américo Paim
Véi, tu pode até achar que foi assim morte morrida e tal, só que foi não. E eu tô ligado que todo mundo pensou assim feito tu. Pois eu tô lhe dizendo aqui que foi outra parada. Agora, também num é porque o peão morreu que vai virar santo. Vai não… Fica aí tudo falando que Betoneira era um cara cristão, ajudava a comunidade, respeitava a mãe e o caralho. Nem fodendo, papá. Tu sabe, tu sabe. Ele podia ser teu amigo e tal, mas amizade dele mermo era só com o cramulhão, o sete pele. Ali tomava café na cozinha com o demo. Ói que já vi foi moleque escroto… Aliás, tu sabe porque se chamava aquele animal de Betoneira? Tu pensa logo na tal história da construção lá na orla, que ele pegou de ajudante e cortou o soldador com o arco de serra. A Bahia inteira conta essa porra, mas se ligue, fio. Foi nada disso. Vou lhe dar a real. Tu guenta? Ele matou foi o Zé Chico. Lembra dele? Lembra desse caso? Pois ele fatiou o rapaz feito tira-gosto. Eu lhe juro. Aí ele misturou massa pra porra naquelas betoneira de oficina, das pequena, num sabe? O apelido veio daí. Quando tava pronto, pegou aquela meleca e misturou com o retalhado, fez um piso novo pro barraco dele. Aí colocou por cima aquela pedra grossa, bonita, que o dono da loja de ferragem deu a ele de graça, aliás de medo, né? Tu sabe, tu sabe. Agora me diga, matou o pobre por quê? Fale aí, fale. Tu fica aí me olhando com essa cara de quem perdeu o buzão? Achou que sabia tudo, né? Sabia de porra niúma, véi. Depois eu derrubo como eu soube dessa merda toda. Me diga, falaê: por que ele fez isso, véi? O misturado devia ao tráfico? Roubou de alguém da gangue? Matou? Não, mermão. Ele comeu a irmã de Betoneira. Só isso, véi. Tô falando que foi só porque ali foi amor de verdade. Dona Mirtes da farmácia fala isso toda hora. Diz que Carminha era uma moça boa, num queria desgraça de vida de irmã de traficante, começou a trabalhar lá e foi assim que conheceu Zé. Se apaixonaram, coisa feito novela, negócio sério, de se olhar e ficar nervoso. Demorô nada pra namorar e daí tu sabe, tu sabe… Eles fazia tudo na cocó, aí aconteceu que um X-9 deu o serviço pra Betoneira. Sempre tem um fidiputa desses… Véi, ele pegou os dois na putaria na casa de Zé. E era tudo por amor. Só que o desgraçado tinha mãe não, veio foi do chão direto, lá dos quinto. Ele arrastou o menino dali e ninguém nunca mais ouviu falar do coitado. Carminha ficou acabada, tu mermo viu na igreja outro dia. Só fazia chorar. E mais: ele deixou a moça presa num sei quantos dia, na casa da avó. Só no dia certo chamou ela pra conversar, bróder. Foi quando o piso ficou todo pronto, desgraça. Ela ficou sentada na sala da casa conversando com o belzebu em cima dos resto do namorado, sem saber de nada, coitada. O cara era ruim, véi, eu tô lhe dizendo. Então, tu entenda que ele foi dessa de morte morrida não. Foi missa encomendada, lhe garanto que foi.
Você para um pouco e bebe água. Ignora a garrafa de cachaça barata que você mesmo abriu, antes de Severo chegar. Você bebeu porque achou que seria mais fácil. Você falou demais e vai ter que explicar. Você sabe disso. Severo está de pé desde que você falou do crime. Circula pela sala, surpreso e assustado. Você está apreensivo. O homem é alto e muito forte. A camisa dele parece lhe aprisionar a pele negra. A bermuda jeans rasgada por causa da grossura da coxa. Você, quase uma lagartixa preta de parede, não teria chance com ele. Seu sorriso cínico e sua língua que não para só pioram as coisas para você. Ele sua, assim como você. O calor de janeiro é complicado. Ele passa a mão direita seguidas vezes pelo resto de cabelo que cultiva no topo da cabeça raspada. Você conhece esse cacoete. O cara está nervoso. Você sabe que não tem retorno. A decisão já foi tomada. Ele volta à pequena e sofrida poltrona da sua sala abafada e senta-se de frente para você. Pega a garrafa de água e bebe dela direto, ignorando o copo à disposição. O movimento do braço direito mostra a longa e famosa cicatriz de briga de facão no interior, muito antes de ele vir para a capital. Dá para ver também a tatuagem de caveira pintada de vermelho, conhecida na região. Ele toma todo o conteúdo. Você se oferece para pegar mais. Ele não responde e olha um ponto fixo, atrás de você, talvez o quadro tosco com a flor singela. Foi sua mãe quem pintou. Ele não sabe disso e você sente como se ele estivesse olhando direto para você, como se soubesse de tudo. Você só percebe que não é isso quando se levanta e vai até a geladeira pegar uma água nova. Os olhos dele não se movem, não lhe seguem. Você está mais aflito, mas tenta mostrar segurança. Você volta, coloca a garrafa na mesa entre vocês e mais um copo. É um movimento estranho, pois já havia outro copo ali. Ele então lhe fala, a voz suada, rasgando o silêncio daquele início de tarde, como se nunca houvesse som no mundo antes: Quem fez o serviço, Caroço? Diga o nome de uma vez.
Oxe, oxe, oxe… Perainda… Né assim não. Eu vou te contar mais umas porra aí, pra tu entender a parada direito. Tu precisa saber que essa morte matada num foi uma coisa da cabeça de um zé buceta aí. Foi não. É coisa de cachorro grande, mermão. Aliás, me diga aí: tu sabe como foi que Betoneira se fodeu? Acidente de helicóptero, no interior, naquela boca nova perto de Cachoeira? Rá, porra niúma, papá. Contaram isso por aí e tu tá repetindo. Tinha três cara no voo. Deram fim nas carcaça. Ah, isso tu ouviu… Aí plantaram que Betoneira tava no bolo. Tava não. Ali foi tudo pensado também, mas é outro papo, deixa quieto. Quem mandou matar teu amigo Betoneira num foi marido traído, nem dono de boca rival, nem pai vingando a dor da filha. Foi tiro mermo, um balaço pelas costa. Um só, na cabeça. Quem fez num é fraco, não. Mas o que interessa é quem resolveu apagar o cramulhão. Sabe quem foi? Chuta aê… Quem? Cara de Umbu? Nada… Esse é peixe pequeno. Ninguém ia fazer isso por ele. Aliás, tá foragido, dizem. Né assunto meu. É o quê? Besouro Fedido? Não, não. Esse aí tá até jurado que eu soube. Tá mais pra bater as bota que outra coisa. Ninguém sabe onde anda. Escravo Cacau? É podia ser esse. Tá crescendo, botando a cabeça pra fora, só num tem esse colhão todo. Eu vou lhe dizê quem quis que apagasse seu amigo. Ô, num é mais seu amigo? Ah, por causa da história de Carminha? Rapaz, pegue a visão. Óia, o povo todo acha tu do mermo quilo dele. Tu tem respeito aqui na comunidade. Dizem até que pode virar o chefão um dia desse. Num tô falando que é hoje, não. Então, se tu tá de boca aberta, todo chocado com a história da pedra do piso, fique, mas num fale não. Vai perder o respeito no meio dos brabo, né? Tem uma ruma aí que achou esse negócio de Zé uma obra de arte, viu? Tô lhe falando… Tem gente escrota aqui, fio. Ruindade aqui né luxo, é padrão. Se ligue: tem cara aqui que num é o que parece. Tô lhe avisando. Hein? Ah, sim… Quem mandou dar cabo dele foi Moitão. Isso mermo que tu ouviu. Ele em pessoa. O chefe da porra toda. O diabo é estagiário dele, véi. Nunca vi ninguém podre igual aquilo. Ele é oco. Tem alma não. Só coisa ruim, eu juro. Ele simpatizava com Zé. Num gostou do tratamento que deram ao rapaz e decidiu resolver a porra. O quê? Tive com ele foi uma vez só, faz muito tempo não. Ele conheceu meu pai. Foi por isso que me chamou. Soube que eu tinha feito umas coisa errada, criado uns problema pra ele, roubado um dinheiro grande de uma operação lá em Sussuarana, aqui perto, só que ficou tudo resolvido. Eu tô aqui pra contar, né? Então, fio, num queira treta com Moitão. Deixa essa porra pra lá…
Você observa o homem de pé outra vez. Está tenso, calado. Segura o copo com cachaça, o mesmo que você bebeu. Você oferece uma melhor que guarda escondida. Coisa boa, de Minas. Ele concorda com a cabeça e mata a dose com um gole. Volta para a cadeira. Você sai lento para o corredor ao lado da cozinha. Sabe que precisa se acalmar. Retorna com a garrafa. Você serve a dose devagar, fala do aroma da caninha e leva a garrafa até o nariz dele, que inspira o álcool, mas segue com o olhar pensativo. Você põe a garrafa sobre a mesa e sai. Ele bebe a dose inteira e se serve de mais. Em pouco tempo vem o desconforto. Você observa do corredor. Respiração pesada, a mão na garganta, que deve estar feito fogo, ele já não foca a visão. Piora rápido. Ele não consegue se mover na cadeira, tudo turvando. Você retorna com o revólver à mão. Está com o silencioso. Você tem sua missão e encosta com firmeza o cabo frio da arma na base do crânio de Severo. Ele entende tudo e não consegue reagir. Você fala baixo e pausado ao pé do ouvido dele, o bafo de cachaça anestesiando ainda mais o homem indefeso.
Repare bem… eu mermo tenho nada contra tu, não. Até te achava um cara da hora, mermo sendo amigo daquele canalha que matou Zé. Era um menino bom, meu parça de tanto tempo, cara direito. Morreu de graça, à toa. Tava metido com essa merda nossa não. Ainda assim o chifrudo foi lá e fez aquilo. Eu queria era abrir os bofe dele e deixar no morro pros urubu comer ele vivo. O chefe num deixou. E eu obedeço o home. Foi ele quem me disse que tu tá muito saído, andando mais que a perna, falando merda, fazendo merda. Tu tá atrapalhando Moitão. Igual Betoneira. Aí resolveu que sua hora chegou, óia só. Pois veja, tu vai morrer igual ao jumento, com um tiro só, no mermo lugar que ele morreu, óia, nessa cadeira, de costa pra janela, o sol batendo no lombo. Depois vai pra merma vala do desgraçado. É lá que tu vai acabar. Óia que tu tá arregalando os óio igual ele fez, que coisa… Sabe o que é? Eu fiz merda grande com Moitão. Só por causa da amizade velha com pai, ele me deu uma chance de não morrer… Tô devendo três presunto pra ele. Tu é o segundo. Mas eu tinha precisão de um motivo pra te apagar, num queria assim na tora. Agora tu sabe demais, contei foi coisa. É mais fácil torá teu juízo assim, fico menos avexado depois. Eu cresci aqui perto, pobre, largado pra virar comida de verme a qualquer hora. Encontrei esse trampo com Moitão. Foi ele quem me ensinou a matar antes mesmo de atirar: bota a porra na cabeça primeiro, Caroço, ele dizia. Esfria o coração. Aí é só puxar o gatilho. A cara nem arde, num vou mentir…
Você vai à varanda depois do tiro certeiro. Contempla a vista, como foi na outra vez. Respira fundo de olho fechado. Vai viver um pouco mais. Só falta mais um agora. Você larga a arma sobre a mesa. Você pensa em jogar fora a cachaça errada e pegar outra garrafa, da boa, tomar uns goles e quem sabe um banho. O dia está muito quente. Você ainda está pensando e sente um toque forte e frio em seu pescoço. Agora você sabe a sensação. Outro tiro. Tão bom quanto o seu, mas você não vai ver. Você sabia que treta com Moitão não era coisa boa, mas, vamos admitir, ele não mentiu. Três corpos e tudo resolvido.
