deus aquele

Meu nome é João Victor Separovic.

Uma vez, a senhora dona Maria da Conceição, que era a minha professora quando isso que eu vou contar aconteceu, porque assim, e acho que isso é melhor eu explicar desde já, antes que isso aqui fique um pouco confuso, é que já significa agora, e isso que eu vou contar agora não me aconteceu agora já, não não não, na verdade eu só vou contar agora uma coisa que aconteceu comigo antes, e acho que deve ser sempre assim não é, quer dizer, primeiro as coisas precisam acontecer, sim, é isso, as coisas primeiro acontecem com a gente antes pra que a gente possa contar essas coisas que aconteceram com a gente antes depois, mesmo que tudo aconteça agora já e o antes só vire antes depois, eu disse que era melhor explicar antes que isso ficasse um pouco confuso, porque o depois de antes é o agora, o agora já, não é mesmo, o depois de antes deve ser o depois agora mas pode ser o depois depois também, depois depois é sempre uma opção, acho que isso também vai ser melhor explicar, né, quer dizer, é que se eu escolhesse contar o que me aconteceu antes depois depois eu não estaria contando isso tudo que me aconteceu antes agora já, não não não, se por acaso eu deixasse pra contar o antes depois depois e não depois agora já eu estaria agora agora em silêncio, e o silêncio, pff, o silêncio não é assim, o silêncio é outra coisa bem diferente, ninguém vai confundir o que eu estou contando agora já com o silêncio, não não não, o silêncio é mais ou menos assim











sabe, entendeu, o silêncio é isso, pode acreditar em mim, eu sei o que eu estou dizendo, quem conhece um pedaço de pau é o entalhador, isso é uma coisa que o meu pai diz às vezes, pode parecer que eu não sei o que é o silêncio porque eu sou um pequenino tagarelinha, mamãe me chama assim o tempo todo, seu tagarelinha, papai também, meu porquinho tagarela, pequenino porco tagarela leitão, eu acho bem engraçada essa palavra por sinal, tagarelinha, tagaré-linha, parece duas palavras em uma só, igual quando a senhora dona Maria da Conceição deu uma aula na escola sobre os substantivos compostos, paraquedas, sabe, girassol, cachorro-quente, louva-a-deus, eu lembro bem desses exemplos, eu não gosto de estudar mas sou um bom aluno e presto muita atenção nas aulas lá na escola, e gosto mesmo de verdade da senhora dona Maria da Conceição, mesmo mesmo, mesmo quando ela me fez vestir um chapéu com orelhas de burro aquela vez que eu escrevi deus com letra minúscula, mas se eu não tinha como saber que o deus aquele não era o mesmo deus do louva-a-deus, não não não, porque um deus, o deus aquele, a gente não pode escrever com letra minúscula de jeito nenhum, ou pelo menos não pode escrever com letra minúscula sem que a senhora dona Maria da Conceição fique muito muito brava e faça a gente vestir um chapéu com orelhas de burro e usar o chapéu com orelhas de burro no canto da sala até o final da classe, e o outro deus não, não não não, quer dizer, o deus aquele deve ser bem mais poderoso que o outro deus, porque a gente tem que escrever sempre sempre deus aquele com letra maiúscula que é a letra grande, sabe, sim, eu sei fazer já quase todas as letras maiúsculas, antes eu não sabia, mas agora eu sei, sei fazer o dê de deus aquele bem maiúsculo, não foi por isso que eu escrevi deus com letra minúscula, é que isso foi logo depois da aula dos substantivos compostos, lembra, quando a gente escreveu louva-a-deus no caderno porque a senhora dona Maria da Conceição escreveu louva-a-deus no quadro de giz com letra minúscula, disso eu lembro bem, e acontece que eu não tinha como saber antes que o deus aquele não era o outro deus, isso eu só soube depois agora, que cada um deles tinha a sua letra certa, uma maiúscula e a outra minúscula, e que na verdade o inseto que apesar de ser um inseto como as baratas lá de casa se chama louva-a-deus louva o outro deus e não louva o deus aquele, sabe, antes eu achava isso, porque o inseto tem umas mãozinhas assim juntas de louvar o deus aquele, que nem a freira maluca que anda pela cidade e que meu papai disse que não é freira coisa nenhuma, que ela é só uma farsante biruta, foi papai que disse essa palavra, farsante, eu me lembro bem, e quando na aula seguinte eu contei pra senhora dona Maria da Conceição que o louva-a-deus não louva o deus aquele ela me deu foi com uma colher furada na palma das mãos, das duas mãos, me fez escrever PALMATÓRIA e DEUS e SACRILÉGIO e INFERNO no caderno de caligrafia e aí eu aprendi bem certinho o pê e o dê maiúsculos, e o ésse também e o i, depois eu também fiquei ajoelhado no milho, igual quando a gente ia na igreja e eu via a freira maluca farsante biruta ajoelhada na frente do tabernáculo atrapalhando o padre buscar as hóstias, eu quero saber o gosto das hóstias, quero muito, mas isso não era o que eu ia contar antes, não não não, antes não antes quando o que eu ia contar aconteceu comigo, isso foi bem antes, antes quando eu comecei a contar o que eu ia contar e estou contando agora, eu não ia falar nada disso, nada sobre o agora já e o depois depois e o silêncio e os substantivos compostos e o louva-a-deus e o deus aquele e o outro deus, eu ia contar da vez quando eu conheci a senhora dona Maria da Conceição no primeiro dia de aula, foi por isso que eu disse uma vez, essa vez foi quando ela me perguntou qual era o meu nome e eu respondi a mesma coisa que eu disse agora, quer dizer, agora mesmo não, não agora já nem antes antes, antes só, antes quando eu disse que meu nome é João Victor Separovic, foi o que eu disse antes antes e foi o que eu disse antes só, porque mamãe não me deixa mentir, mamãe me deixa fazer várias coisas, me deixa tomar vinho escondido debaixo da mesa no domingo, me deixa fazer muitas outras coisas que as outras crianças não fazem, deixa atirar pedra nos passarinhos do sítio com meu estilingue, menos nas corujas, nas corujas não, eu não posso atirar pedra nas corujas, não não não, quer dizer, nunca apareceu uma coruja no sítio, mas quando aparecer eu não vou poder atirar pedra que mamãe não deixa, isso ela não deixa, e mentir também não, então eu respondi que meu nome era João Victor Separovic, que é o meu nome mesmo e é o meu nome ainda, e era isso que eu ia contar, isso foi no primeiro dia de aula, e foi quando eu conheci a senhora dona Maria da Conceição e comecei a gostar dela e ela me perguntou meu nome e eu olhei bem pra ela e disse que meu nome era João Victor Separovic e depois eu espiei o papel onde a senhora dona Maria da Conceição estava escrevendo o nome dos alunos, alunos são as crianças mas só as lá da escola, as de fora não, e vi que ela tinha anotado meu nome bem assim: João Vic-Tor. Bem assim, com risquinho e tudo.

Às vezes eu durmo no carro do papai e da mamãe e acordo no sofá da sala, às vezes eu durmo no sofá da sala e acordo na minha cama, e eu gosto muito quando isso acontece, muito muito, eu gosto de dormir num lugar e acordar em outro, sabe, é como se o mundo que eu encontro aqui quando acordo não fosse o mesmo mundo que eu deixei pra trás lá quando dormi, não não não, quando isso acontece sempre fica uma sensação de que esse mundo é outro mundo, e eu gosto tanto, tanto tanto, que eu sempre vou dormir pensando que vou acordar em outro lugar e é muito chato quando isso que eu quero que aconteça não acontece.

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