Dois

por Américo Paim

Jordana lhe fala com aquele tom: não vá, sinto coisa ruim no ar. Você toma outro gole de cachaça. Ela lhe diz que a bebida só vai atrapalhar. Você sabe que precisa e essa é da boa, pinga mineira da casa do ricaço, aquele serviço de oito meses atrás. Serviço muito bem-feito aliás, você pensa. A polícia nem baixou no bairro. Acharam o corpo dele muito depois, sem a cabeça, só que aí não foi obra sua. Você soube que o chefão até elogiou. Você pensa em usar isso nessa conversa de hoje, mas nem sabe sobre o que é. Jordana lhe diz: não é coisa boa. Ela está sempre certa, você pensa. Só que é na casa do chefão e você nunca foi lá.

– Só tubarão bota os pé lá. Tu é piabinha, home.

– Também num é assim, mulé. O povo me respeita.

– Oxe… metade disso aí que lhe acha bom já tá a sete palmo.

– Tudo vacilão. Tu sabe que comigo num é assim.

– Só sei é que isso tá fedeno.

– Para de agourá, miséra! Por que o chefão ia me chamá lá? Deve sê coisa boa.

– Responda tu mermo, vá. O que pode sê bom? Que diabo ele ia querê com tu, criatura?

– Oxe, eu vô sabê como, se num fô lá?

– Everaldo, esse home é mau. Tu tá brincano com fogo.

– Eu trabaio pra ele no fim das conta! Ele que me ensinô tudo.

– Isso é pra comemorá?

– Queria o quê, véi? Que eu fosse trabalhá com seu pai naquela porcaria de açougue?

– Ia sê milhó pra todo mundo.

– Ia… Num ia tê essa casa, o carro, suas coisa tudo…

– Esse dinêro sujo?

– Na hora de gastá num falô nada.

– Tá me ofendeno!

– Olhe, já decidi. Vô lá na casa do chefão e cabô.

Você chega ao local e se identifica. Um homem armado lhe olha com cara de quem se diverte matando. Libera a entrada. Por uma trilha de pedras pequeníssimas, você vai até a porta da casa. Dois seguranças de óculos escuros, bem maiores que seus problemas e suas dúvidas, lhe comandam que pare. Um lhe revista, o outro lhe aponta a arma. Você fica feliz por não poder ver-lhes os olhos. Você acessa a casa.

É uma sala grande, paredes de cor neutra. Sobre um enorme tapete não tão felpudo, todo cheio de detalhes, há um sofá generoso, vermelho denso, diante de você, ladeado por mesas redondas com pequenas estátuas brancas que você acha feias. Junto a elas, poltronas combinadas, na mesma cor do sofá. Tudo lhe parece confortável. As quatro janelas que dão para a entrada da casa estão fechadas e as cortinas escuras lhes escondem os detalhes. Há apenas um lustre intimidador no centro, bem alto. É cedo, mas você gostaria que estivesse aceso. A iluminação insuficiente lhe oprime. À sua direita, duas portas altas e entre elas um corredor largo, com luz fraca. À esquerda, mais uma porta significativa. À sua frente outro corredor de onde vem cheiro de café. Você está sozinho e não gosta disso. Há um vento frio, apesar de o lugar estar abafado. Pode ser coisa da sua cabeça. O medo que lhe toma agora. Um homem baixo, de aparência desinteressante, camisa clara, mangas compridas e calça preta, vem do corredor escuro. Fala em voz baixa.

– Senhor Everaldo, logo será atendido.

– Ah, de boa.

– Deseja alguma bebida?

– Hein? Ah, quero bebê nada não.

Ele se retira por onde surgiu. Pouco depois, você não resiste e vai até o corredor. O chão é do tipo do tapete da sala. Você anda devagar, para nos detalhes. Há portas à sua esquerda. Você tenta abrir uma. Está fechada a chave. Todas estão, logo descobrirá. As coisas na parede, dos dois lados, são peculiares. Painéis com insetos (ou cabeças deles) em alfinetes, moedas estranhas, guindastes e cabeças humanas em miniatura, fotografias antigas com pessoas posando. A fama de colecionador do chefão é conhecida, só que você não sabia o que era. Pouca gente sabe e quem sabe nunca falou. É o que se ouve. Em todo o percurso, um cheiro diferente e intenso, que você não identifica. No fim do corredor, outra porta fechada. Pela fresta embaixo, você percebe uma luz. Sente também aroma inconfundível de charuto. Você coloca o ouvido junto à porta. Quer ouvir algo do misterioso cômodo, mas uma luz se acende no corredor. O homenzinho está atrás de você e diz: “essa é a preferida dele, sempre atualizada” – enquanto aponta para a coleção de cabeças. Sim, você está com medo. Ele lhe abre a porta, sorri estranho, como não fez na sala, você entra e ele sai. Você está bem apreensivo. É uma sala grande, sem janelas. O cheiro de fumaça não é resolvido pelo exaustor um pouco ruidoso que você nota à direita, no topo da parede. Sentado em um sofá à esquerda está um homem alto e forte. Você deseja que ele nunca se levante. Ele lhe olha frio. Segura sobre o colo, com sua mão direita, um revólver, que pode bem ser um 45. Você desvia o olhar para o resto do ambiente. Um lustre igual ao do salão está no centro do lugar, iluminando de forma intensa. Há duas cadeiras de braço, com espaldar alto, de costas para você e de frente para uma mesa, essa sobre uma espécie de praticável, só que feito de cimento e pedra, com uma cadeira, maior que as outras, atrás. Todas as três são de couro marrom, braços em grossa madeira. Sobre a mesa, um filete de fumaça sobe de um charuto queimando no cinzeiro. Na parede atrás da cadeira maior, uma estante larga. Livros, pastas, objetos diversos e, em alguns espaços vazios, potes grandes, tampados e muito escuros, feitos de vidro. Parecem ter algo dentro, imerso em líquido que você não saberia dizer o quê. À sua esquerda, uma porta de cor clara, destoando dos demais móveis. Perto dela, desde o chão, um espelho grande. Pelo reflexo você vê algo curioso, no lado oposto, portanto à sua direita. Lhe parece um porta-guarda-chuvas, mas está recheado com outro tipo de proteção. São rifles, vários deles, com a coronha para cima e o cano para dentro do recipiente. Está sobre uma base robusta, alta, como uma caixa resistente, decorada com gravuras de ataques impiedosos de animais selvagens. Você vai ao objeto e é impedido pela voz do segurança, tão perigosa quanto ele parece ser.

– Não se aproxime daí. Nem mais um passo – ele está com a arma apontada para você.

– Oxe, me desculpe… Eu só ia…

– Saia de perto. Agora.

Você recua e ouve um barulho de chave. Pela porta clara, aparece ele, o chefe. Tem os cabelos penteados para trás e está vestido de forma elegante para os seus padrões. A barba e o bigode são pretos e espessos. Sua pele é clara, exceto por uma meia-lua de material que parece sintético, pouca coisa mais escura, que vai da lateral do nariz até a orelha esquerda, como um selo ali colado. Ele se dirige firme e equilibrado à cadeira grande, como um juiz no tribunal. De lá lhe aponta uma das cadeiras mais baixas. Sentado ali, você o vê ainda maior. Ele lhe olha com domínio, em silêncio desconfortável. Ele diz:

– Everaldo. Mesmo nome de seu pai.

– Como vai o sinhô, Seo Moitão?

– Você sabe por que está aqui, Caroço? – ele muda para seu apelido e o tom fica mais grave.

– Eu num sei não, sinhô. Só me dissero pra tá aqui duas da tarde. Foi isso.

– Tenho um serviço importante para você.

– O sinhô sabe que pode contá comigo.

O homem se levanta e anda pela sala. Você o acompanha torcendo o pescoço. Ele fala cuidadoso e grave, deixando pausas e medos pelo caminho. Conta como conheceu seu pai. Da amizade e dos problemas. Você desconhecia aquilo, se sente acuado e ele ainda nem falou o que quer. A cada parada ele pega algum objeto. Demora mais com o guindaste em miniatura. Acaricia o moitão. Passa suave a mão esquerda sobre a meia-lua. Olha para uma foto de mulher na estante. Você não faz ideia de quem seja. Precisaria chegar mais perto, mas não se atreve a se mover. Vez por outra você confere o segurança, sempre lhe olhando. O homem caminha. Pega um caderno, folheia desinteressado. Volta a falar de seu pai. Você tenta se concentrar no assunto, mas os movimentos dele são magnéticos. Ele para diante do estranho porta-rifles. Pega um e ameaça tirá-lo de lá. Suas pernas tremem. Ele desiste. Olha firme para você. Fala o que você não imaginava.

– Sei o quanto você roubou de mim.

– Entendi não, sinhô…

– Nunca me subestime, Caroço – ele fala devagar e grave. Seria um grande erro.

– O sinhô me desculpe, é que…

– Acertaremos depois. Não perca a cabeça por isso agora.

– Sim, sinhô – diz você, engolindo a secura da sala.

– Tem umas pessoas me causando problemas e quero que isso acabe.

– O sinhô quer dizê…

– Não me interrompa. Escute com atenção.

Ele conta que o primeiro matou um rapaz de forma cruel. Ele diz que não gostou do que aconteceu e muito menos da forma. Lhe conta detalhes e manuseia os rifles de novo. A história é tenebrosa e você nem olha mais para as armas. Você não sabia daquele caso, só tinha ouvido rumores sobre o assassino, coisas bem ruins, mas nada perto daquilo que agora ouviu. Ele lhe diz que faça como quiser e lhe dá um prazo, sem espaço para perguntas ou negociação. Você só concorda, ainda sem ideia sobre como fará. Você lembra Jordana: “esse home é mau”. Ele interrompe seus devaneios com a fala sobre a segunda missão. A abordagem é semelhante. Dessa vez o alvo “apenas” está criando problemas e a paciência dele acabou. A hora da pessoa chegou, ele lhe diz, mais uma vez mexendo no porta-rifles. Um deve desaparecer depois do outro e que você não se demore entre eles. Você pensa: o que vai contar a Jordana dessa conversa? O homem lhe desperta do seu transe e diz:

– Quando tudo acabar, será necessário mais uma eliminação. Não falarei agora. Alguma dúvida?

– Num tenho não, sinhô. Então, são dois presunto e o sinhô vai perdoá meu vacilo.

– Dois não, Caroço, três.

– Ah, tem mais um depois, verdade.

– Pode ir.

Ele lhe olha duro e você sai rápido, sem olhar para trás. O homenzinho está do lado de fora da sala e lhe conduz à saída. Você tem muitas perguntas sobre o que acabou de experimentar, mas só pensa no porta-rifles e na estranha base onde ele está montado. Você sente que ali tem alguma coisa.

– Mermão, me digaí… o quéquetem embaixo daquelas espingarda toda?

– Não se, senhor Everaldo, mas lhe digo que deve ser coisa de se perder a cabeça.

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