Glaucia Faria
Minha primeira recordação da vida é a imagem de Marlene, Annabel e Cassiano brigando. Tinha dois anos de idade, se tanto. No tapete da casa vizinha, brincava com Leão. Marlene surgiu porta adentro, alegando aos berros que a palhaçada eu morar com eles havia finalmente acabado.
Lembro dos perdigotos voando longe na pronúncia do finalmente.
De volta a minha verdadeira casa, cresci órfã de outras memórias. Com uma aceitável crise de identidade por não compreender a própria história, dei início a uma busca por alguém ou destituído de preguiça ou dotado de honestidade suficiente que me explicasse o porquê de tanto segredo, da equivocada proximidade, do posterior afastamento e da desinteligência que até hoje afronta essas duas mulheres.
Uma versão dessa lenda vigora até hoje pela vizinhança. De domínio público é tão celebre quanto bizarra: Annabel, que gostava de escalar árvores genealógicas, ao descobrir uma ligação com Marlene, honrou tal parentesco distante hasteando a bandeira da paz. E decidiu por conta própria que eu, uma bebê de colo, deveria passar um tempo com a família dela. Para conectar nossas raízes, esclareceu na época aos vizinhos. Raiz de cactus, devia ser, diante das condições adversas e do solo árido e pedregoso.
Diante da dúvida, Annabel garantiu a conexão apontando a imagem de duas trisavós, uma de cada lado. Suspeito. A documentação insuficiente e as fotografias carcomidas que usou para comprovar o laço, nenhuma original ou idônea, expunham duas senhoras nada parecidas, ainda que revelassem pesares e ânimos idênticos, desossados. Mas o denominador comum que Annabel se agarrou para convencer a todos da veracidade do seu argumento foi o pormenor de ambas terem nascido na Itália.
Em décadas diferentes.
E uma longe da outra.
Jurando por deus com os dedos cruzados atrás das costas que o deslize autobiográfico era pura verdade, Annabel persuadiu Marlene a aceitar a inusitada ascendência europeia. Eram tempos difíceis para minha mãe. Sofrendo por um abandono não-consentido, visivelmente perturbada, tinha uma criança de colo para criar, eu, e essa súbita ancestralidade, que estava mais para uma ladainha confusa a fez chegar, um teco coagida, à conclusão de que havia de fato um vínculo sanguíneo entre as duas.
Sem pensar, porque não pensava nunca, minha mãe revogou o passado imperfeito e na intenção de anular suas dores a primeira atitude que teve foi trocar de nome.
Antes se chamava Angélica.
A nova Marlene apagou do mapa a mulher que foi e o casamento que teve (onde o ex-marido, em uma piada revés do destino, era, no caso meu pai). Em um ato de fanfarronice encarnou de vez a diva italiana, fazendo uma triste figura cheia de cacoetes de nobreza, o que levou ao riso os vizinhos ouvintes da sua aula cabulada de história e geografia.
Caída no conto de Annabel minha mãe se tornou um grande nada. Nada italiana, nem grega, nem troiana, nem fulana, nem beltrana ou simpática. Tida por mulher da vida, bêbada e desequilibrada, até hoje ela insufla o boato de andar armada com um chicote de três pontas, mito que usa para se defender.
Tudo balela. Minha mãe não precisa disso. Abençoada por deuses inquietos, ela carboniza à distância apenas com seu olhar de desprezo ofensas ou comentários cruéis metralhados em sua direção. Assim vivemos. Às turras com os moradores da rua, sobretudo entre nós mesmas: ela colecionando polêmicas, eu acumulando pedidos de desculpas, eu implorando para ela ser mais comedida, ela se orgulhando em ser como é, na sua definição, uma mulher sincera e extravagante. Que não sorri à toa, gargalha fácil para os dramáticos que tromba pelo caminho e chora pouco, com lágrimas destinadas somente a quem for merecedor.
Nesse estica e puxa entre a cautela e a inquietação, minha mãe insiste em afirmar que qualquer um aqui é melhor do que eu. Até ela.
Uma observação triste no todo.
Mas acho graça no até.
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Marlene faz um esparrame e embirra com Annabel no páreo da casa mais limpa da rua. A rivalidade de fachada sonega a secretíssima ocorrência entre elas, mas na rixa chapa branca da faxina minha mãe é ótima competidora, embora corra longe com enxeridos que queiram avaliar o asseio. Ou com quem pretenda, ou deva, ou deseje nos visitar, trocar uma palavra, dar um olá, ver se estamos bem ou motivo xis, seja por obrigação, urgência, má-fé ou ociosidade. Como advertência, ela limpa a área encerando o piso ao ponto de ele derrapar vertigens a quem apresente audácia suficiente para cruzar nossa porta de entrada.
Há anos-luz de da dona da casa exemplar, ela garante o brilho graças a um par de meias tricotadas por mim. Entre buracos e pontos cheios, a minha missão, além de pedir paz e luz a cada laçada, era protegê-la do seu ponto fraco, o frio que sente nos calcanhares. A falta de tato de quem repele presentes somente aceitou o mimo após descobrir uma nova função para ele, como sempre preterindo seu conforto e priorizando alguma retaliação. Cuspindo marimbondos com toda a sanha do mundo concentrada na sola dos pés, ela deu por patinar o chão bêbado de terebentina até deixá-lo enxuto e rancorosamente espelhado.
Mas o motivo do nosso lar doce lar ser tão limpo é outro, e a celeuma das peúgas esfoladas de Marlene são desculpas que ela usa para fugir do interrogatório de sobre como vivemos. Uma questão que janta nos lares vizinhos, que fuma entre os colegas de bar, que escorrega com as crianças nas praças. A temática recorrente em todo e qualquer falatório entre duas ou mais pessoas: o porquê e o por causa de quê de morarmos em um local incomum. Oposta a casa de Annabel e Cassiano, tão abastada e copiosa, a nossa é repleta de medos.
Uma casa vazia.
Destituída de tudo, da mobília à família, somos descalças de excessos. Pobres, mas não miseráveis, tampouco religiosas, vivemos com menos que o necessário, sonhando com o supérfluo, invejando o exagero. Cabides, carinhos, colares, colheres, tapeçarias, estantes com livros, cama boa ou farta mesa, não nos sobra dinheiro para bobagens, algo que facilite a vida, um agrado, um prazer. O único e singular calor brota das paredes. Frias por natureza, nos aquecem através de uma eficiência gerada pelos exóticos souvenirs colecionados por Marlene: fotografias dos nossos antepassados. Retratos que começou a grudar quando ainda tinha um norte, bem antes de ser desgovernada. Curiosamente, a galeria de natureza morta não inclui a trisavó duvidosa, e até onde eu saiba, de todos os parentes emparedados, nenhum é italiano.
Para quem vê de fora é uma residência normal. Ambiente caseiro, porém honesto, um pouco parado no tempo, bastante melodramático. Por dentro há o bônus histórico ancestral, enquadrado, horrendo. Sou assistida vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana por mulheres de feitios maldispostos, crianças cínicas, bigodes sarcásticos. Seres misteriosos que se sabe lá quais histórias viveram. Se foram aventureiros, otimistas, infelizes, ricos, vulneráveis ou magros, se mamaram anticorpos suficientes nas tetas das mães, se lidavam bem ou mal com problemas. Hoje nada disso importa perante a luta contra os carunchos e ao esquecimento que contamina as novas gerações.
Os olhares, embora liquidados pelo tempo, persistem alertas, bem vivos. Testemunhas oculares da minha solidão influenciam meu humor, nem sempre para o lado bom, com um toque de cor desmaiada no meu dia tingido por uma escala de cinzas.
Alguns esfregam na minha fuça um ar devastado, outros destilam deboche, resistência e mais uma ou outra expressão facial que não decifro por completo. Deles, tudo ouço. Das caretas de apelo a mímicas de socorro, do trauma empalhado ao estalinho do relógio, da respiração ofegante ao pulmão descompassado. O contato visual desafia a onipotência da morte mas não entrega a causa do derradeiro suspiro, e eu me pergunto se vieram parar aqui via causa natural, doença, acidente, assassinato ou por vontade própria. Se colheram os louros da vida ou apenas bateram cartão de ponto. Se agonizaram por horas ou dormiram sem despertar. Se tiveram as últimas palavras amparadas ou morreram completamente sozinhos.
O convívio entre nós duas e os emoldurados é intenso. A cooperação é outorgada mas nem sempre mútua. Encafifada com as sombras que vê a cada passo cravado que dá, Marlene não se faz de rogada. Vira os espectros mais aguçados para o que ela chama de paredão do isolamento e pune a contemplação do futuro com a eternidade fadada para trás. Não há hipótese de fuga e sem a opção de morrerem pela segunda vez, aqui, e para todos, a prisão é perpétua. Nem a intimidade da convivência esclarece se somos vistas por eles com bons olhos. Se no juízo final sobrará um fiapo de gratidão por terem sido eternizados, ou se a atmosfera opressiva que assombra até nossos fantasmas é a tradução de um grande estorvo coletivo causado pela infinita privação de descanso.
Além do inusitado álbum de fotos em tamanho família, que na bem-sucedida função da reminiscência amanhece todos os dias me encarando de frente, nossa casa conta com muitos rumores e poucos itens decorativos. Isso inclui o último namorado de Marlene. Todos os homens que ela traz para casa são péssimos, mas a competência desse em nublar nossas vidas o fez demorar a receber a patente de ex. Um tipo que quando dava as caras por aqui dormia o dia todo. Acordado, sumia por semanas. Voltava sem avisar, o sorriso cheio de dentes, como se nada tivesse acontecido. Na intersecção de tempo em que o casal se encontrava, o sujeito era rude, fazia exigências, reclamava de tudo e não raro batia nela. Duro é realizar que nessa história a filha da puta, no amplo sentido da expressão, sou eu.
