Você abre a porta do closet e aspira a lembrança da loção pós-barba dele. As roupas já estão sendo levadas para a van da ONG que recebe doações. Quase trinta anos de um bom casamento.
Eldo era trabalhador, temente a Deus. Vivia da casa para o trabalho e vice-versa. Não bebia, não deixava faltar nada e nunca tinha levantado a mão contra ela. Viajava demais, é certo, mas era por causa do trabalho. Atravessava o mundo, até a China, onde ia se reunir com clientes e fornecedores.
Verdade que era meio distraído, coitadinho. Vivia perdendo as alianças de casamento. Uma deixou cair na pia no clube, outra perdeu no mar. Também era azarado. Duas delas foram roubadas, uma na rua e outra em casa mesmo, pela empregada antiga em que tanto confiavam. Ao todo, além daquela do casamento, foram seis alianças ao longo dos anos. Você repôs todas, fazendo questão de encomendar sempre um modelo igual ao seu, de ouro 18 e modelagem grossa. Quando morreu, ele estava sem.
Desde que se mudaram para aquele apartamento, o único depois da quitinete de recém-casados, Eldo fez questão de montar dois quartos de dormir. Dizia que tinha poucas manias, e dormir sozinho era uma delas. Você respeitou, claro. Por isso, cada um tinha sua própria cama e closet. Quando faziam amor, era sempre no seu quarto e na sua cama, maior que a dele.
Você poucas vezes tinha entrado no quarto dele, nunca no closet. Nem quando mandaram embora a empregada de tantos anos pelo roubo da aliança, porque ele mesmo começou a passar aspirador.
Tem um leve tremor quando se vê no espelho de corpo inteiro. Seu corpo ainda conserva certa graça na curva da cintura, o rosto só agora começa a delinear as primeiras rugas. Os olhos, esses sim, parecem agora sombrios e envelhecidos.
Um dos homens da doação entra para perguntar se era para levar embora a caixa também. Você olha na direção que ele aponta e vê um objeto escuro pousado sob a sapateira vazia.
– Deixa essa caixa aí – diz, tentando disfarçar a surpresa. Nunca tinha visto aquilo antes.
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Você tinha voltado do escritório com a cabeça fervendo. Quem a tinha recebido foi a Silvinha, que cuidava das coisas do Eldo. Ela tinha herdado o negócio de contabilidade e despachante do pai, que tinha sido assassinado num assalto tempos atrás. Ela estava sentada à mesa que era de Eldo. Loira de farmácia, cabelo armado, já tinha passado dos trinta. Você e ela eram da mesma igreja, e se cumprimentavam quando se viam nos cultos. A contadora bateu com a unha bem cuidada num papel que segurava:
– Olha, vou ser direta. O seu Eldo não deixou muita coisa além de dívidas. A firma dele não ia bem das pernas desde que os chineses interromperam os contratos. E as viagens que ele fazia custavam bastante.
– Mas como, se ele continuava indo encontrar os compradores chineses? Duas vezes por ano, pelo menos.
– Estou ciente, dona Rosa. É que ele gastava muito a cada viagem. Mas não conseguia fechar contrato nenhum ultimamente. A concorrência, a senhora sabe…
Você não sabia.
Silvinha disse que o apartamento era o único patrimônio que restava. Até o carro era alugado. Você pediu para ela encerrar a firma e vender os móveis do escritório. Se o Eldo confiava nela, por que você não deveria?
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Você arrasta a peça de madeira escura para fora do armário. Parece antiga, com detalhes decorativos num tom mais claro, talvez fosse espólio da família dele. É quase uma canastra. Grande demais para uma caixa de joias e muito alta para acomodar um faqueiro, mesmo aqueles de dois andares. Está trancada, sem chave à vista. Você sabe que há objetos ali dentro, pelo barulho que faz ao chacoalhar, mas o quê? Você e Eldo não tinham segredos um para o outro. Foram primeiros namorados e se casaram antes dos vinte. Desde então, partilharam todos os momentos em que ele não estava viajando.
Eram viagens cansativas, você sabia. Por isso nunca tinham ido à Itália como você queria. Ele nem gostava de avião. Vivia repetindo que não tinha sentido um bicho pesado daqueles se manter no ar como uma pena. Também se queixava do aperto, do inchaço nas pernas, das longas filas na imigração. Cada vez que voltava, contava uma história de perrengue no ar. Só fazia o sacrifício porque era forçado pelos negócios. Que por sinal não iam tão bem assim, como só hoje você descobriu.
Você vai buscar a bolsa no seu quarto. Senta no piso do closet e espalha o conteúdo no chão. Separa o único objeto que não lhe pertence. Mais cedo, no crematório, haviam lhe entregado, antes mesmo da urna com as cinzas, o medalhão de São Cristóvão que ele nunca tirava do pescoço. Não se separava do cordão com a imagem do protetor dos viajantes nem para tomar banho, nem para transar.
Você se pergunta como devia ser incômodo andar com aquele peso no peito. Manuseia a peça até perceber que se trata de um relicário, que realmente protege alguma coisa. Um clique e as duas metades abertas revelam a chave.
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Às 3 da manhã, você dirige até a Ponte Estaiada e para no ponto mais alto, junto ao meio-fio da direita, bem rente à amurada de concreto. Nada à vista na rampa, mas vários veículos seguem lá embaixo, nas avenidas que margeiam o fluxo escuro do rio Pinheiros. Abre a janela do lado do passageiro. Faz calor e não há vento.
A caixa está pousada no banco do carro. Você a abre e retira o maço com as fotografias. Eldo e Silvinha sentados numa charrete numa praça do interior. Eldo estendendo a mão para uma Silvinha de maiô sair da piscina em algum resort. Servindo-se num bufê, ele de calção, ela de saída de praia. De paletó e vestido longo dançando numa boate. Vestidos de caipira numa festa junina, provavelmente no Nordeste. Erguendo copos numa vinícola no Sul. Sentados no que parece ser um ônibus-leito. Nenhuma foto em avião, nenhuma na China.
Você resolve começar pelas fotografias. Depois iriam as seis alianças e, por último, a pistola (Magnum Desert Eagle ponto três-cinco-sete; você sabe porque pesquisou).
Retira o elástico e começa a rasgar as imagens, metodicamente, um corte na altura, outro na largura, e as lança no vazio, uma por uma. Talvez nem todos os pedaços caiam no rio. Que as capivaras que moram na margem façam bom proveito, você pensa. Você não se importa. Nada mais a incomoda.
Antes de ouvir, você pressente a batida seca no vidro do seu lado. Dois homens de capacete preto em uma moto. O garupa tem um martelo apontado em sua direção. Mostra o próprio dedo anular, como quem pede a aliança. Você leva a mão direita à caixa. Nos dedos em pinça, apresenta a ele uma das alianças do Eldo. O capacete se move fazendo que sim. Você abre a janela e deixa cair o anel, que tilinta pelo asfalto. Pego de surpresa, o homem não consegue evitar baixar a vista para acompanhar a queda. Quando retoma a postura, já com o martelo erguido, dá de cara com o cano da Magnum. Enorme. Brilhando na luz fria de LED.
O susto faz o piloto acelerar. O garupa escorrega do banco e cai no asfalto. Mancando, levanta e corre pela pista até alcançar o parceiro. Os dois somem no trecho em declive para o Real Parque. O martelo fica largado no meio da ponte.
Você joga o resto das fotografias pela janela da direita, sem rasgar.
No retrovisor interno, seus olhos cintilam. Gira o corpo e tateia o banco de trás até encontrar a urna funerária, que permaneceu ali desde que saíra de Vila Alpina, na manhã daquele dia longo demais. Olha bem a peça de cerâmica bege cujas curvas tentam parecem modernas, mas que agora lhe parecem absurdamente ordinárias. Usa as duas mãos para arremessar o vaso o mais longe que pode. Ele não quebra, como você imaginava. Em vez disso, a tampa se solta e uma nuvem cinza acompanha sua trajetória ladeira abaixo.
Você fecha os vidros de ambo os lados e arranca cantando os pneus. Resolve ficar com as alianças e o revólver. Quase cinquenta gramas de ouro serão suficientes para bancar um longo passeio pela Itália. De navio, quem sabe numa cabine dupla com vista. E a pistola será útil no dia seguinte, quando pousá-la na mesa do escritório e mandar a Silvinha refazer a contas.
