Era uma rua imponente, de casarões, fachadas largas, cães de guarda; uma via suave sob as sombras das árvores nas calçadas e de dentro das casas, jardins protegidos. Em uma esquina, havia uma cabine com garrafa de café frio e calendário da Vanusa Splinder pro vigia da rua. Mas o segurança, um homem simples e até querido pelos moradores, não estava e não iria aparecer.
Sobre o lugar em si, era difícil falar estando na calçada. De fora nada se enxergava. O muro, áspero, chapiscado, desfavorável ao grafite. Parece tão distante e impessoal quanto as demais. Não se aproxime, parecem sugerir. Mas há sinais que revelam seu abandono. A calçada entremeada de rachaduras e capim. O portão de madeira com sinais do empenar sob o sol e a chuva dos anos.
Se você eventualmente saltar o muro durante a noite, talvez buscando um furto, um abrigo, algo para aplacar seu vício, talvez seus pés recaíam sobre o capim que já foi gramado. Os tornozelos mergulhariam num mato espesso. Se for uma noite enluarada, você certamente irá estranhar o pretume. Não há o leite da noite temperando a escuridão, seus olhos demoram a se acostumar. O espaço ali seria o suficiente para caber talvez uns três ou quatro carros, daqueles bem grandes e chiques da época, Landau, Galax, um Alpha Romeu. Mas se houve carros, eles foram removidos, talvez recuperados pelos bancos com alguma medida judicial.
Seus pés tateiam o chão em direção à silhueta da casa, agora uma mera silhueta de caixotes, cujos olhos – janelas – estão abertos e vazios como os de um vítima de acidente, o corpo ainda preso nos escombros, aguardando a chegada dos bombeiros. E você se aproxima da porta envidraçada já sem nenhuma vidraça, e você será capaz de prever que outros estiveram ali e dificilmente haverá algo de valor. Mas agora é tarde demais para recuar e você adentra pela bocarra, os pés esmigalhando cacos velhos de vidro e de cerâmica, o nariz sentindo cheiro de umidade e merda velha. O escuro diminui um pouco, pois você só liga a lanterna dentro da segurança da casa e ilumina um aviso pichado na parede da sala “NÃO VÁ NA PISCINA”.
A sala tão ampla quanto desprovida faz com que seus passos formem um leve eco. No teto, buracos por onde pendem fios indicam onde haviam lustres e luminárias. Persianas verticais formam um conjunto irregular e balançam sob a brisa. Ali, há uma cadeira ganhadora de prêmio de design, já toda mutilada e manca. Não que você entenda de cadeiras. Folhas e galhos substituem os tapetes que um dia deveriam estar ali. A paredes estão marcadas com cicatrizes de antigos quadros pendurados.
Você arrisca a cozinha, talvez tenha sobrado alguma louça ou talher ou uma lata de pêssegos portugueses, mas as portas e armários jazem com portas arrebentadas e entreabertas. Marcas no piso indicam onde ficariam a geladeira, o freezer, o fogão. Uma sombra se move no armário debaixo da pia, deve ser um rato ou uma barata.
Você sobe a escada para os quartos, uma escada um tanto estreita para uma casa deste tamanho. O corredor também é apertado e escuro e você percebe que a parte debaixo deveria sempre impressionar mais que a de cima, onde as pessoas dormiam. Você ignora o quarto com os dois berços e papel de parede com desenhos de brinquedos; mas gasta muito tempo no quarto do casal, no closet e investiga os espaços vazios de cômodas, na esperança de um brinco, de um relógio. Tudo que encontra é uma fotografia rasgada, a família reunida em uma festa de Natal.
Enquanto você desce as escadas, a lanterna reflete em um objeto em uma das prateleiras de um dos armários da cozinha. Poderia ser aquela lata de pêssegos ou um liquidificador. Fica muito alto e quando você tenta escalar as prateleiras de baixo cedem sob seu peso. Você começa a procurar algo, sua lanterna se volta para a cadeira ganhadora de prêmio, mas ela não está onde você esperava. O facho de luz fica confuso e percorre as paredes e nota que ela estava para o lado de fora da casa.
Intrigado, você atravessa a porta envidraçada e imagina que a escuridão possa ter confundido seus sentidos, sem luz, sem referências, o que se espera em um lugar pode estar em outro. Caminha sobre o percurso sugerido pelas pedras dispostas em fila até a cadeira, mas lá adiante você percebe que há uma escada solta no chão, não distante do retângulo negro rodeado de azulejos, a piscina.
Evidente que se deve ir até lá. E enquanto você se abaixa para pegar a escada, você é atraído pela presença da piscina. Estranhamente cheia de água lodosa, encapada por uma película de folhas mortas para não dizer secas. Sua lanterna localiza bóias murchas e ressecadas, as cores queimadas pelo sol, pequenos cavalos reduzidos a meras uvas passas. Você deveria ter atendido ao conselho da parede, pois o facho localiza os gêmeos ainda ali, inchados e procurando uma saída mesmo sem saber nadar.
