“Ei painho, eu sei que o senhor tá aqui. Tô sentindo seu cheiro.”
Gotas de suor deslizavam pela pele negra de Clarinha, escorrendo da nuca, oculta sob as tranças grossas que repuxavam suas raízes. Ela tinha passado a manhã limpando a casa e separando o que iria para o lixo e o que poderia caber na mala sem rodinhas. O vestido amarelo estava ensopado ao redor dos peitos firmes e redondos. As pernas doíam e a boca salivava por uma cerveja gelada.
“Vou só ali e já volto. Me espera.”
O primeiro gole foi para o santo, derramado ao lado do tronco largo do jambeiro, que seus braços firmes não conseguiriam abraçar. Clarinha sentiu a textura da árvore pinicar suas costas e foi escorregando devagar, segurando o copo e com a cabeça um pouco curvada. Seu vestido foi subindo enquanto as pernas se abriam até ela se sentar no chão, revelando sua calcinha. Ela fechou os olhos, respirou fundo e suspirou.
“Pronto, agora podemos conversar.”
Vindo do horizonte, um trovão fez tremer o copo apoiado na terra molhada.
“Ih, painho. Acho que minha mãe também tá por aqui. Família toda reunida hoje hein, quem diria. Um brinde!”
Mais um trovão tocou o mar e piscou o céu. Clarinha gargalhou e em seguida terminou a cerveja, em um único gole.
“Painho, não sei nem por onde começar. Eu sabia que o senhor ia tá por aqui, disso eu tinha certeza. Eu sei que eu demorei, desculpa, mas essa despedida ia chegar e ia ser na hora certa… Já sei, posso começar falando desse seu cheiro e da última vez que a gente se viu, lá no hospital chique de Salvador. Nisso o senhor acertou. Ainda bem que Jorge entrou nas nossas vidas e fez questão de pagar um hospital particular pra você. Ele é um homem bom, painho, é verdade. E ele gostava muito do senhor. Mas não era um homem pra mim… Ele me disse que estava com o senhor quando você se foi. Que seus olhos estavam tranquilos e que segurou sua mão até o fim.
Mas eu não consegui estar lá.
Aquelas enfermeiras me davam um ódio! E o médico mais ainda. Só porque já viram tanta gente morrer parece que nem se importam mais! O senhor se lembra que elas queriam te dar banho ali deitado e nem pediram pra eu sair? Foi por pouco que eu não te vi pelado, daquele jeito, todo fraquinho…
E aí teve a última noite que eu dormi empoleirada na poltrona e você acordou vomitando. Corri pra te virar de lado e o senhor vomitou no meu colo.
Esse mesmo cheiro que eu sinto aqui, hoje.
Eu sei, depois não voltei mais. Me desculpa?
Você deve se lembrar que eu apertei o botão e as enfermeiras chegaram e me empurraram dali. O senhor me olhou da porta, e eu li nos seus olhos “Vai, filha!”. O mesmo “vai” que você me disse aqui nos corais antes de eu me casar. Mas um “vai” que você não ia conseguir me dizer se eu te contasse dos meus planos. Da minha nova vida.
Foi por isso que eu parei de te ligar.
Jorge não esperou nem três meses de casado pra começar a falar de filhos! Ô, painho, aí ficou difícil. Eu queria mesmo te dar netos de monte, mas a vida na cidade tava só começando. Salvador é mesmo tão linda! Mas calma, não tão bonita como aqui. Essa maré, nossa casa, os peixinhos… Mas as pessoas, não sei… tão vivas, sabe? Tanta gente sonhando com tanta coisa e não só com casar e ter filhos…
Jorge não entendeu. Achou que o problema era com ele e que eu tava arrependida de ter casado! Eu não tava! Mas ele não queria viver. Ele ia pro escritório e me deixava em casa e eu não podia nem limpar os pratos. Era pra deixar tudo pra Roberta, que tinha a mesma idade que eu, e demorava mais de uma hora pra chegar na Barra, todo dia. Você imagina isso? O mesmo tempo que a gente leva pra sair da ilha! E num ônibus lotado.
Foi a Roberta que me levou pela primeira vez pro samba. Que eu gostava de dançar, o senhor se lembra, né painho? Só que eu ainda não conhecia o samba de verdade, samba raiz, eles chamam aqui, mas o de Salvador, não desses pra turista ver que nem tinha todo verão. Tanta gente parecida comigo, painho! Tanto tambor…
Hoje eu sei porque o senhor não quis mais que eu voltasse pro terreiro de minha mãe.”
Clarinha olha para o céu. Os estrondos dos raios e trovões tinham diminuído. Mainha já estava indo embora, mais uma vez sem se despedir. O mar agora gritava sozinho.
“É painho, tamo só nós dois de novo. Será que o senhor sempre soube que mainha era filha de Iansã? Ou melhor, vou falar nos seus termos, de Santa Bárbara… Será que o senhor sabia? Eu só fui lembrar disso recentemente, bem depois de crescida, indo lá no terreiro que Roberta me levou. Até achei que tinha visto ela por lá. Sim, mainha. Queria muito que ela tivesse por ali. Você sabia painho?
No terreno de Roberta não tem tanta galinha morta, que nem o que eu ia quando era pequena. Nem galinha nem gente tomando sangue. “Isso não é coisa pra criança.” Eu me lembro bem desse dia e de vocês brigando. Você já tinha entrado pra igreja, ficava todo arrumado pro culto, até um terno azul você comprou. Foi esse mesmo terno que eu falei pra Jorge que queria que o senhor fosse enterrado. Pedi caixão fechado, mas ele deve ter escolhido o certo. Nunca perguntei…
Eu não aguentei, painho. A gente já tava no carro vindo pra ilha, seguindo o carro da funerária, preto, enorme, bem na nossa frente, mas eu pedi pra descer.
Tia Bina e Zé tavam na frente, Jorge do meu lado, com um ar-condicionado estralando… E aí sua música tocou. Não sei se foi coisa de maldade da tia, ou destino, não sei. Ainda não entendia dessas coisas. “Eu só sei fazer amor te chamando, gritando seu nome/ Eu só sei te amar…” Sua voz grossa tentando imitar Pablo. O senhor cantou tanto quando minha mãe foi embora. Depois até cantamos juntos.
A gente tava passando bem na frente dos dendezeiros e eu senti seu cheiro. O seu cheiro mais o cheiro de vômito, igual daquela última noite.
Não queria reencontrar todo mundo, painho. Tinha três anos que eu tinha casado e tanta coisa tava diferente. Não queria os abraços dessa gente falsa que só sabe fuxicar. Não queria ter que dar explicações da minha vida e porque ainda não tinha filhos, se nem casada eu tava mais.
Tava no meio da música e eu pedi pra descer. Dei um grito, um berro mesmo, e Jorge pediu pra tia Bina encostar. Fiquei ali no posto esperando uma carona. Você seguiu caminho.
Painho, o senhor se lembra de quando eu voltei da praia de lá, devia ter uns quatorze anos, mainha já tinha ido embora, e teve samba naquele dia. Eu dancei, suei, os meninos até deixaram eu cantar junto. Aí chegando em casa o primo Cosme disse que tinha uma mulher de vermelho me seguindo? Eu olhei pra trás e não vi nada, e ele ficou olhando e olhando pra minha sombra. Ela tá aí com você, ele me disse. Até achei que ele podia tá falando de mainha, mas se ela não morreu, então não era assombração.
Eu vi essa mulher de novo painho. Eu não, mas me contaram que agora ela anda sempre comigo. E é bom. Sinto ela mais forte quando eu saio pra cantar. Pois é, painho. Tava guardando essa notícia de você até chegar a hora certa. Só aconteceu.
Eu tava com Roberta uma noite na Ribeira, perto da casa dela, e já tava pra me separar de Jorge. Só não sabia onde ia morar. Ela me chamou pra dormir lá e combinou de deixar a filha com a prima e a gente foi. Bem cheirosas e arrumadas. Peguei um vestido vermelho emprestado, que Jorge já tinha mudado todo meu guarda-roupa. E a gente foi.
Painho do céu, você nem imagina o que foi aquilo. Eram uns amigos de Roberta que tavam cantando esse dia, e Roberta já tinha me ouvido cantar em casa, no banho, enquanto arrumava o quarto. Fez até gracinha dizendo que eu tinha talento, mas eu é que não acreditei. Depois de uma ou outra dose – se preocupa não, painho, eu sei me controlar – eles me chamaram no microfone. Olhei bem feio pra Roberta, não queria não. Que vergonha. E eu nem sabia que música ia cantar. E se eu não soubesse a letra? Que música que eles iam gostar?
E aí veio, painho. Sabia a música todinha. Senti meu peito esquentar, a boca abrir… A ventania saindo de dentro… Acho que essa você não conhece, mas xô cantar um pedacinho pro senhor:
“Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida / Na avenida dura até o fim / Mulher do fim do mundo / Eu sou e vou até o fim cantar”.
Sabia que a voz dela era grossa igual a minha, painho? Igual a sua… E era preta que nem a gente. E filha de Iansã também, e isso foi Carlinhos que me disse. Ele também tava lá esse dia, me ouvindo cantar. Me chamou de canto, achei que ia até me queixar, negão bonito da porra, mas não, é viado no mundo. Cê ia gostar dele. Ele é engraçado. E depois disso comecei a cantar toda noite com o grupo dos amigos da Roberta. E Carlinhos querendo me levar pra outros shows. Me produzir…
To indo pra São Paulo, painho. E não podia ir embora sem me despedir. E também vou ter que fazer uma coisa que eu não sei se você vai me perdoar…
Vou vender nossa casa. O jambeiro junto… Preciso de dinheiro pra ir lá investir na minha carreira. Carlinhos disse que é em São Paulo que as coisas acontecem. Que eu vou ser reconhecida, que vão me ouvir cantar. E que depois eu volto pra cá e compro de volta o terreno. E quantos mais eu quiser…
Torce por mim?
Então vim aqui pedir sua benção, painho.
Me deixe cantar até o fim.
