
Agora você vai contar na pessoa mais difícil: na segunda pessoa.
A literatura escrita usando a narração na segunda pessoa é recente pois, você sabe, o você quase sempre foi usado de modo retórico, como se fosse apelada uma pessoa que está fora do texto. De fato, este modo é bem velho, está até na Bíblia, como você bem sabe.
Valores imediatos da segunda pessoa: a persuasão, a intimidade, a proximidade, a simpatia. É muito fácil resvalar no tom de conversa olho no olho.
Mas não é o único modo de narrar na segunda pessoa — como sabem muito bem os publicitários. A propaganda, você já sacou, é o lugar em que a segunda pessoa é a preponderante. Afinal, os publicitários querem convencer você a comprar aquele produto, a fazer tal coisa, a votar no candidato xis. É claro que é uma grande enganação: a publicidade faz com que você pense que você está no centro das atenções, mas o que na verdade está no centro das atenções é o produto que está enfiando por sua goela abaixo. De todo modo, pegue um anuário de criação antigo – até os anos 90, digamos – e veja como todos os textos são dirigidos a um você invisível.
Na literatura ainda há poucos exemplares realmente bem formulados de textos escritos na segunda pessoa. É a pessoa mais rara de ser encontrada. E, de modo geral, há duas maneiras de usar a segunda pessoa:
- O tu convencional: como uma carta, como alguém a quem se dirige a narrativa.
aí estão textos como o já clássico “Apelo”, de Dalton Trevisan (Os desastres do amor, Record); “O ventre seco”, de Raduan Nassar (Menina a caminho, Cia das Letras); “Os usos da casemira inglesa”, de Moacyr Scliar (Contos reunidos, Cia da Letras).
*
Apelo, Dalton Trevisan
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
*
2. O tu desconstruído: moderna e contemporaneamente, há o uso do “você” como se fosse um “ele”, uma vez que se trata efetivamente de uma narração na terceira pessoa; no entanto, a troca do “ele” por “você” traz um efeito estranho à narrativa, colocando o leitor dentro do texto.
Tenha em vista que usar “você” dentro do conto aproxima sua prosa da metaliteratura; ou, no mínimo, de uma literatura que dialoga com um fictício leitor.
É preciso um objetivo para usar este truque. Em “10 maneiras infalíveis de arranjar um inimigo”, de Marçal Aquino (Faroestes), ou em “Distraída”, de Lydia Davis (Tipos de perturbação), a meta é aproximar o leitor de uma situação estranha, ganhar sua empatia ou seu nojo.
Existem outras motivações para a segunda pessoa.
O conto “A segunda pessoa”, de Ali Smith (A primeira pessoa, Cia das Letras), é o exemplo mais clássico e divertido dessa técnica. Um exemplo melancólico é o capítulo “Fora do corpo”, do romance A visita cruel do tempo (Intrínseca), de Jennifer Egan é outra peça do quebra-cabeça deste polifônico e multifacetado romance; já o romance Como ficar podre de rico na Ásia emergente (Cia das Letras), de Mohsin Hamid, todo narrado na segunda pessoa, faz uma paródia dos livros de auto-ajuda; o recente Noite dentro da noite (Cia das Letras), de Joca Reiners Terron, faz um uso ainda mais tortuoso, pois a segunda pessoa na verdade se refere ao próprio autor do romance, que estaria escutando sua própria história da boca de um narrador invisível.
Vamos a Miss Egan.






















E agora vamos a Miss Smith, recentemente defunta e recentemente cancelada post mortem:












PROPOSTA
É isso aí que você vai fazer. Vai escrever um conto na segunda pessoa. Importante: o personagem não é você. Não pode nem sequer ser parecido com você. Não pode ser do seu gênero, da sua idade, da sua classe social.
NÃO PODE.
Mas você pode escolher uma das opções:
A. O tu convencional: escrever um conto dirigindo-se a uma pessoa fora do texto, como se fosse uma carta. Não é preciso, no entanto, usar a forma carta, há muitas outras (emails, discursos, monólogos, mensagens etc);
B. O tu desconstruído: escrever um conto usando o “você” como se fosse uma terceira pessoa, narrando uma história incluindo o leitor dentro da ação.
Neste conto, “você” está em frente ao espelho:
• fazendo a barba;
• fazendo um curativo;
• fazendo uma maquiagem;
• preparando um disfarce;
• fazendo uma cirurgia;
- fazendo amor;
- fazendo uma comida;
- fazendo uma trapaça;
- fazendo hora;
- fazendo uma performance;
- fazendo uma mágica;
- fazendo uma coisa muito suja;-
• cortando o cabelo;
• desenhando um autorretrato.
“Você” poderá estar:
• sozinho;
• acompanhado por uma pessoa, que o ouve;
• acompanhado por uma pessoa, com quem conversa;
- acompanhado por mais pessoas, com quem interage..
“Você” surge em três ações:
1. a ação escolhida acima;
2. a descrição do rosto de “você”;
3. a descrição de um crime cometido por “você”:
a) no passado, em forma de memória;
b) ou no momento em que a ação acontece, no momento presente.
Você não poderá usar:
• substantivos abstratos;
• advérbios.
Você limitará ao máximo:
• adjetivos
Em lugar disso, você se obrigará a usar:
• símiles;
• comparações;
• metáforas.
Em uns 12 mil toques.
