por Américo Paim
Você está sentado na sua sala, na sua cadeira de poder. Sua cabeça não para, enquanto bebe a dose exagerada de uísque nessa noite quente de sexta-feira. A foto sobre a sua mesa tem quase vinte anos, em frente à casa. Tudo era nascer de sol, não essa noite de escuridão perversa e inesgotável que hoje lhe domina. Pouco tempo depois dali tudo desceu no ralo de esgoto. Desde então só piora. Você pensa que deveria ter destruído essa foto, arrancado a árvore pela raiz, cavando a terra para conferir se não ficou nada lá embaixo. Por que guardei essa foto dela? – você se pergunta. Talvez uma última memória de sanidade. Sua vida hoje é inqualificável, você sabe, apesar de lhe parecer cada vez mais natural. Sua escalada de horror assusta qualquer um. Não a você, que apaga as coisas como se fossem nada. No tempo dessa foto você era um ser humano. Sim, Medeiros, você já foi uma pessoa – você reflete. Você nota o papel amarelando, um contraste com o vermelho sangue que é sua vida.
Você olha a foto e respira devagar. Ali sua vida era uma coisa só: Semíramis, sua musa, seu tudo. Aquela pele bonita, bem cuidada. Os cabelos longos e louros que você era apaixonado, um sorriso solar, o corpo sem imperfeições, uma mulher perfumada e discreta. Desde o namoro até se casarem, cinco anos. Depois, mais seis juntos. Pouco? Diante do que se passou, um nada. Caberia agora um sorriso de saudade, mas você nem conhece mais esse gesto. Você gosta de pensar que era tudo como uma mentira inocente, amaciando o coração, sem fazer mal a ninguém.
Você manda Maromba, seu segurança, sair da sala. Agora está só. Na foto, você, Semíramis e Sanduíche, aquele caramelo adotado. Foi logo depois do casamento. Vieram morar aqui na cidade, no apartamento pequeno, perto da entrada da Serra. Tantos planos por realizar. As coisas iam tão bem entre vocês, como você queria. Sua performance como operador de guindastes na construtora era diferenciada. Seu chefe, animado, já lhe dava as máquinas maiores, as das tantas toneladas. Da cabine apertada e quente para a tecnológica com ar-condicionado. Elogios, salário crescendo, vida sendo construída. Ela desistiu de trabalhar para cuidar da casa. Dizia que foi porque quis, mas você sabe que a pressionou. Muito. Mulher sua não trabalharia fora. Coisa da antiga em que você acreditava. É irônico pensar nisso agora, por tudo que aconteceu.
As lembranças lhe levam a mais uma dose indecente de uísque. Você a cobria de mimos e controle. Carinhos, passeios, viagens, sexo bom, saúde em dia. Vizinhos admiravam o casal. Semíramis, a linda e simpática. O pessoal do trabalho lhe respeitava. O vice-presidente um dia lhe chamou de “artista da movimentação de carga”, que “você poderia colocar uma linha na agulha usando um guindaste”. Você adorava os exageros. Foi nesse tempo que ganhou o apelido de Moitão. Você começou a sair mais com a turma da empresa. Esticadinhas se repetiram até Semíramis, entediada, lhe dizer pela primeira vez que queria trabalhar fora. Você não ouviu aquilo com empatia ou paciência. Foi grosseiro, bruto e claro. O assunto não deveria voltar.
Você pega a garrafa e anda pela sala, apaga as luzes e senta-se no sofá, lado oposto à sua mesa. Acende a luz fria do abajur. Você dá um longo gole, enche o copo outra vez. Fecha os olhos e recorda toda a sequência de acontecimentos a partir daquela vontade dela, como se tudo se passasse agora.
Você começa as coleções para ficar mais tempo em casa com Semíramis. Ela gosta. Primeiro as moedas. Seu avô fazia e você achou uma boa ideia. Chega a ter um número bom, mas demanda estudo e você se aborrece logo. Semíramis acha chique e fica triste. Sua escolha seguinte piora as coisas. Os insetos alfinetados eram volta à infância, quando catava tudo que era bicho e guardava em garrafas, caixas de papelão. Agora você os espeta em alfinetes e coloca em painéis. Também não dura. Ela acha nojento e você precisa manusear com muito cuidado e paciência, algo que não é o seu forte, você sabe. Mesmo assim, não passa por sua cabeça desistir das coleções e, por exemplo, arrumar uma atividade junto com ela. Aí vem a fase das miniaturas de caminhões e guindastes. Você se apaixona e começa sua nova coleção. Essa dura e ela não reclama. Acha bonitinho.
Você ganha uma promoção importante no trabalho e passa a ser gestor da frota de máquinas, com muito mais dinheiro. Ela fica ainda mais feliz. Muito também porque vocês se mudam para aquela casa na periferia. Muito mais espaço e uma oficina no quintal. Porém, em pouco tempo, você ouve as primeiras queixas dela. Que você está obcecado com seus modelos de plástico, que não lhe dá mais atenção. Volta a conversa do trabalho fora. Não presta no primeiro dia, muito porque você bebeu. Empurra ela, que machuca o braço contra a parede. Passa por raio x na emergência. A entrevista com o médico lhe deixa desconfortável. Ela mente. Ali você tem total certeza de que ela tem medo. E ela sabe então que precisa ir embora. Aquilo lhe deixa um gosto amargo na boca.
Você abre os olhos. Parece sentir o cheiro dela. Por que não guardei um chumaço de seu lindo cabelo? Você sabe que aquela foi a sua coleção mais bizarra. Ali se definiu o fim de tudo.
Você começa a guardar todo o cabelo que você e ela cortam em um grande pote de vidro que você gosta de olhar todo dia. A cada mês você a obriga a cortar mais cabelo e o pote enche. Ela começa a se desconectar. Você piora tudo quando coloca o pote na estante da sala. Você vê todos os dias. Os empregados também. Eles falam, riem escondidos. Ela começa a dizer que você está enlouquecendo e coisas assim. Não quer mais sair, falar, não quer sexo, sequer lhe ver por perto. Apesar de as coisas estarem por um fio, você se sente com a cabeça boa, no controle. Admira o pote com cabelos pretos e amarelos.
Tempos depois, em um bar, você conhece Guará. Verdadeiro artista, coisa de profissional. Faz qualquer coisa com massa e cerâmica, com muita habilidade. Conhece a oficina dele e propõe a ele fazer uma escultura da cabeça de Semíramis, para você presentear sua musa. Sugere que Guará trabalhe na sua oficina, pois terá a chance de ver sua esposa de perto e o resultado será melhor. Você acha essa ideia perfeita. Ele faz o trabalho e ela gosta muito. Por um tempo parece que ela está voltando às boas com você. Aí surge aquela obra importante e você fica muitas horas por dia fora de casa e até viaja. Ela tem uma ideia que você não acha boa, até porque ela não lhe conta. Você descobre depois. Ela encomenda miniaturas de cabeças de pessoas da família e até de alguns amigos. E combina com Guará que utilize sua oficina, pois você não coloca os pés lá há muito tempo. Assim acontece durante alguns dias. Ele é um sujeito bonito, magro, mas forte, com bigode e cavanhaque. Usa roupas coloridas. Tem uma voz suave, quase hipnose. Depois de fazer várias cabeças para ela, o artista aceita a última encomenda. É um erro.
– Guará, acho que não tenho mais cabeças para você.
– Foram doze, Dona Semíramis. Trabalhão.
– Ainda esse “Dona”?
– É o costume.
– Repare: tenho uma ideia e você pode me ajudar.
– Fale.
– Sempre quis posar para uma pintura. Na falta, serve escultura mesmo.
– A senhora mesma?
– Sim, eu serei a modelo.
– Mas é miniatura, né?
– Sim, feito as outras, só que corpo inteiro.
– Entendi. A senhora já falou com Medeiros?
– Não preciso de autorização de ninguém E eu vou pagar.
– Eu não quero problema.
– Não vai ter nenhum: ele não vai ver o resultado.
– Como assim?
– Isso mesmo que você ouviu. Fica entre nós.
– Então tá.
– Só mais uma coisa: é sem roupa.
– De maiô?
– Sem nada, Guará. Nua.
Ali ele tem a chance da sua vida: a de pular fora. Só que ele já está envolvido. Ela sabe. Ele deseja Semíramis e isso só não vê quem ali não está. Combinam para o dia seguinte: “Medeiros está viajando a serviço”. Ele chega e vai direto para a oficina. Ela vem logo depois, linda e perfumada. Fazem tudo o que querem. No dia seguinte, você chega, dois dias antes do previsto. Encontra Semíramis nos braços do artista, ambos nus. Eles não sabem a razão do seu retorno assim corrido. Você está em fuga – matou seus primeiros dois homens, que descobriram que você está desviando muito dinheiro da empresa em contratos de manutenção. Eles lhe deixam esse corte grande em forma de meia-lua no lado esquerdo do rosto. Os homens, porém, têm menos sorte. Sofrem um “acidente” gravíssimo na obra. O moitão da máquina de 300 toneladas se soltou do suporte de repouso e atingiu os dois em cheio. Sobra pouca coisa. Um mistério para os investigadores. Seu sangue ainda escorre quente quando vê a cena em casa. Enquanto eles falam sem parar, contando tudo em confissão descontrolada, pedindo perdão e tantas outras coisas que você não ouve, lhe vem a ideia. Muita frieza da sua parte. Você pode dar um tiro em cada um. Ou até usar o facão que da caixa de ferramentas. Não é a sua opção.
Com um revólver obriga os dois a se amordaçarem e entrarem no seu carro. Você os amarra. Ela deitada no banco de trás e ele no porta-malas. Você para na casa de Maromba, seu amigo, pedreiro experiente e cúmplice nas falcatruas em que subtraiu dinheiro da empresa. Seu amigo assume a direção e dirige sem rumo até que você decida parar. Você fala tudo que quer para ela, ofende, humilha, mas não a toca. Você nem se reconhece nessa conduta. O sangue lhe ferve, porém, a solução está desenhada em sua cabeça, detalhada como um desenho de plano de movimentação de carga. A noite chega. Vocês vão até a obra.
Não há ninguém, exceto o segurança do local, presa fácil para uma paulada na cabeça. Maromba fica satisfeito. Tinha diferenças a acertar com o infeliz. Amarrados com força entre si e contra uma estaca baixa, amordaçados, os amantes se debatem em vão.
– Vai fazer o quê, Seo Moitão? – lhe diz Maromba.
– Causar impacto.
– Oxe, entendi não.
– Você vai ver. Acenda aquele refletor ali, virado pra eles.
– E o presunto do segurança?
– Não se incomode. Já vou resolver. Traga para cá.
Você assume a escavadeira e cava um buraco imenso, muito profundo, a terra revolvida com facilidade. Naquela posição Semíramis pode ver tudo, Guará de costas. Ela entende logo o que vai acontecer. Só não sabe como. Você afasta a escavadeira para um local seguro. Você manda Maromba jogar o corpo do homem ali. Ela assiste a tudo isso, tenta gritar e se soltar. Inútil. Você vai até o guindaste e o posiciona em um ponto que garante o adequado movimento de pêndulo quando você balança o moitão. Você faz um teste definitivo. Eles veem a enorme massa de ferro passar a poucos metros deles, balançando. Você posiciona a máquina, ajusta a lança, corrige a inclinação. Eles se mexem em desespero. Um golpe será suficiente para os dois, bem na cabeça. Se precisar, repete. Você nem hesita. Solta a peça, que cumpre a trajetória. Você desce da cabine, examina os corpos, e completa o serviço com a decapitação. Você volta à escavadeira e despeja toneladas de terra sobre os três desafortunados corpos. Depois você compacta com o rolo e lança terra sobre a área, deixando o local como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, Maromba lava a sujeira. Você o deixa em casa e vai para a sua. Com um copo de cerveja bem gelada, você reflete sobre as mortes não sente nada. Conclui que nesse dia morreu também o Medeiros.
No dia seguinte, andando relaxado no shopping center, você passa diante da vitrine de uma loja de brinquedos e vê bonecos em miniatura. Decide por uma nova coleção. Não de bonecos, mas de suas cabeças. E começa com três. Você compra os bonecos e paga com dinheiro vivo. A atendente não resiste e lhe fala.
– Senhor, tem um pequeno sangramento no seu rosto.
– Não perca a cabeça por isso – diz você, lambendo o pequeno filete que chega ao canto da sua boca.
Você se levanta. Joga a garrafa vazia no chão. Volta a acender a luz da sala e apaga o abajur. Dá alguns passos e toma o que resta no copo, enquanto olha para o pote grande e escuro na prateleira. Daquela distância nem se vê direito o conteúdo, mas você sabe o que está lá dentro. Você considera abrir mais uma garrafa.
