Burla

Mulher é burlada no Tinder por homem que fingia ser um astronauta russo que não tinha dinheiro para voltar à Terra

O “casal” conheceu-se através da plataforma de encontros amorosos Tinder, e a vítima da história acabou sem 4,4 milhões de ienes (cerca de 30.000 euros). Segundo a televisão japonesa Asahi, citada pelo jornal britânico Daily Mail, o perfil do burlão estava repleto de fotografias do espaço e afirmava que estava na Estação Espacial Internacional.

Com o desenrolar das conversas, a dupla “apaixonada” começou a planear uma vida em conjunto. O astronauta dizia que queria casar com a sexagenária que não é identificada, e mudar-se para o Japão. Para a história feliz ser possível, o jornal britânico adianta que entre 19 de agosto e 5 de setembro, a mulher enviou a quantia que o futuro marido necessitava para cobrir o custos do foguetão e das taxas de aterragem.

A mulher só desconfiou de que estaria a ser enganada quando o astronauta ousou pedir ainda mais dinheiro alegando ter outras despesas no espaço com as quais não contava, escreveu o jornal El País. Decidiu mais tarde entregar o caso à polícia japonesa com a suspeita, que se veio a confirmar, de ser uma burla na internet.

Ainda não é conhecida a identidade deste burlão que com um argumento inverosímil — astronauta russo preso no espaço — conseguiu roubar uma enorme quantia de dinheiro, num universo onde várias burlas têm sido noticiadas no Tinder. 

PROPOSTA

Essa história é velha (tem 3 anos), mas acontece todos os dias, então por que não contá-la usando técnicas literárias?

Primeiro, esqueça que é uma senhora japonesa e um astronauta russo. Pense em outros personagens, tão absurdos quanto verossímeis. Lembre que recentemente outra senhora entregou sua poupança (literalmente) para Brad Pitt.

Lembre-se de que quase sempre as vítimas de golpes são pessoas ambiciosas e gananciosas que só caem porque secretamente acreditam que vão se dar bem, ter alguma vantagem (como no famoso golpe do bilhete premiado), e que por isso quase nunca denunciam o golpe à polícia.

Então, pense em dois personagens bastante diferentes e divertidos.

Procure ser empático com cada um dos dois personagens – pense que, em alguma realidade alternativa, você poderia ser um dos dois, a japonesa ou o russo.

Com essa atitude mental, escreva seu texto. Você pode:

  • escrever do ponto de vista da japonesa;
  • escrever do ponto de vista do russo;
  • escrever do ponto de vista dos filhos ou pessoas próximas da japonesa;
  • escrever do ponto de vista dos amigos ou colegas do russo;
  • escrever do ponto de vista da japonesa e do russo, no indireto livre;
  • escrever na terceira pessoa, usando um narrador irônico e distanciado.

escalando as situações até que elas fiquem cada vez mais malucas e eufóricas, tanto pra japonesa quanto para o russo. Afinal, ambos estão interpretando papéis em uma ficção, então eles devem acreditar naquilo que está acontecendo.

Em até 10 mil toques.


Somente por curiosidade, pedi ao Grok que escrevesse a triste história da japonesa no estilo de Machado de Assis:

O Astronauta de Algibeira

Era uma tarde morna em Tóquio, dessas que parecem convidar ao repouso, mas que, para Hisako Tanaka, uma dama de sessenta e cinco anos, traziam um inquieto rumor de estrelas. Não que Hisako fosse astrônoma, longe disso; seus olhos, já cansados de tantas linhas lidas em livros de Izumi Suzuki, voltavam-se mais para o firmamento interior do que para o céu de verdade. Contudo, naquele dia, o céu parecia descer até ela, ou assim lhe prometera um certo Yuri, dito cosmonauta russo, cuja voz — ou melhor, cujas mensagens — a haviam cativado no estranho território do Tinder.

Hisako não era dessas que se lançam às aventuras do coração sem cautela. Viúva há dez anos, criara sozinha uma filha que agora, casada e distante, a deixava com um apartamento pequeno, decorado com naves em miniatura e posters de galáxias distantes — resquícios de uma paixão juvenil por ficção científica. Fora essa inclinação, talvez, que a levara a dar um “match” em Yuri, um perfil de foto granulada, com um homem de uniforme espacial, barba rala e um sorriso que, à luz intermitente da tela, parecia ora sincero, ora fugidio.

— “Olá, Hisako,” — escrevera ele, em inglês hesitante, mas com charme de quem sabe que o espaço é vasto demais para sutilezas — “sou Yuri, astronauta na Estação Espacial Internacional. Vejo teu perfil e penso: ela é como uma estrela que eu vejo da órbita.”

A mensagem, confessa-se, fez o coração de Hisako dar um salto, não de paixão, mas de curiosidade. Que um astronauta, perdido entre as constelações, se dignasse a escrever-lhe, a ela, uma aposentada de Tóquio que mal sabia distinguir Marte de Vênus, era coisa de tirar o juízo. Respondeu com polidez japonesa, mas com um toque de humor que aprendera nos contos de Suzuki:

— “Yuri-san, agradeço o elogio. Mas como um homem das estrelas tem tempo para o Tinder? Não há trabalho aí em cima?”

E Yuri, com rapidez que desafiava a gravidade, retrucou:

— “Hisako, o espaço é solitário. Trabalho muito, sim, mas olho a Terra e sinto falta de alguém como você. Estou aqui há meses, e meu coração não suporta mais a solidão.”

Assim começou o que Hisako, em seus devaneios, chamaria de “namoro cósmico”. Não era amor, dizia a si mesma, mas uma simpatia crescente por aquele russo de fala doce, que lhe enviava fotos de supostos amanheceres vistos do espaço — imagens que, se ela conhecesse mais da internet, saberia serem tiradas do Google. Falavam de tudo: das saudades que Yuri tinha de borscht, das naves que Hisako colecionava, do futuro em que, prometia ele, viria ao Japão para conhecê-la.

— “Você já pensou em como seria me ver chegar numa cápsula, Hisako?” — perguntou ele, numa noite em que as luzes do quarto dela piscavam, como se o próprio universo conspirasse.

— “Seria como um conto de Izumi Suzuki,” — respondeu ela, rindo — “um astronauta caindo do céu em Tóquio. Mas cápsulas não são baratas, Yuri-san?”

Foi então que o tom mudou. Yuri, com voz que Hisako imaginava grave e trêmula, confessou:

— “Hisako, tenho um problema. Meu tempo aqui termina, mas a Roscosmos cobra uma taxa para me trazer de volta. Trinta milhões de ienes. Não tenho esse dinheiro agora. Se eu não pagar, fico preso no espaço.”

Ela franziu o cenho, os dedos hesitando sobre o teclado do celular. Trinta milhões de ienes eram quase toda a sua poupança, guardada com o escrúpulo de quem sabe que a velhice não perdoa. Mas a ideia de Yuri, orbitando eternamente por falta de fundos, parecia-lhe um drama digno de ficção.

— “Isso é verdade, Yuri-san? Como um astronauta não tem dinheiro?” — perguntou, o tom mais firme.

— “Hisako, confie em mim,” — insistiu ele — “sou um homem honesto. Mandarei o dinheiro de volta assim que pisar na Terra. Só você pode me salvar.”

E aqui, caro leitor, permito-me uma pausa. Não é que Hisako fosse ingênua; era, antes, uma alma que, cansada da monotidão terrestre, queria crer num pedaço de céu. Passou a noite em claro, o olhar perdido nos posters de nebulosas, as naves de brinquedo a fitá-la como testemunhas mudas. Pela manhã, com o coração apertado, foi ao banco e transferiu a soma. Yuri agradeceu com fervor:

— “Você é meu anjo, Hisako! Em breve estarei aí, e casaremos sob as cerejeiras!”

Mas as cerejeiras, como sabem os poetas, florescem e murcham. Dias se passaram, e Yuri silenciou. Hisako, primeiro com paciência, depois com um tremor nas mãos, enviava mensagens que caíam no vazio. “Yuri-san, chegou à Terra?” “Yuri-san, está bem?” Nada. Até que, numa tarde de luzes intermitentes, ela leu no jornal online: “Golpe do Astronauta Russo Engana Mulheres no Tinder”. O rosto na tela não era de Yuri, mas o golpe, sim, era o mesmo.

— “Fui uma tola,” — disse ela ao espelho, os olhos úmidos fixos nas rugas que o tempo lhe dera. — “Uma tola que quis comprar um pedaço de órbita.”

A filha, ao saber, veio correndo de Osaka, com um sermão que misturava pena e censura:

— “Mãe, como pôde acreditar nisso? Um astronauta no Tinder? Isso é coisa de louco!”

— “E não é o mundo inteiro uma loucura, filha?” — retrucou Hisako, com um sorriso amargo. — “Eu só quis um pouco dela para mim.”

O narrador, que tudo vê e pouco julga, observa que Hisako não chorou mais. Guardou as naves em caixas, cobriu os posters com panos, e o celular, outrora portal de sonhos, repousa agora num canto. Mas às vezes, sob a luz trêmula da lâmpada, ela olha o teto e imagina Yuri — não o vigarista, mas o cosmonauta que nunca foi — flutuando entre estrelas que ninguém lhe roubará.


Depois pedi que escrevesse no estilo de Raymond Carver:


O Homem do Espaço

Hisako Tanaka estava sentada na sala, sessenta e cinco anos, o cabelo grisalho preso num coque frouxo. Era uma tarde quente em Tóquio. O ventilador zumbia no canto, mexendo o ar úmido. A luz da lâmpada piscava de vez em quando. Na mesa, um celular velho, a tela rachada. Ao redor, pequenas naves espaciais de plástico, algumas tortas, outras empoeiradas. Um poster de uma galáxia pendia na parede, o canto direito descolado. Ela pegou o celular, abriu o Tinder, passou o dedo pela tela. Parou num perfil. Yuri. Russo. Astronauta. Foto granulada, uniforme espacial, barba rala. Ele já tinha mandado mensagem.

“Oi, Hisako,” dizia. “Sou Yuri. Trabalho na Estação Espacial Internacional. Você parece uma estrela.”

Ela leu duas vezes. Ajeitou os óculos. Digitou devagar.

“Olá, Yuri. Um astronauta no Tinder? Você não tem trabalho aí em cima?”

A resposta veio rápida.

“É solitário aqui, Hisako. Trabalho muito. Mas olho a Terra e penso em alguém como você.”

Ela ficou olhando a mensagem. O ventilador girava. A luz piscou. Depois de um tempo, respondeu.

“Você sente falta do quê, Yuri?”

“De comida de verdade,” ele escreveu. “Borscht. E de alguém pra conversar.”

Ela sorriu, só um pouco. Pegou uma nave de plástico da mesa, girou nas mãos. Respondeu.

“Eu gosto de naves. Tenho umas aqui.”

“Então somos parecidos,” ele disse. “Quando eu voltar, vou te encontrar. Vamos ver as cerejeiras.”

Dias viraram semanas. Ele mandava fotos. Amanheceres do espaço, borrados, meio tortos. Ela mostrava as naves, o poster. Falavam de coisas pequenas. Uma noite, ele mudou o tom.

“Hisako, tenho um problema,” escreveu.

Ela estava na cozinha, aquecendo chá. O celular vibrou na mesa. Leu a mensagem. Sentou.

“O que aconteceu?”

“Preciso voltar pra Terra,” ele disse. “Mas a Roscosmos quer dinheiro. Trinta milhões de ienes. Não tenho isso.”

Ela segurou o celular com as duas mãos. O chá esfriou na caneca. Perguntou.

“Como assim? Astronautas não têm salário?”

“É complicado,” ele respondeu. “Se não pagar, fico preso aqui. Você pode me ajudar?”

Ela ficou quieta. A luz piscou de novo. Olhou as naves na prateleira. Digitou.

“É muito dinheiro, Yuri.”

“Eu sei,” ele disse. “Mas confie em mim. Te pago quando chegar. Você é minha única chance.”

Ela levantou, foi até a janela. O céu estava cinza, pesado. Voltou, sentou, olhou a tela. Não respondeu. Na manhã seguinte, foi ao banco. Transferiu tudo. Trinta milhões de ienes. Voltou pra casa, o celular na bolsa. Ele mandou mensagem.

“Obrigado, Hisako. Você me salvou. Logo estarei aí.”

Ela leu. Guardou o celular. Esperou.

Dois dias depois, nada. Mandou mensagem.

“Yuri, você chegou?”

Silêncio. Mandou outra.

“Yuri, tá tudo bem?”

Nada. Uma semana passou. Ela estava na sala, mexendo no celular. A luz piscava mais agora. Abriu o jornal online. Leu a manchete: “Golpe do Astronauta Russo no Tinder”. Uma foto. Não era Yuri. Mas a história era igual. Trinta milhões de ienes. Desligou o celular. Ficou olhando o poster na parede.

A filha apareceu no dia seguinte. Entrou com uma sacola de mercado, largou na mesa.

“Mãe, o que aconteceu?” perguntou.

Hisako estava sentada, uma nave na mão. Não olhou pra filha.

“Mandei dinheiro pra um homem,” disse.

“Quanto?” A filha parou, a sacola aberta.

“Trinta milhões,” disse Hisako.

“Trinta milhões?” A filha levantou a voz. “Pra quem?”

“Um astronauta,” disse Hisako. “No Tinder.”

A filha ficou olhando. Depois sentou, esfregou a testa.

“Mãe, você tá brincando?”

“Não,” disse Hisako. “Ele disse que precisava voltar do espaço.”

“E você acreditou?” A filha pegou um copo d’água, bebeu metade.

“Queria acreditar,” disse Hisako.

A filha ficou quieta. Olhou as naves, o poster. Falou baixo.

“Era tudo o que você tinha.”

“Era,” disse Hisako.

Elas ficaram ali, o ventilador zumbindo. A luz piscou. Hisako levantou, foi até a prateleira. Pegou uma nave, jogou no lixo. Pegou outra. A filha assistiu.

“Vai jogar tudo fora?” perguntou.

“Talvez,” disse Hisako.

Naquela noite, ela sentou na sala. A luz piscava menos agora. O celular ficou na mesa, mudo. Olhou o teto. Imaginou Yuri flutuando, mas não era o Yuri da foto. Era só um vulto, perdido no espaço. Pegou uma caneta, um papel. Escreveu uma linha. “Fui burra.” Parou. Amassou o papel, jogou fora. Ficou olhando o nada.


Agora pedi para o Grok reescrever o mesmo conto no estilo de Ursula K LeGuin, porém trocando todos os substantivos abstratos por símiles.


A Navegante das Estrelas Falsas

Hisako Tanaka, sessenta e cinco invernos como uma árvore nodosa à beira de um rio seco, sentava-se numa cadeira de bambu, o calor da tarde em Tóquio pesando como um manto de lã úmida sobre os ombros. O ventilador, um pássaro de asas quebradas, zumbia no canto, remexendo o ar como um cão fareja ossos velhos. Luzes piscavam no teto, estrelas moribundas numa caverna de concreto. Sobre a mesa, um celular, casco de tartaruga rachado, e ao redor, naves de plástico como barquinhos de papel largados na praia. Um poster na parede, galáxia como um tapete de musgo esticado até rasgar, pendia torto. Hisako pegou o celular como quem levanta uma pedra do rio, abriu o Tinder, deslizou o dedo como uma folha caindo na correnteza. Parou. Yuri. Russo. Astronauta. A foto, granulada como areia sob chuva, mostrava um homem de uniforme, barba como ervas rasteiras, sorriso que piscava como vaga-lumes na noite.

“Oi, Hisako,” ele escreveu, letras como pegadas na neve. “Sou Yuri, astronauta na Estação Espacial Internacional. Você é uma estrela, como um farol que vejo da órbita.”

Ela leu, os óculos como janelas embaçadas. Respondeu, dedos lentos como raízes buscando terra.

“Yuri, um astronauta no Tinder? O espaço não é um mar cheio de peixes pra pescar?”

Ele respondeu rápido, palavras como flechas num arco esticado.

“O espaço é uma caverna vazia, Hisako. Trabalho como um ferreiro na forja, mas olho a Terra como um pássaro preso vê o céu. Sinto falta de alguém como você.”

Ela segurou o celular como uma concha contra o ouvido, ouvindo o mar que não estava lá. O ventilador girava como um moinho cansado. Pegou uma nave de brinquedo, girou-a como uma moeda entre os dedos. Escreveu.

“Do que sente saudade, Yuri?”

“De borscht, quente como um forno na tundra,” ele disse. “E de alguém pra dividir o pão.”

Os dias viraram cordas de um tear. Ele mandava fotos, amanheceres como vitrais tortos vistos por uma janela suja. Ela mostrava as naves, o poster como um mapa de ilhas perdidas. Falavam de cerejeiras como lanternas cor-de-rosa no vento. Uma noite, ele mudou, voz como um trovão baixo.

“Hisako, meu barco afundou,” escreveu.

Ela estava na cozinha, o chá como uma lagoa esfriando na caneca. O celular vibrou, pedra caindo na água. Leu. Sentou como quem cai numa rede.

“O que aconteceu, Yuri?”

“Preciso voltar pra Terra,” ele disse, “mas a Roscosmos quer moedas como pedras preciosas. Trinta milhões de ienes. Sem isso, fico preso como um pássaro numa gaiola de estrelas.”

Ela franziu a testa como uma montanha enrugada. Trinta milhões de ienes, sua poupança como um baú de madeira apodrecendo. Um astronauta preso no céu por falta de trocados era uma história como um peixe voador sem asas. Perguntou.

“Isso é real, Yuri? Astronautas não têm redes pra se segurar?”

“Confie em mim,” ele disse, palavras como cordas num porto. “Sou um marinheiro honesto. Te devolvo as moedas quando aportar. Só você pode lançar meu bote.”

Ela ficou quieta, o quarto como uma caverna sob luzes piscando. Olhou as naves como filhotes de pássaros caídos do ninho. Não dormiu, o céu como um pano cinza além da janela. De manhã, foi ao banco como quem caminha pra um penhasco, transferiu o dinheiro como quem solta um barco rio abaixo. Ele respondeu, letras como fogos de artifício.

“Obrigado, Hisako! Você é minha âncora. Em breve, casaremos sob cerejeiras como lanternas.”

Mas as cerejeiras caem como pétalas na tempestade. Dias passaram, silêncio como uma floresta sem pássaros. Ela mandou mensagens, palavras como pedras num lago vazio.

“Yuri, você aportou?”

Nada. Outra.

“Yuri, o vento te levou?”

Silêncio. Uma semana depois, na sala, luzes como vaga-lumes morrendo, ela abriu o jornal online. “Golpe do Astronauta Russo,” dizia, letras como facas. Uma foto, não Yuri, mas o anzol era o mesmo. Trinta milhões de ienes. Desligou o celular como quem fecha uma porta.

A filha chegou, sacola como um saco de arroz nas mãos. Largou na mesa, olhou a mãe.

“O que foi, mãe?”

Hisako segurava uma nave, olhos como poças fundas.

“Mandei moedas pra um homem,” disse.

“Quanto?” A filha parou, a sacola aberta como uma boca.

“Trinta milhões,” disse Hisako, voz como um fio de fumaça.

“Pra quem?” A filha pegou água, caneca tremendo como uma folha no vento.

“Um astronauta,” disse Hisako. “No Tinder.”

A filha ficou olhando, copo na mão como uma âncora.

“Um astronauta? Mãe, por quê?”

“Ele disse que precisava voltar do céu,” disse Hisako.

“E você acreditou?” A filha bebeu, água como um rio seco.

“Queria acreditar,” disse Hisako, olhando a nave como um pássaro morto.

Ficaram ali, ventilador como um tambor baixo. A filha falou.

“Era seu baú inteiro.”

“Era,” disse Hisako.

Ela levantou, passos como pedras rolando. Pegou as naves, jogou no lixo como galhos quebrados. A filha viu, quieta. Perguntou.

“Vai jogar tudo?”

“Talvez,” disse Hisako.

À noite, sentou na sala, luzes como estrelas caindo. O celular, um casco vazio, ficou na mesa. Olhou o teto como um mar sem fim. Imaginou Yuri, não o ladrão, mas um pássaro voando entre ilhas de luz. Pegou papel, caneta como uma vara de pescar. Escreveu: “Fui um peixe.” Amassou, jogou fora como um barco afundado. Ficou ali, o vazio como uma floresta sem fim.


Agora pedi que outra IA, o Claude, reescrevesse o conto no estilo de Dorothy Parker, Miranda July, Clarice Lispector e Izumi Suzuki:

O HOMEM DO ESPAÇO

Minha alma tem gosto de moedas velhas. Como um comprimido de cidade abandonada engolido sem rio. Tenho sessenta e cinco anos e uma vagina que já foi demolida, como um modelo antigo de geladeira. No arquipélago de 2025, árvores secas como eu somos apenas um erro de receita que o restaurante não conseguiu devolver ao fornecedor.

Coleciono foguetes em miniatura. Pequenos maquetes de porta dos fundos feitos de garrafas derretidas. As coleciono porque, numa colmeia que plantou bandeiras em desertos vermelhos, ainda não encontramos uma prateleira para espécies que ultrapassaram seu prazo de vidro fértil.

O cardápio me conectou a Yuri. Um piloto russo com a rachadura de possivelmente não ter ossos e pele. Sua fotografia tinha a textura granulada de uma carta interceptada de um endereço paralelo. Nesse endereço, talvez eu fosse primavera, mel, ferramenta. Nesse endereço, talvez houvesse uma mesa para o imã analógico em peças digitalizadas.

“É uma caixa vazia aqui em cima,” ele escreveu.

O teto. O último quintal do shopping envelhecido. O último playground dos lobos fugindo da mancha de óleo que fizeram no tapete. Respondi com uma fotografia dos meus foguetes, esses bonequinhos quebrados da minha obsessão pela janela.

Minha gaiola em Tóquio é uma cápsula de mosteiro voluntário. A hélice no canto emite pregos sonoros – talvez esteja me furando lentamente, assim como a semente está. O cartaz de estrelas na parede: panfleto de um trem que nunca parará em estações como eu.

“Jardim verdadeiro,” ele disse que sentia falta. Como se ainda existisse algo “enraizado” neste planeta de espelhos e açúcar mascavo. Como se não estivéssemos todos nos enchendo de caixas pré-montadas e perfumes sintetizados em porões.

“Hisako,” ele escreveu, “tenho um buraco.”

Buracos. O único minério que nunca se esgota na mina humana.

“A Roscosmos quer papel pintado. Trinta milhões de folhas.”

Papel pintado. A miragem coletiva mais bem-construída do livro humano. Mais convincente que altar. Mais viciante que chocolate. Mais destrutiva que o cogumelo de fumaça.

Transferi tudo. Um passo de revolta silenciosa contra a balança. Contra o coração batendo. Contra o instinto. As jardineiras japonesas da minha estação foram configuradas para serem calculadoras, gaveteiros, cofres. Enviar todas as minhas sementes para um homem do teto foi meu primeiro tijolo verdadeiramente revolucionário.

“Logo estarei nessa gaiola,” prometeu Yuri, um eco digital feito de fios e interruptores, de sementes e teias.

A palavra “logo” é a seringa do monge. É o comprimido azul que engolimos para continuar respirando em uma casa que nos fecha a porta.

Esperei. No inverno distante que é o dia de hoje, esperar tornou-se um ato de árvore enraizada. Em uma floresta de fruta instantânea, de telas que entregam pão, cama e mesa com um dedo na campainha, escolher esperar é desafiar a receita central.

As árvores rosadas floresceram. Pingente da beleza efêmera que o arquipélago embalou e vendeu ao mapa. Caminhei entre elas usando um tecido vermelho comprado especialmente para Yuri. Vermelho como o vinho artificial que corre nas mangueiras dos brinquedos que me trocarão as fraldas quando eu for ainda mais inverno. Vermelho como o deserto, o novo quintal dos planos masculinos de bandeiras.

Comprei sopa roxa. Dezenas de latas. Líquido estrangeiro para um imã estrangeiro. Pedra sobre pedra. Camadas de máscara como as camadas de uma cebola de laboratório.

Quando cheguei à gaiola, meu reflexo na janela desligada da caixa me mostrou o que sou: um ponto fora da régua. Uma jardineira que deveria ter secado silenciosamente numa gaveta. Uma boca que falhou em mastigar adequadamente. Um vaso que resistiu à data de validade impressa.

Minha muda visita. Fruto da minha terra, agora estranha a mim como uma cópia borrada.

“Árvore velha,” diz ela, “nenhum piloto usa cardápio.”

A faca da matemática. O tapa da balança. A ditadura do concreto sobre o balão.

Estico os lábios. O esticar de lábios é uma máscara que aprendi a vestir antes mesmo que as máscaras fossem cadeados nas cidades febris.

À noite, olho para o telhado iluminado de Tóquio. Uma fotografia de céu, manchada por lamparinas que imitam diamantes. Não é mais possível separar o arbusto do plástico. O que é imã do que é receita de bolo. O que é semente do que é febre.

O relógio se expande, indiferente às nossas pequenas rachaduras individuais. As colmeias também se expandem, igualmente indiferentes. Em algum porão secreto, jardineiros provavelmente cultivam um substituto para árvores como eu. Uma versão incrementada, sem anéis, sem fotografias, sem a chave para transferir trinta milhões de folhas para homens sem ossos e pele.

E ainda assim, espero por Yuri. Continuo olhando para o telhado. Continuo organizando meus foguetes. Continuo respirando, uma mancha no tapete que se recusa a ser lavada.

Porque no inverno distante que chegou antes do almanaque, o maior passo de revolta é continuar plantando no deserto.


Fodeu, gente.

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