Dedo gatilho

Glaucia Faria

Embora o horário fosse as oito da manhã, você chegou as sete. A auxiliar de enfermagem realizou o procedimento sem tirar os olhos do relógio. Fim de plantão, louca para picar a mula.

Onde está Yara? você pergunta.  

A Yara folgou. Aniversário dela, disseram. Você ama uma mulher e não sabe o dia em que ela faz anos. Isso diz muito sobre você. A sua regulação sensorial ora o prende em um forno a céu aberto, ora o faz passar o dia nublado. Hoje você não viu fotos, nem vídeos, não checou as zero mensagens que costuma receber. Paralisou na data. Dois de fevereiro. Aniversário de Yara. Dia de Yemanjá. Há exatos quinze anos o seu dois de fevereiro se dava na inauguração da casa recém-comprada pela sua família, na praia de Camburi. Neste dia, ao acordar, ela já estava à frente da sua cama. Ela. A prancha de longboard. Era sua, de verdade. Seu nome estampado na primeira chamada da Medicina significava também não ter mais de implorar o empréstimo da prancha aos irmãos mais velhos. Eles te detestavam, e isso era um segredo que todos sabiam. O beijo dado no pai e na mãe foi seco, acompanhado de uma ou duas palavras empapadas sobre como era gratificante pertencer àquela família. Depois, mandou goela abaixo duas bananas amassadas com aveia e mel, regadas com um copo de suco de laranja, outro de leite. E correu para o mar. Dez minutos na água bastaram para que você perdesse o sentido das pernas. Dos braços. Da consciência. O corpo ausente de resistência não nadou. A falta de energia não gritou por ajuda. A paralisia que impediu o berro encheu sua boca com pétalas de rosas brancas. Sem o socorro prestado por um pescador devoto você teria se tornado oferenda.

Sente-se bem? outra técnica de enfermagem levanta seu queixo enquanto faz a pergunta.

Você afirma que sim. Lê o que consta no crachá da profissional e ao deixar a sala mal tem a memória daquele nome. Vai embora com o sorriso em branco e o braço despido do band-aid da Barbie, ou da Helo Kitty, ou do Baby Shark que a Yara costuma aplicar acima do esparadrapo grudento. Isso mantém o curativo no lugar mesmo quando você não para quieto, ela diz isso e exagera nas curvas quando empurra sua cadeira de rodas. Se faz três meses que você passou a se tratar nesse centro de reabilitação, faz três meses que seu hemograma anda mais vivo. Hoje a Yara não foi trabalhar. Decerto ela terá muitas surpresas, mas não a te ver chegar para as análises caminhando com o auxílio de canadianas. Justo hoje, que você pediu para seu motorista estacionar o carro na vaga mais distante.

Na cozinha da sua casa a chaleira ferve. Sentado no vaso sanitário você descasca o canto do curativo. O dedão futuca a ponta impermeável do esparadrapo, extirpa o dito cujo em um golpe só. A cola do verso tem um algo a mais grudado. A crosta de sangue seco arrancada reabre a ferida. Um ponto vermelho brota naquela parte do corpo que seus amigos desconhecem o nome. Você, perito na anatomia, quase um legista autodidata, sabe que fossa antecubital é o popular lado de cá do cotovelo. A região cuja dobra abriga a veia mediana onde o hematoma já se faz visível. Desta vez, parece o mapa da Índia.

A bolinha feita pelo esparadrapo voa. O piparote é certeiro. Cai dentro da pia, em cima do ralo. Cesta de três pontos. Você recorda o quanto era bom no basquete. Sentado no vaso sanitário, massageia a bexiga. Ainda assim mija pouco. Na chaleira a água ferve. Você ferve de orgulho ao preparar seu chá de cavalinha. Domina a falta da destreza, embora colecione queimaduras. Você consegue. Massageia mais a bexiga. Nada. O absorvente de incontinência também está seco, mas o pouco da urina pingada fede. Ao retirá-lo, faz outra bola. Neste segundo arremesso erra o alvo: a bomba elaborada com a mesma matéria de que são feitos os pesadelos e as fraldas cai na banheira. Que no caso estava a encher. Você decide que dormirá sem banho. Coloca outro absorvente. Gosta dessa marca nova. É firme, tem o colante forte. Custa o dobro mas não samba na cueca. E vem na cor preta, portanto é mais discreto, assim panfletou a demostradora que lhe estendeu o pacotinho amostra grátis com sorrisos no saguão da clínica. Fingiu bem a naturalidade instruída no workshop de vendas, a mocinha. Mas os publicitários nunca sabem nada de nada. A Yara sim, seria capaz de desenhar corações de canetinha no absorvente branco só porque acha o branco sem graça. A intimidade partilhada quando se tem o corpo à deriva é infinita. Ainda que flocos de gel boiem na banheira. Agora, sentado no vaso sanitário é você quem boia na fossa antecubital da indecisão. A tela do telefone grita a data. Dois de fevereiro, Yemanjá, Yara, afogamento. Quinze anos de danos neurológicos acumulados e sobrevividos. Quinze anos sem surf, sem basquete. Sem universidade, exerceu a medicina pelo ângulo errado. Teve a família trocada por estranhos que trocaram suas fraldas. Deram banho, comida na boca. Quinze anos para a independência se materializar no preparo de uma xícara de chá. Quinze anos onde no fundo você é o mesmo. Escuta as mesmas músicas, nunca deixou de usar o All Star que gosta tanto. Sentado no vaso sanitário você desamarra primeiro o cordão do tênis que veste seu pé esquerdo. Sempre começa pelo mais fácil de sair. Há menos de um mês o lado direito do seu corpo deu para andar rebelde. Mal-educado, no mínimo. A nova pegadinha do destino é uma piada pronta. O dedo gatilho. Será que Yara quebraria o protocolo e cairia na risada ao ver o dedo do meio travado, semi dobrado naquela posição de quem está na iminência do popular gesto ofensivo, obsceno? Na Grécia Antiga, no Império Romano, o homem que portava o dedo do meio em riste era associado à impotência. O que Yara pensa sobre a sua masculinidade?

Culpa sua, culpa dela. O empenho desmedido em treinar a marcha para chegar chegando lesionou a mão direita. Inflamou não somente o tendão como os ânimos dos que mal te conhecem. E te julgam. Afinal, você é jovem ainda. Trinta e quatro anos, sequelado desde os dezenove.

Que pecado, um menino tão bonito, tinha a vida toda pela frente…

Tinha, como se tivesse morrido. Mas você renasceu. Natimorto, mas renasceu. Uma vez vivo, luta entre mãos neurologistas, terapeutas, cuidadoras, curandeiras, curiosas. Você anda, mas desequilibra. A comida cai do garfo, a fala baba, o desejo sexual só cresce, ainda cultiva a vaidade. Compra as mesmas roupas, assiste as mesmas séries da turma que alega ser amiga. Um deles, dono de um restaurante vegano, se gaba da arquitetura apta à pessoas portadoras de mobilidade reduzida. E o degrau na entrada? Ah, sim, é só esse, mas a gente dá uma forcinha. No banheiro, dito adaptado, a tampa da lixeira abre acionada por um pedal. Você é capaz de mover pé, mas joga o absorvente usado no chão. O staff reclama. De queridinho amigo cota você se transforma no exemplo da pessoa frustrada diante dos acidentes da vida.

Você cansa. Cansa de ser mira. Se farta das perguntas. É joelho? Foi acidente? De carro? Overdose? E se nunca tivesse entrado no mar? E se teus pais não tivessem te presenteado com a prancha? Se arrependeu de ter sido aprovado em medicina? Não há resposta, tampouco espaço livre no hd da paciência. Se resume, foi um dano neurológico, o contra ataque vem imediato, a queima-roupa: a amiga da prima da vizinha da minha avó tinha um marido que morreu disso. Sofreu tanto, coitado.

Mas há algo que você questiona. Sozinho. Ou, até pouco tempo questionava sozinho. A sua corcova preenchida de dúvida. Talvez não tenha sido o afogamento a causa do seu desastre. Mas o desastre de ser como era que o afogou. E o salvou. Você sempre foi diferente. Caminhava estranho, com passos tortos que o deixavam no chão. Atirado de cabeça no esporte, jogava essa culpa na fadiga do corpo. Passou a enxergar mal. A dupla visão, claro, vinha da cara enfiada nos livros. Quadras, bibliotecas, meras fugas de um mesmo labirinto.

Yara, a questionadora. Porque nunca contou nada aos seus pais?

Por medo. Desprezo. Rejeição.

Yara, a inconformada.

E se for genético?

Eu sou adotado.

Sentado no vaso sanitário, você arranca as calças serpenteando as pernas. Mantém as meias. Apoiado na barra lateral, joga com força tronco para cima. Seguir adiante dói. E se é vida que segue, e se é para doer, você ousa agora seguir sem as canadianas. Tateando a estabilidade das paredes você alcança a cozinha. Sozinho. Do canguru do moletom tira o telefone. Na tela vê a data. No fundo da tela vê uma foto sua com Yara. As duas covinhas no rosto salientam o sorriso, cabelo comprido tem a extensão da tela. Um biscuit. Você teve uma cuidadora que repetia sem dó essa palavra, biscuit. A janela da cozinha reflete sua imagem. Você analisa a selfie que acabou de tirar: um homem alto, pardo, olhar de peixe morto, que usa meias listradas, tem as pernas magras, peladas e peludas, veste um moletom laranja da Gant, uma cueca Calvin Klein superestimada pelo absorvente de incontinência urinária. Você ri do pacote, ri em volume alto. Abre o whatsapp no número da Yara. Anexa a foto e a frase EU TE AMO. A mão suada deixa sua declaração na bala da agulha. O batimento cardíaco atinge o ponto de ebulição. A água ferve. A chaleira apita. A mensagem dispara. O dedo gatilho fez o serviço direitinho.

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