duelos

cinco minutos pra meia-noite

Você tem um duelo amanhã de manhã. A carta não descrevia nenhuma outra circunstância do encontro fatal além do local e do horário. O mensageiro ficou parado na soleira da sua porta, com os bracinhos finos de burocrata escondidos por detrás do próprio corpo, segurando o chapéu, enquanto você lia. Você rabiscou j’accepte no verso do bilhete e mandou o homem embora. Depois se sentou na escrivaninha. Você tem vinte anos e a perspectiva da morte iminente faz com que você não tenha outra escolha a não ser passar suas próximas horas, quem sabe as últimas, a redigir, de forma elegante e definitiva, as teorias matemáticas às quais se dedica desde moleque. Se tivesse feito isso antes, ontem, digamos (ou antes ainda, com calma, um pouquinho por dia), poderia agora se preparar pra contenda, poderia beber um pastis e ir cedo pra cama, pra quem sabe acordar bem-disposto – o que talvez diminuísse suas chances de morrer amanhã de manhã. Você lambe a ponta afiada da caneta e a mergulha no nanquim.


pelo sinal da santa cruz

Seu avô escuta o jogo do Vasco, rosário de contas na mão. Você é flamenguista, mas seu avô nem desconfia. Se soubesse talvez nem te deixasse ficar ao lado do rádio junto com ele. O velho é mais supersticioso que uma cigana de comício. Sempre que o ataque vascaíno vai chegando muito perto do gol adversário, o avô não se aguenta de tanto nervoso e desliga o rádio. Vô! O jogo! Cala a boca, moleque. Em seguida ele pede desculpas, mas ainda não te deixa mexer no botão. Vocês ficam ali uns dois minutos ou mais em silêncio. Depois o jogo recomeça num susto e você tem que esperar o narrador dizer o placar pra saber se foi gol ou não.


vida besta parte II

O pote de maionese na geladeira há meses, uma pasta cremosa e esquecida, que olha pra você toda vez que você abre a porta sem se atrever a tocá-lo. Um dia você decide jogá-lo fora. Antes, porém, você abre o pote. Há uma camada verde e peluda de mofo azulado cobrindo toda a superfície da maionese. Você fecha o pote e o coloca de volta na geladeira.


vida besta parte I

Ela sai do mercado de sacolas nas mãos e passa a andar do seu lado na calçada, num ritmo tão parecido com o seu que, se vocês dois não estivessem indo cada qual pra um destino diferente, iriam lado a lado, mesmo, até o fim.


a manhã de um novo dia

Você chegou sozinho. Seu oponente fez-se acompanhar de um padrinho de duelo e de um senhor que se apresenta como médico. O estojo das armas também veio com eles e é muito bonito, de madeira laqueada com filigranas vermelhas e um escudo no meio, um brasão de família. Vocês põem-se de costas um pro outro. Contam passos, dez. Você percebe as pernas pesadas da noite mal dormida. A visão, embaçada. Ao virar-se você se surpreende com a distância que vinte passos representam na prática. Sem perder tempo você ergue o braço, aponta e atira. A pistola dá um forte coice e faz menos barulho do que você imaginava, mas produz uma densa nuvem de fumaça. Você não escuta o outro tiro. O chumbo passa zunindo ao lado da sua orelha esquerda. A uma distância de vinte passos, seu oponente grita e cai de joelhos, leva as duas mãos ao abdome. Os companheiros assomam. Você vai viver, afinal. Não se preparou pra isso. Não se sente feliz nem triste, aliviado talvez. Você não precisava ter passado, como passou, a noite toda escrevendo suas teorias matemáticas, de forma elegante e definitiva. Por não ter morrido hoje você podia ter feito ontem qualquer outra coisa. O que fará amanhã? É nisso que você pensa enquanto volta sozinho pra casa.

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