por Américo Paim
Você chega silencioso. Há mesas livres. Você examina o local. Quer ter certeza de que não tem ninguém conhecido aqui. Não pode ter. É sua primeira vez nesse bar. O balcão à sua esquerda, de aspecto pouco limpo, tem um atendente. O cheiro de gordura domina. A parede atrás do balcão repleta de bebidas baratas. Você deseja, mas sabe que precisa estar inteiro. À sua direita, mesas de madeira articuladas, com quatro cadeiras desconfortáveis cada, se enfileiram, três em três, desalinhadas de forma suave, talvez para facilitar a movimentação dos garçons. Sobre cada mesa, sem toalhas, porta-guardanapos de metal, alguns quase e outros vazios. Um garçom se aproxima e lhe sugere mesa. Você ignora e nem responde. Ele se afasta sem qualquer reação, como que acostumado a isso. Você sacode de leve seu corpo magro. Passa a mão de forma discreta na altura do fígado para checar o cabo do 38. Só então vai à última mesa. De lá vê todo o salão. Você não tem que esperar tanto. Ele chega, no visual de sempre: camiseta com palavras em inglês que ele não entende nenhuma. A bermuda meio velha, desfiando perto do joelho e sandálias de borracha. A cara redonda, em formato que lembra a própria barriga, mais que saliente. O cabelo seboso cortado curto. Ele vem até você.
– Caroço, desgraça. Qual é a boa?
– Tá leso, Gorgulho? Num fale meu nome aqui, cacete.
– Vaisefudê, rapá… E tu num me chamô de apelido agorinha mermo?
– Tu me deve respeito. Tu sabe, tu sabe…
– Rá… Ói, deixa quieto. E que gastura foi essa pra me chamá aqui no meio da tarde?
– Tu preste bem atenção, jumento. Num vô repeti.
– Perainda, perainda. Vamo pedi uma branquinha pranóis?
– Nada disso. Guentaê. Vamo logo, que o papo vai sê foda.
– Eita…
– Tô precisado de ajuda e vai sê tu…
– Oxe, tamo junto, Caroço…
– Porra, calaboca! Sem nome!
– Tá bom, tá bom. Te acalma, home.
– Calma é o caralho.
– Bora, papá…
– Tô precisado de grana.
– Oxe, só tu?
– Tô ligado em uma boa que vai rolá amanhã.
– Uia, já assim em cima da bucha?
– Tu leva uma parte.
– Como é essa parada?
Você explica com detalhes. Um carregamento de peças da empresa vai sair cedo e seguir pela federal. Parece rotina, só que você descobriu algo a mais. Foi um golpe de sorte, você pensa e não fala. Mesmo decidido a pegar esse dinheiro, você sente medo. Está mexendo com alguém que não deveria. Você sabe disso. Acontece que você acha seu plano perfeito. Gorgulho está desconfiado sobre como você descobriu. Você, com um riso escondido, conta a ele que foi com Berliana, a secretária do homem. Ela estava de hora extra. Lá pelas sete da noite, o chefe a dispensou. Ela saiu da sala dele e a porta ficou mal fechada. Ela entendeu que ele não notou. Deve ter pensado que ela já tinha ido embora, mas ela foi retocar a maquiagem antes. Pela brecha, ela escutou parte da conversa dele com alguém, confirmando que “a carga especial” seguiria com as peças de máquinas. Se referiu à carga falando em valores. Gorgulho quer saber quanto. Você desconversa, diz que vem ouvindo rumores sobre essas movimentações há algum tempo. Ela lhe confirmou em um encontro no dia seguinte.
– Tu tá comendo Bebé?
– Oxe, perdeu o medo de morrê? Tu num fala assim comigo, fidiputa.
– Peraê, nada demais… Muita gente já foi ali, véi. É o povo que diz… Eu mermo nunca…
– Se tu num pará de falar merda, vou lhe resolvê aqui mermo.
– Queéisso, véi… Tu é meu coligado. Agora, ela é gostosa, papá…
– Coligado é o caralho. Tu fecha essa boca de bosta.
– Tu qué minha ajuda e fica cuspindo ni mim?
– Prestenção, miséra!
– Tô ouvindo. Como tu vai fazê?
– Nós, Gorgulho. Tu vai comigo. Vou pegá carona com o motorista. Ele é meu peixe.
– Oxe, fácil assim? Quem é o mané?
– Tu num precisa saber mais que isso.
– E onde que eu entro nessaporra?
– Tu vai no carro, trás do caminhão.
– Que arro? Tu tem? Eu só ando de pé, fio.
– Tu vai robá um. Mole pra tu.
– Oxe, assim na tora?
– Tu queria o quê? Banda de música? Uma ruma de puta dançando pra tu?
– Peraê, véi, calma.
– Tu me escuta que eu já tô me retano…
Você explica a ideia. Será amanhã. Ele lhe interrompe perguntando sobre a parte dele. Você ignora. Ele se distrai fácil, você sabe. E ele precisa entender cada detalhe. Fica combinado, enfim: o caminhão sairá da empresa às oito da manhã. Gorgulho deve estar pronto e perto do ponto de saída, com um carro bom, por volta de sete e trinta. Já na estrada, quando o caminhão parar, comandado por você, ele espera de uma distância segura, no local combinado. Você pega o dinheiro e segue para o carro de Gorgulho. Dali em diante você dará novas orientações para a fuga.
– Tu me deve, Gorgulho. Tu sabe, tu sabe…
– Tô ligado, mermão, precisa pertá minha mente, não.
– Faça tua porra direito, senão vô lhe fudê.
– Porra, tu tá abafado, vu? E se o carro num tiver gasolina?
– Se vire, miséra. Num dê vacilo comigo.
Chega o dia. Você se prepara. Veste jeans e camisa de botão e manga curta, barba feita, bem diferente da sua rotina. Coloca óculos escuros e boné. O motorista não desconfia de nada. Você se posiciona mais afastado da empresa, em um ponto cego, sem câmeras, na avenida principal, junto a um quebra-molas, garantia de que ele reduzirá a velocidade, o que de fato acontece. Você tinha visto isso em um filme. Você tira boné e óculos, é reconhecido e ele para ao seu aceno. Você acessa a cabine. Conversam amenidades até alcançarem a descida da Serra, pela rodovia federal. Agora é questão de minutos. Na saída do quilômetro vinte, você pede que ele saia um pouco da pista e pare em um recuo descampado e deserto à direita. Ali há apenas restos de uma construção inacabada. Ele estaciona inocente e você anuncia o que quer. Explica a ele que se comporte e nada de mal acontecerá. Ele está surpreso, mas colabora. Lhe passa o pacote. Nem faz ideia de que ali tem dinheiro. Você o faz descer e lhe acompanhar. Com o 38 encostado nas costas, ele anda no ritmo que você impõe. Está curioso, só que não se atreve a perguntar. Sua postura dá medo a ele. Nunca lhe viu assim. Você percebe e não o deixa mudar de conduta. Chegam ao carro. Gorgulho escancara a boca. Está muito tenso. Ensaia perguntar por que o motorista veio e seu olhar o silencia. Você lhe fala que amarre e amordace o motorista. Depois ordena que dirija calado e siga suas instruções. Vocês seguem a descida da Serra. Dez quilômetros depois, você orienta que ele entre em uma estrada de barro à direita. Não se vê alma. Você se sente seguro e confiante. Vocês rodam mais uns três quilômetros mata adentro. O caminho fica cada vez mais estreito e sinuoso. Gorgulho fala que ali é a estrada para a velha mina abandonada. Você o relembra que se cale. Chegam a uma distância longe o suficiente da rodovia e perto o bastante da mina. Gorgulho desce do carro e a seu comando retira o motorista. Você indica que andem para a mina. Eles seguem à frente, a uma distância controlada. Eles não veem, mas você coloca o silenciador no cano do seu 38. Você avisa que sigam para a esquerda até achar um poço. Diante da mina, Gorgulho fala.
– Porraéessaê, Caroço?
– Tu sabe, tu sabe… – você fala e aponta o motorista.
– Tu num me disse que era trampo de presunto.
– Tá frôxo, Gorgulho?
– Né nada disso, não. É que tu num falô. Eu num me preparei, nem nada.
– Desde quando precisa disso prapagá mané?
– Peraê, peraê. Tu sabe que casei, num quero mais nada com isso. Só tô robano agora.
– Como é? Tá roendo a corda comigo, papá?
– Calma, Caroço. Escute aí, véi. Tu me chamô pra dirigi. Isso aqui é ôtra conversa, mermão.
– Tu me deve, Gorgulho. Matei mais de um otário pra livrá tua cara com o chefe.
– Vamo cunversá, Caroço. Nós semo amigo.
– Num sô amigo nem do cramulhão. Tu se resolve.
– Mas porcausodequê tu mermo num apaga o pobre, home?
– Tu sabe, tu sabe. Já queimei um hoje de manhã. Num mato dois no mermo dia. Só por muita precisão.
– Oxe, home, queéisso?
– Tive uma treta onte e o assunto ficô sem resolvê.
– Onde foi isso, fidedeus?
– Esse aí né meu pai não. Tô esquecido aqui nesse mundo.
– Mas onde foi, Caroço?
– Tu qué sabê muito. Melhó pra tu ficá cego e surdo. Como é? – você fala e olha o motorista.
– Num consigo mais fazê isso, não…
– Então tu num vai recebê porra niúma da grana.
– Porra, aí tu me fode.
– Tu escolhe – você lhe entrega a arma.
– Que desgraça é essa, Caroço? – ele diz, quando você saca outra arma e aponta para a cabeça dele.
– Pra garantí que tu num vai inventá uma gracinha aqui. Bora, resolve essa merda.
O motorista apavorado se ajoelha e tenta gritar algo. O estampido seco o interrompe e encerra o assunto. Você elogia o tiro, toma a arma de volta e obriga Gorgulho a jogar o corpo no poço. O baque duro confirma que não há mais água ali. Você lhe diz para pegar ferramenta na mina e jogar terra dentro do poço. Ele está transtornado, mas você não recua. Ele acha uma pá velha na mina e faz o serviço. Quase sem forças nos braços, ele cai sentado. Chora como uma criança. Você não se sensibiliza. Manda-o entrar no carro e dirigir. Vocês voltam à cidade, mudos durante todo o trajeto. Você marca com ele atrás da igreja do lado da entrada do morro, às dez da noite do dia seguinte, quando você vai entregar a parte dele do dinheiro. Até lá que ele fique em silêncio. Você o ameaça caso ele resolva falar qualquer coisa. Você lhe diz que quando conversarem no dia seguinte, a dívida entre vocês estará encerrada.
A noite está bem escura. É lua nova e o céu está encoberto. É um encontro que você não quer quaisquer testemunhas. Você chega cedo, mas se instala em outro lugar, perto do ponto de encontro com Gorgulho. Você quer certeza sobre como vai se aproximar e por onde. Você passou todo o dia escondido, não vai em casa desde ontem. Todo cuidado é pouco. Já se passaram mais de vinte e quatro horas do crime do poço. Você está seguro de que ele virá. Gorgulho é ganancioso. Na sua vigília você pensa sobre o que fará com o dinheiro. Tem planos de comprar um terreno perto da praia. Quer se aposentar ouvindo barulho de onda. Nunca teve isso. Nem na infância, que passou sem mãe, que morreu cedo (você tem dúvida se mataram) e apanhando do pai, com marcas que estão aí até hoje, inclusive esse discreto andar manco da perna direita. Lembrar de seu pai não lhe traz prazer algum. Você gosta mesmo é de recordar o dia em que meteu um balaço no meio dos olhos dele, tão logo aprendeu a atirar. Você não tem qualquer remorso. E agradece isso a Moitão, que lhe ensinou a esvaziar a cabeça antes de puxar o gatilho. Atirar você já sabia como. Matar, não. Essa deficiência foi resolvida há tempos. Você percebe movimentação no local. Gorgulho chega. Seu gestual não aparenta ser de quem está escondendo alguma coisa. Você ainda espera uns minutos antes de aparecer. Observa o entorno. Tira os sapatos. Vem pelo lado oposto, saindo do meio de um jardim vizinho. Ele agora está de costas para você, sentado no banco velho de metal. Você chega sem ser notado. A noite está quente e você alivia o calor no pescoço dele encostando o cano gelado do 38. Fala baixo o nome dele e lhe ordena que não se mexa ou se vire. Coloca o lenço ensopado de clorofórmio sobre nariz e boca e puxa com força a cabeça dele na direção de seu peito. Então, fala de uma vez.
– Né nada pessoal, Gorgulho, tu sabe, tu sabe. Eu num mato dois no mermo dia, mas hoje eu tô zerado. Tu sabe que num deixo pista pra vagabundo. Tua dívida comigo termina aqui. Tu tá liberado.
O disparo na base do crânio de Gorgulho sai abafado e é eficiente. Você calça os sapatos e vai para casa. Entra lá sem preocupações. Senta-se no sofá de frente para a TV. Nota o envelope branco em frente à tela. Vai a ele e o abre. Não tem nada escrito. Há um desenho tosco de uma boneca. Ela tem braços, pernas, tronco. Não tem cabeça. Você saca o 38 no instinto. Checa a casa toda, respirando pesado, boca seca. Sua cabeça ferve. Tudo limpo. Não há nada, nem ninguém. Ainda na cisma, você sente que precisa de uma cerveja. Vai à cozinha. Abre a geladeira. Junto às latinhas há um pote grande e transparente. Você confirma que não gostou mesmo do cabelo de Berliana assim, curto.
