Os deuses sabem quem errou primeiro

Que acha? Ainda sou bonita, não sou? E estou melhor agora do que quando tinha meus 18, 20 anos. É incrível o que musculação e pilates podem fazer pelo corpo da mulher, mesmo de quem já enfrentou uma gestação. Quando andamos pela praia, são poucos os homens que não me comem com os olhos. Desculpe usar essa expressão. Você sabe que não sou de falar palavrão, mas acho que as coisas uma hora têm de mudar. E tenho sentido vontade de chamar as coisas pelo seu nome verdadeiro, feito comer, transar, trepar. Não, não é por aí. Me desculpe.

Tenho que manter a linha. Não dá para mudar assim, do nada. As pessoas reparam, vão querer saber o que mudou na minha vida. Preciso continuar no papel de mulher batalhadora, que cuida sozinha do filho com problema. Ainda mais agora. Tem sempre alguém me perguntando do último namorado, se não o vejo mais. Olham para mim com pena, mas, no fundo, no fundo, devem achar é muito bom que eu continue sozinha. As barangas que conheço achar é ótimo que elas tenham homem e eu não. Mesmo que sejam os que elas têm em casa. Os bêbados, os vadios, os brochas, os fodidos. Falei palavrão de novo, né? Foi mal.

Olha, é porque estou mais tensa hoje, mas vou, sim, corrigir meu jeito de falar. Todo cuidado é pouco. Não aqui, com você, nem com minha mãe, mas lá fora, no mundo. Também vou desfazer essa maquiagem. Dá pra ver pelo espelho? Não preciso disso mesmo. Vou sair de cara lavada. Minha pele é boa, nem parece que já passei dos trinta e cinco. Me dizem : “Sua pele é lisinha, deve estar fazendo muito sexo, né?”. E desde quando elas descobriram que foder faz bem pra pele? Desconfio que só ouviram esse papo de alguma influencer. Que o esperma é antioxidante e melhora as linhas finas, as marcas de expressão. Será? Bom, talvez eu até faça esse teste depois que as coisas mudarem. Ainda é cedo.

… à polícia, Zeli dos Anjos, que preparou o bolo de reis que matou três pessoas em Torres, no Rio Grande do Sul, disse a que farinha foi envenenada com arsênio pela nora, Deise Moura dos Anjos.

A TV está alta, né? Vou abaixar um pouco.

Ontem você me viu sair maquiada. Maquiagem não, aquilo era uma máscara mesmo. Fiz como aprendi nas aulas de teatro. Pra alguma coisa o palco serviu. A loira alta e de corpo bem-feito se transformou numa velhinha. Pus um vestido estampado e me montei: peruca escura, nariz de látex, dentes falsos, óculos. Fui de ônibus até uma feira livre na periferia. Andava meio corcunda. Só sei que tenho certeza de que ninguém me olhou duas vezes.

Já está amanhecendo. Quero chegar na praia bem cedo, assim que o Galeguinho estacionar o carrinho dele na areia. Aí, vou logo comprar o seu milho cozido. Como está fora de temporada, é quase certo que serei a primeira cliente dele. Ele trabalha bem, mas é meio chato, Por exemplo, exige sempre pagamento adiantado. “Sabem quantos clientes esquecem ou dizem que perderam o dinheiro num mergulho?”, vive perguntando. Vou dar uma nota de cem e ele vai pedir para eu passar o cartão. “Esqueci em casa”, vou dizer. “Pode fazer Pix”. “Não tenho”, vou responder com um sorriso. Ele se derrete todo quando sorrio. Aí vai ter de atravessar a faixa de areia para trocar no quiosque lá da calçada. Ele sempre faz isso porque ninguém mais paga em dinheiro, só um ou outro idoso hospedado na colônia de férias em frente.

Engraçado como um sorriso na hora certa derruba as barreiras de qualquer homem. Eles se acham tão superiores, gostam de chamar as mulheres de burras, mas burros são eles, que pensam com o pinto. Sei que posso conquistar qualquer homem que eu quiser. Mantê-los por perto é outra história. Minha mãe não entende por que não consigo namorar por muito tempo. Apresento alguém pra ela, que o vê uma ou duas vezes e nunca mais. Ela fica angustiada. Devia perguntar na caradura pra ver se algum admitia que o problema é você.

… na cidade de Parnaíba, no litoral do Piauí, seis pessoas da mesma família morreram depois de comer um baião de dois contaminado com terbufós, um agrotóxico altamente tóxico.

E este biquíni, dá pra ver daí? Então, o que acha? Pequeno demais para uma mãe de quase quarenta? O Galeguinho não vai nem conseguir disfarçar. Ele fica babando até quando eu vou na praia de bermuda, imagina vendo esta tanguinha cavada. É muita maldade, né? Não, não é maldade nenhuma. Maldade é falar o que ele falou ontem. Maldade é como ele te chamou.

Foi quando eu fui buscar o teu milho. Ele ficou lá debulhando devagar e disfarçando pra me olhar de cima a baixo. Nunca tinha me falado daquele jeito. Desta vez, acho que ele tomou coragem porque não havia ninguém perto. Começou dizendo que conhece minha mãe há muitos anos e que lembra de mim de pequenininha, que sempre fui bonitinha, e agora, então, “uau!”. Ele disse uau! Quem fala uau hoje em dia? Depois contou da mãe dele, que mora no Nordeste. Disse que ela criou doze filhos mesmo sem ter marido. Foi aí que ele se perdeu: “Mas todos sãos, não saiu nenhum mongo igual ao seu”.

Primeiro eu achei que não tinha ouvido direito. Mas ele continuou: “Dá uma pena ver uma mocetona como você empurrando a cadeira de rodas do menino. Se ele ainda andasse e falasse coisa com coisa, mas desse jeito que ele é… nenhum homem vai querer ficar com você”. Engasguei, não consegui responder, só fiquei olhando para aquela faca enorme na mão dele subindo e descendo ao longo da espiga, os grãos se soltando com um som oco e caindo direto dentro do prato, um por um. Engoli a saliva e fingi que não era comigo.

… o empresário Luiz Marcelo Ormond morreu após comer um brigadeirão entregue pela namorada no Rio de Janeiro. A perícia encontrou traços de morfina no corpo, além de altas doses dos medicamentos Clonazepam e 7 Aminoclonazepam.

Gastei uma hora no ônibus até chegar num bairro onde acaba a cidade. Tinha visto uma reportagem em que um menino diante de um pano estendido no chão cantava: “Olha o chumbinho! Bom para o ratinho e bom para o gatinho!”. Lembra que te falei que eu estava invisível naquele disfarce? Pois é, tive de chamar o menino várias vezes pra ele me dar atenção. Estava mais preocupado com o rapa.

Em vez de advogada, eu poderia ter seguido a carreira teatral. Teria sido uma ótima atriz. Atriz profissional, quero dizer. No colégio, participei de várias peças. Cheguei a ganhar prêmios no circuito amador e fui apontada por um jornal como jovem estrela em ascensão. Fiz mulheres fortes como a Anna de Mãe Coragem e seus Filhos, Lady Macbeth e a Joana de Gota D’Água. Fingir sempre foi natural para mim. Podia ter seguido carreira com um pé nas costas. Poderia, mas não com um filho dependente. Não estou pondo a culpa em você, não se trata disso. A culpa é minha de ainda não ter resolvido as coisas na minha vida. Minha mãe vive repetindo que tenho o direito de ser feliz. Não sei bem o que ela quer dizer, mas às vezes me pego pensando nisso.

De quando em quando tenho a impressão de que você consegue me entender. Os médicos não acreditam nisso. Para eles, o seu caso é raro. Dizem que apenas algumas funções básicas estão preservadas, como respirar e digerir. Só sei que seus olhos me seguem aonde eu vou. Fazemos companhia um para o outro, o que é bom, mas também cansa. Se fico longe, mesmo que por pouco tempo, você fica agitado e balança o corpo até se machucar. Se tenho de sair sozinha, minha mãe precisa amarrar você na cadeira. É triste.

Tem um outro lado nisso tudo. Falar para você funciona quase como uma terapia pra mim. Me faz bem ficar contando as coisas em voz alta, e sei bem que vou sentir falta. As pessoas não entendem por que faço isso. Quem ouve estranha que eu fale com quem é incapaz de processar o que ouve, se é que ouve. “É como se o cérebro dele estivesse congelado”, definiu aquele médico bonitão, lembra? Saí com ele um par de vezes. Ele queria porque queria estudar você na universidade. Queria era ficar famoso às suas custas, isso sim. Recusei. Nunca mais ligou.

Outro médico contou que nunca tinha visto uma criança como você passar de cinco ou seis anos – e você já tem dez. Explicou que sua condição ia piorar, piorar, até ficar insuportável. E eu paguei pra ver. Até agora. Pensei muito se não seria melhor entregar os pontos. Pra você e pra mim. Você não pode escolher, mas eu posso. Tenho mesmo o direito de ser feliz? Você tem?

Falta só vestir a saída de praia e passar filtro solar em você. Pronto. E pegar no armário o chapéu e o vidrinho. Na feira, o menino vendia em grão e líquido. Preferi o líquido para facilitar. Voltei carregando dentro da bolsa o saquinho de plástico com o maior cuidado.

O trajeto para a praia é curto, fora de temporada é tranquilo atravessar a avenida e empurrar a cadeira na orla. O Antônio barraqueiro dá uma força. Depois é só entregar a nota grande pro Galeguinho e esperar na sombra do carrinho. Tirar o vidro escondido na calcinha do biquíni, levantar a tampa do buraco onde as espigas ficam fervendo e despejar o conteúdo lá dentro. O garoto me garantiu que dissolve bem. Talvez dê tempo de espalhar um pouco na peixeira que fica sobre o balcão de alumínio. Acho que mesmo nossa polícia incompetente não vai ter dificuldade de descobrir o culpado. É só fazer uma perícia numa amostra da água do milho e daquele onde ficam os cocos. Nessa nem vou mexer, não precisa.

… o IML confirmou que os meninos Benjamim Ribeiro e Ythallo Rosa, de 6 e 7 anos, morreram envenenados com chumbinho após comerem um bombom com o raticida em Cavalcanti, na Zona Norte do Rio.

Bom, estamos instalados. É um lindo dia de verão. Uma brisa leve ajuda a amenizar o calor que já faz a esta hora. O mar à nossa frente tem a cor azul-turquesa. O guarda-sol foi instalado pelo Antônio, que também ajudou a carregar sua cadeira. Até o salva-vidas passou para dar bom-dia. É um moreno de bigode que costuma flexionar o peitoral malhado quando fala e vive sorrindo pra mim. Diz que sempre posso chamá-lo se precisar de ajuda. Hoje vou precisar.

“Então, que tal se eu for buscar o seu milho agora?”

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