doa-se filhote, urgente

Só mais uns minutinhos e você para. Vai responder aquele e-mail, dar uma última olhada no Instagram, nas cotações da bets, depois a planilha do trabalho. Um vídeo de uma criança obesa feita por inteligência artificial, uma propaganda de cuecas novas (está precisando mesmo), a décima selfie igual da mesma mulher na mesma posição no mesmo lugar na mesma hora do dia e uma notificação pisca fora do Instagram. Você mordisca a ponta do dedão. É sua mãe, encaminhando uma foto. Você sai do fluxo de vídeos e vai pro WhatsApp. A imagem mostra oito filhotes de cachorro beges recém-nascidos. 

“Doa-se urgente filhotes de golden com 10 dias de vida. A mãe morreu e eles também não vão aguentar sem ela.” 

A mensagem termina com um número de telefone. Os cachorros estão empilhados, difícil saber onde começa um e termina outro.  

“Olha aí filho, você não acha que é perfeito pra Nina?” 

Sim, sua mãe tem razão, ela sempre te ajuda. Você tem um estalo. O filhote pode mesmo te dar alguma moral com a sua filha, limpar um pouco a barra em casa. Ainda mais esse cachorrinho, um golden, de raça. E de graça! 

Você manda uma mensagem pro anunciante antes de voltar de verdade pro trabalho, perguntando dos cachorros, e em seguida o número já te liga. Você odeia que te liguem, quem faz isso hoje em dia? Uma voz de mulher mais velha atende. 

  • Alô? 
  • Quem é?
  • Norma, prazer. É você que quer saber dos cachorrinhos?
  • Sou eu sim, dona Norma. Meu nome é Bruno. 
  • Ah, pois não, Bruno. Então, foi uma vizinha minha que achou a mãe com os filhotes num terreno baldio há uns dias. A cachorro morreu no parto, e aí desde então tão vivendo de leite de vaca, mas precisamos doar logo, eles vão morrer. 
  • Tá certo, e eles estão doentes?
  • Tão não, só precisam de muito cuidado mesmo. 
  • E vem castrado?
  • Vai não. Mas aí você faz de graça na prefeitura, eu posso ajudar, tô sempre resgatando cachorro por aí. 
  • Tá certo. E a senhora mesmo tem cachorro, que mal lhe pergunte?
  • Tenho sim, dez. São os amores da minha vida, meus anjinhos de quatro patas. Muito melhor que gente, você não acha?
  • Acho sim, claro.
  • É bom mesmo. Precisamos de quem cuide bem dos nossos anjinhos. Tanta gente ruim no mundo. E você sabe que golden é muito disputado. 
  • Imagino. E como a gente faz? 
  • Vou te pedir umas informações no WhatsApp e a gente vai combinando.

Você desliga, mordisca o dedão, que já tem calos dos anos desse hábito. E, enfim, precisa trabalhar mesmo. O chefe está cobrando a planilha. Quando volta pro celular, algumas horas depois, vê que Norma enviou várias mensagens. A foto de perfil dela é a dos cachorrinhos. Ela quer algumas informações suas, nome, número do CPF, endereço da casa, se já teve cachorros e qual o espaço que seria destinado para ele. “Por segurança”. Você estranha um pouco, mas envia os dados durante o jantar, sua mulher na mesa cobrando a falta de atenção. 

  • Tá vendo vídeo de novo, Bruno? Olha o mau exemplo pra Nina. 

A menina come o prato de sempre, arroz e bife, com a cara enfiada num tablet, usando um grande fone de ouvido com orelha peluda de gatinho. Sequer levanta os olhos quando a mãe fala seu nome. Você já vislumbra o cachorrinho correndo pela casa, a baba funcionando como uma cola capaz de unir os pedaços quebrados da sua vida familiar. 

Passam-se dois dias. Você já comeu em dois dias a cota de doces da semana, foi na academia, catou cocô dos gatos duas vezes, tentou voltar a ler, baixou o aplicativo de meditação, instalou outro pra reduzir o tempo de tela, desinstalou, buscou três encomendas do Mercado Livre na portaria, fez cinco reuniões com o time, foi trabalhar presencial. Mastiga as pontas dos dedões a ponto de eles ficarem vermelhos. E nada. 

“Tudo certo, dona Norma?”, você pergunta. E ela responde com um áudio e um novo pedido. “Olha seu Bruno, acho que não te falei, mas vou precisar de uma ajudinha pra comprar leite e antipulga pros cachorros”. Pede um pix de 150 reais e manda foto de um dos cachorrinhos morto. “Estamos pedindo pra todo mundo que quer os cachorros, e a fila é grande. Já perdemos um ontem, morreu de fome 😭🥀”. Você se comove, faz o pix, e pergunta quando pode pegar o cachorrinho. Ela te liga em vídeo. 

  • Oi dona Norma! A senhora não vai aparecer?
  • Desculpa seu Bruno, meu celular é muito velho, eu não sei usar muito bem essas coisas. 
  • Então, do que você precisa?
  • Eu queria entender um pouco melhor sua rotina, pra ver se você vai dar conta do cachorrinho. Sabe, eles crescem muito, precisam de espaço. Me fala uma coisa, quem vai cuidar dele?
  • Eu mesmo, ué. E minha mulher e minha filha. 
  • Ah, filho é uma benção. Quantos anos tem sua filha?
  • Sete. 
  • Deve ser uma princesinha. Que Deus abençoe viu? E deixa eu perguntar, vocês ficam em casa o dia todo?
  • Eu sim, trabalho de casa. Elas passam o dia fora. 
  • E o senhor faz o que? 
  • Programação. 
  • O que é isso?
  • Trabalho com computador. 
  • Ah, tá. Minha neta também. E a casa nunca fica sem ninguém?
  • De vez em quando eu vou presencial, tipo uma vez na semana, por poucas horas. Mas de resto fico aqui. 
  • E você mora em casa, pelo que eu vi aqui, certo? 
  • Isso. 
  • Tem muro, grade, como é a segurança? 
  • E pra que a senhora quer saber isso?
  • Pra saber se corre o risco de ele fugir. A minha maior preocupação é com a segurança dos bichinhos, só isso. Eu vivo por eles.
  • Temos um portão sem cerca elétrica nem nada do tipo. É automático, só abre com controle. E tem câmera de segurança na porta também. 
  • O senhor pode me mostrar?

Você já sabe que esse pessoal que resgata cachorro era bem cauteloso, então vira a câmera e faz uma tour pela casa e pelo portão. 

  • Viu só, é bem seguro! 
  • Parece mesmo, seu Bruno. Tem só mais uma coisa… 

A voz é interrompida por um barulho forte, de algo caindo, e um som parecido com um ganido canino. 

  • Peraí, eu já te ligo. 

Um dia depois, Norma retorna. 

  • Oi seu Bruno, desculpa viu? Ontem meus cachorros derrubaram a estante aqui de casa.
  • Caramba. 
  • É assim mesmo, por isso a gente tem que conversar bem, porque cachorro é compromisso. Eles podem fazer bastante bagunça, meu filho. 
  • Tá bom, Dona Norma, mas já falamos demais, não?
  • Sim, tem só mais uma coisinha. Protocolo da nossa turma, tá? 
  • … 
  • Como o senhor sabe, o golden é um cachorro que ocupa bastante espaço. A gente precisa ter certeza que ele vai estar confortável na casa nova dele. Então eu preciso que o senhor faça um vídeo, andando de quatro pela sua sala. 
  • O que?
  • Coloca o celular no chão, apoiado na parede, fica de quatro e anda pela casa, como se fosse um cachorro.
  • Tá maluca, Dona Norma?
  • Eu sei que parece estranho, mas é protocolo nosso. Não dá pra liberar sem. 
  • E todo mundo faz isso? 
  • Nem todo mundo, mas quem não topa sai da fila. O que não falta é gente querendo os cachorrinhos.  

Você fica uns segundos em silêncio, absorvendo a informação, mascando o dedo.

  • Posso me trocar, pelo menos? –  Você veste uma camisa com um grande furo na barriga e uma cueca samba canção. 
  • Não precisa, filho, isso nunca vai sair daqui, é só protocolo mesmo. 
  • Tá bom, vou gravar e mando. 
  • Melhor fazer agora, meus netos falaram que os vídeos agora podem ser editados, eu tenho medo. Só pra garantir. 

Você ri, mas topa. Posiciona o celular, ajoelha-se e coloca as mãos no chão. E se movimenta pela sala, descobre uma nova perspectiva de mundo, sente os joelhos doendo, nem se lembra a última vez que o corpo ousou estar numa posição tão diferente. 

  • Isso, agora vai lá atrás. Passa perto dessa mesa de centro. 
  • Bom, bom… Agora vem na minha direção, menino. 

As ordens de Norma têm um poder sedutor. Por alguns segundos, e é difícil assumir, você gosta de bancar o cachorrinho. Vai até ela com os olhos fixos na câmera. 

  • Tá perfeito, seu Bruno, muito obrigada, viu? Acho que agora já temos tudo mesmo.
  • Tá bom, então quando a gente pega o filhote?
  • Acho que nesse final de semana. 

Você desliga o telefone meio ofegante, desnorteado. O coração bate rápido. Precisa se recompor, porque a família já está quase em casa. A mensagem de Norma logo chega. Um áudio: “Ó, seu Bruno, pode vir pegar, o senhor vai ficar com uma fêmea, tudo bem? Vem no sábado às sete da manhã, o endereço é esse. Tem que chegar cedo mesmo”. Era uma área rural, pros lados de Itupeva. 

No jantar, você anuncia para a família que farão um passeio surpresa no sábado. “Um sítio com animais de verdade!” A mulher parece não entender, não é algo que vocês costumam fazer, mas topa. Nina parece escutar, mesmo com o fone de orelhinhas. Para de mexer no tablet, e suspende o rosto pra te encarar. Séria. Volta pro tablet e nada diz.  

No sábado, a família sai às cinco da madrugada de casa, sob resmungos de Nina, e dirige até o local indicado. Bruno tenta aparentar normalidade, faz comentários sobre o rádio, pergunta se elas imaginam como será a fazenda. Saem da Bandeirantes, passam a entrada de Jundiaí, entram em mais uma estrada, menor, e outra, de terra, e outra, mais estreita. Até chegarem em uma casa simples, de tijolo aparente, em um bairro de ruas de terra. Um cachorro caramelo e uma senhora enrugada esperam na calçada.  

  • O que é isso, pai? Não tá estranho não?
  • Calma, filha. Eu queria fazer uma surpresa. A gente veio aqui na verdade pegar um presente pra você. Fica aqui no carro. 

Você desce e vai conversar com a senhora, que te olha com uma expressão entre a compaixão e o escárnio. 

  • Ih, filho… Já falei até pra polícia. Eu não sou Norma, nunca morou nenhuma Norma aqui. Pelo que os polícia falaram, eles devem ter roubado sua casa a essa altura. É isso que eles fazem, é o golpe do cachorrinho. Não dá pra ficar acreditando em qualquer coisa na internet não, viu?

Você respira, morde o dedo. Pensa um pouco e diz: 

  • Posso pelo menos ficar com esse caramelo?

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