Morreram as três: Maria Um, Maria Dois e Maria Três, na noite do dia primeiro de novembro. Vinham do Sertão de Crateús para o Juazeiro em romaria até o túmulo do Padre Cícero. Vinham do Sertão de Crateús e morreram antes de deixar o Sertão de Inhamuns. Maria Um era católica e deve ter ido parar no Purgatório. Maria Dois era kardecista e deve ter ido parar no Umbral. Só é possível, porém, falar com certeza científica de Maria Três. Ela, que era ateia, acordou no dia quatro de novembro dentro de uma cova barata do cemitério de Aiuaba.
A primeira coisa que Maria Três percebeu quando acordou é que esteve dormindo. Mas tentou se levantar e se viu presa num cubículo. Mas tentou gritar e teve de cuspir os vermes que se balançavam na campainha da garganta. Cuspidos os vermes, tentou gritar, mas sua voz era um silêncio morno e velho. Tentou fechar a boca porque dela saía o bafo mais fétido dos bafos. Mas seu maxilar estava duro, como se tivesse passado a vida de queixo caído. Lembrou-se que em boca fechada não entra mosca (nem verme) e que talvez por isso a sua estivesse tão cheia de coisa podre. A última coisa que Maria Três percebeu quando acordou é que não esteve dormindo.
Sempre saiu muita coisa de sua boca. Piadas sobre as carolas de sua cidadezinha, fofocas sobre pecados de padres e coroinhas, desprezo pelos romeiros pobres que pediam esmola para financiar suas romarias, muita mesquinhez e muita mesquinharia. E saía, sobretudo, desprezo pela crença das duas amigas. Maria Um era solteirona e doava grande parte de sua aposentadoria a paróquia. Maria Dois era viúva e passou muito tempo esperando uma carta psicografada do marido, até que conseguiu e nunca mais gastou a pensão nas sessões de mesa branca. Maria Três era casada com o subsecretário do prefeito e grana preta não era problema.
Por isso, apostou pagar a passagem da três no caminhão de romeiros para o Juazeiro. Num dos religiosos cafés da tarde das três, diante do quadro ressecado de Allan Kardec e do úmido bolo mole de Maria Dois, reclamaram do calor. Maria Um as tranquilizou, garantindo que toda a paróquia estava dedicada a uma novena de sete dias pedindo por chuva. Maria Três fez pouco da amiga e de sua fé cega, pois se fosse por falta de reza o Sertão de Crateús já estaria inundado. Quando Maria Um respondeu “aguarde e vai ver”, a luz da razão lampejou nos olhos de Maria Três, que apostou pagar a passagem dela, e a de Maria Dois de lambuja, no caminhão de romeiros para o Juazeiro se chovesse.
“O prazo vale pra até uma semana depois do fim da rezadeira da senhora”, disse Maria Três. “Se eu perder, não só pago como vou com vocês”.
No sétimo dia da novena, no momento em que o padre, Maria Um e todas as carolas da cidade diziam amém, começou uma chuva firme que durou sete dias. No oitavo, subiram no caminhão com a estrada de terra ainda de lama. O marido de Maria Três insistiu, em vão, para que fossem em um carro oficial da prefeitura. Apesar de mesquinha, ela acreditava sobretudo na própria palavra e, portanto, pagava suas dívidas. Maria Um, depois de mais de trinta anos de amizade, aprendeu um pouco de mesquinharia com a amiga e a obrigou a vestir o manto marrom de romeira.
“A senhora já cuspiu na cruz”, disse Maria Um. “Agora que ajoelhou, cuida de rezar”.
Subiram as três mulheres no caminhão, vestidinhas de romeiras. Até então, se chamavam Maria das Graças, Maria das Dores e Maria da Luz. O motorista do caminhão, que já tinha a cabeça e a boleia cheias de tanto recolher gente por todo o Sertão de Crateús, as rebatizou de acordo com a ordem que embarcaram: Maria Um, Maria Dois e Maria Três. E foi fácil de lembrar quem era quem. A primeira, gorda e carola, trazia um terço, uma bolsa simples de pano e era igual a quase todas as outras velhas que ele já transportara. A segunda, magra e carola de outro tipo, trazia uma mala de plástico cheia de bolo mole, falava o tempo que iria conseguir uma carta coisografada do Padre Cícero para ele e só viajou por solidão e falta de coisa melhor para fazer. Era, portanto, um pouco igual a quase todas as velhas que ele já transportara. A terceira, magra e conservada, trazia uma bolsa chique de couro e não acreditava em nada, só que ele bateria o caminhão. Nunca em sua vida transportara uma velha assim, que quase não parecia velha.
Parecia, sobretudo, patroa. Mandava o motorista olhar pra estrada, correr menos, correr mais, calar a boca e parar de contar tanta história sobre o Padre Cícero. O motorista, assim como Maria Um, era gordo e muito devoto do Padre Cícero. Por isso, confiava de olhos fechados que levaria aquele bando de romeiros dormindo pendurados nas redes do caminhão pau-de-arara até o Juazeiro para ver o túmulo do Padim. O problema foi quando abriu olhos. Dormindo, o volante estava firme e eles seguiam em linha reta na estrada. Mas, ao acordar com o grito de Maria Três, assustou-se e virou o volante para a contramão.
“Acorda, seu filho de rapariga”, Maria Três gritou. “Se tu me matar eu te mato”.
Morreram as três: Maria Um, Maria Dois e Maria Três. Suas bolsas de pano, mala de plástico e bolsa chique de couro voaram pela estrada e se perderam na caatinga, junto com seus documentos. O motorista, depois de sair do hospital com três pontos na testa, passou no cemitério de Aiuba e visitou as três covas baratas. Fez o sinal da cruz em frente à primeira e à segunda, cuspiu na terceira e tocou o caminhão para o Juazeiro com o que sobrou dos romeiros.
Não é possível dar fé de que Maria Um e Maria Dois foram para o Purgatório e o Umbral, mas suas covas seguem intactas. Só é possível, porém, falar com certeza científica de Maria Três. Depois de acordar, cuspir os vermes e perceber que não esteve dormindo, arrebentou sem muito esforço o caixão felizmente barato e abriu um buraco na cova barata. Agora, o povo cheio de crenças e sem nenhuma certeza científica do Sertão de Inhamuns espalha a história de uma assombração que vara a estrada, cheia de terra e com a carne carcomida. O que falta de certeza científica ao povo do Sertão de Inhamuns, no entanto, lhe sobra de generosidade, pois chama Maria Três de Fantasma da Romeira.
Agora, pouco importa à ateia Maria Três o nome que essa gente crente lhe dá. O que importa é chegar. Caminha em linha reta pelo acostamento da estrada para o Juazeiro com o manto marrom de romeiro todo ensanguentado e o pescoço torto. Procura a cova do Padre Cícero. Vai prometer a ele que, se conseguir matar o motorista do caminhão, vai chamá-lo de Padim e se converter à fé que o Padim quiser.
