Há quanto tempo você está sozinho?
Perguntam, mas você ignora, afinal não faz sentido. Você não está sozinho, você está no sítio aproveitando o feriado com a família do irmão mais novo. Segue então para a cozinha, onde uma pilha de pratos e talheres repousam jogados no interior da cuba e sobre a pedra. Repousam feito cadáveres em vala esperando cada um sua própria sepultura. Gostaria de um radinho para tocar algum barulho, uma música caipira daquelas de emoção rasgada, qualquer barulho para o trabalho, diferente da música do próprio trabalho.
Mas não há rádio – você não conhece bem a casa, nem pega bem sinal – você abre a torneira num jato contínuo de desperdício, mas tanto faz, é água da fonte, garantiu seu irmão: a natureza não desperdiça. Você olha pela janela que dá para o quintal e há canteiros de flores e há serras e bosques e pastagens, e há o som das cigarras da manhã e há os cães da propriedade rondando bestamente depois do vidro.
E despeja o detergente sobre as faces da esponja, o lado áspero e o macio, e você se concentra no trabalho braçal e um tanto inútil, pois logo mais haverá mais louça suja e novamente alguém precisará lavar
( A Louça de Sísifo, dizem e se riem),
um trabalho manual a que todo mundo se dedicou uma vez, mesmo quem tem empregada, mesmo quem tem máquina
(Exceto talvez quem não tenha mãos)
e você ri da própria piada, como se ela tivesse sido enunciada por outra pessoa.
E então perguntam, Do que você ri?
Você deixa o sorriso ir embora, como se repreendido, e decide ignorar as Vozes. Afinal, todo pensamento é uma voz sussurrante dentro de uma caixa craniana, localizada um tanto a frente e não atrás. A nuca, a traseira da cabeça é um nada tão absoluto que não existe nem cor nem presença ali, você só se recorda de sua existência quando vem um tapão.
(Ou então, ponderam as Vozes, quando há sua sobrinha sentada nos seus ombros na piscina, você servindo de montaria para o duelo, a amiga dela sobre os ombros do irmão, as duas se estapeando e se empurrando, tentando fazer cair o conjunto para água, e você ali, cavalo tentando esquecer o que é aquele calor atrás de sua nuca, para não pensar a respeito, porque basta colocar em palavras para arruinar toda a inocência do jogo.)
E você retorna ao processo de ensaboar os pires e pratos, pois se recusa a crer que tal ideia seja sua, então é melhor desprezar. Toda ideia, todo pensamento é uma voz sem som, como quando se lê – de boca fechada, claro – e palavra por palavra, a corrente vai se encadeando e o sentido e as imagens vão se esboçando, vagas e imateriais, linhas simples e incolores, um desenho sem volume.
(Mas as Vozes interrompem para esclarecer, Nem sempre é assim, como agora. Agora os adultos todos saíram da casa, só está você, sua sobrinha e amiga de sua sobrinha, as moças mal começaram a menarca, mas elas estão lá, belas adormecidas esperando seus príncipes. Os adultos todos saíram da casa, foram para cidade, comprar mais carne e cerveja para o fim do feriado, as mães talvez tenham ido na missa ou qualquer merda dessas. Ficou você aqui, lavando louça, olhando as serras e os cachorros pela janela, você e as duas meninas, sua sobrinha, a filha do seu irmão e a amiga dela, as duas de peitos incipientes e pêlos descoloridos pelo sol e a pele ainda imaculada. As duas confiantes e certas do mundo e você se vê fechando a torneira, secando a mão no pano de prato. Você se vê claramente caminhando para a parte dos quartos do sítio, caminhando na penumbra, evitando fazer barulho e depois?)
Depois nada. Você espreme a esponja contra o oco das canecas, balança a cabeça tentando apagar a imagem que as Vozes tentaram lhe introduzir. Apesar disso, você é obrigado a concordar com Elas: nem tudo é palavra e nem tudo é pensamento dentro da cabeça. Se fosse assim, não seria possível nem sonhar, dizer que são filmes é um exagero, você só vê e sabe o que são, mas talvez nem imagem haja. É saber sem se saber como.
(E enquanto você ensaboa talheres impregnados de gordura e açúcar cristalizado em movimentos quase masturbatórios, as Vozes insistem em sua proposta: Largue os pratos e feche as torneiras, deixe a janela e atravesse a sala até o corredor dos quartos, vá descalço para não fazer barulho, experimente a maçaneta do quarto das meninas, a porta estará aberta e já haverá a penumbra da manhã, elas estarão exaustas de tudo que aprontaram ontem, então basta puxar uma delas, não a sua sobrinha claro, você não é um monstro, tape a boca dela e use a faca para conter qualquer reação.)
E você reage, dessa vez abandonando os talheres no fundo da cuba e trocando para as panelas, que exigem o lado áspero da esponja e do lado de fora da janela você percebe os cães abanando despreocupados os próprios rabos enquanto mordiscam borboletas. E de novo, você desvia ao assunto pensamento, dessa vez os dos animais, pois se não há necessidade de palavras para pensar, talvez os animais pensem e reflitam;
(As Vozes concordam e relembram de um vira-lata que mudou de comportamento quando percebeu um gato distraído do outro lado da rua, e que naquele instante de predação era evidente que o cão estava pensando, trabalhando hipóteses, refletindo, colocando-se no lugar de sua presa, o gato ainda não me viu, para onde ele tentará fugir quando eu dar o bote? E talvez por isso, as Vozes descartam o plano de entrar no quarto e sequestrar a amiga de sua sobrinha só um pouco, que este plano não pode ser sério, só pode ser fantasia de velho, mais uma vontade para deixar de lado, junto com tantos outros projetos e desejos)
E naquele instante as Vozes parecem demais com a sua própria. Você fecha a torneira finalmente, quando as meninas chegam na cozinha, cara sonolenta e com fome. Você pergunta se dormiram bem e diz que irá preparar o café. E passa a prestar atenção na conversa boboca e adolescente das meninas que lamentam a ausência de sinal de celular, como é que alguém podia assim?
-Assim como?
– Como era antigamente. Sem celular. Sempre sozinho sem falar com ninguém.
-Talvez as pessoas só falassem mais consigo mesmas.
-Credo pra quê? Só ia sair bobagem.
-Preciso concordar, você dirá enquanto deposita café preto e quente numa caneca.
