um desejo inútil de que o refrão não exista

um desejo inútil de que o refrão não exista

Ela derruba com capricho as roupas pelo caminho (sentindo que, junto com elas, ficam também outras coisas, coisas sujas e espirituais e sem nome, que ela carregava a contragosto) e, antes que possa enfim cair na cama, entra embaixo do chuveiro. Fecha os olhos e saboreia o precário alívio da água fria. Em seguida tem início seu tormento diário, o desafio final, que consiste em argumentar por cerca de dez minutos contra a voz tonitruante que carrega dentro da própria cabeça desde a adolescência. Se houvesse alguém pra lhe exigir sinceridade, ela confessaria que já está acostumada a perder essa discussão – os dois minutos finais, invariavelmente, consistem apenas em ter de repetir a palavra não, não não não não não não não não não não não não não infinitas vezes.

Sobre o chuveiro, um fio desencapado.



ocupado fazendo outros planos


João foi assassinado por um fã.




a melhor companhia é só um cara legal

Cássia, a mais doce das normalistas. Amarrada nua sobre um formigueiro.



aurélio, sem raça definida

Por que ninguém foi buscar o jornal hoje?





escolhas questionáveis estampadas no antebraço

Minha tribo sou eu, mas o cacique não.




dalila no discman

Saiu de casa com a cueca nova pra não encontrar a namorada.



no máximo pedestre

Não tinha onde cair morto. Pulou do edifício público.



mamãe-sacode

Sentados à mesa da cozinha, enquanto bebem cerveja, ela diz pra ele que isso tudo é muito normal, não é mesmo, quem é que não sente de vez em quando uma imensa vontade de fugir, de deixar tudo pra trás, simplesmente entrar no carro e cair na estrada sem rumo, nunca mais voltar, ou então subir a pé a ladeira da vida sem se preocupar com o destino, largando pra trás o portão de casa ainda aberto, um capricho, como quem dá a entender que volta logo mas não volta, tudo isso é muito normal, muito. Não?





pequeno lembrete de um tempo mais simples

Vendeu os cabelos pra comprar um chapéu.




uma brisa diferente

O tiro saiu pelo ladrão.



don juan de paiçandu

Aquele jogo de damas nunca viraria esporte olímpico.



barba feita

Dia sim, dia não, uma lâmina no pescoço.

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