Só as crianças que não – Yan

As crianças também escolhem
Minha mãe escolhe as minhas roupas. Eu não ligo, a não ser quando é uma blusa de frio que pinica. Minha irmã odeia, quer escolher as próprias roupas, acha tudo apertado, estica as calças e as saias entre os joelhos fazendo careta e ficando vermelha. Minha mãe fica vermelha quando minha irmã diz que quando não for mais criança vai escolher tudo que ela quiser. Nessa hora minha mãe diz que são as crianças que escolhem os pais, ainda antes de nascer, quando ainda são anjinhos no céu.
Será que asa de anjo pinica?

As crianças também prestam atenção
Meu pai diz que eu sou muito distraído: quando eu esqueço de balançar o pinto depois de mijar e deixo gotinha na cueca, quando eu esqueço de fazer o dever de casa, quando eu esqueço que menino só pode falar obrigado e falo obrigada.
Minha mãe fica muito triste quando meu pai não percebe que ela cortou o cabelo ou se maquiou.
Eu sempre lembro de avisar pro meu pai quando minha mãe cortou o cabelo ou se maquiou.

As crianças também sabem rezar
Sempre que vamos no terreiro eu fico com vontade de aprender a tocar atabaque.
Minha irmã não pode tocar atabaque porque é menina. Eu poderia, porque sou menino. Mas eu não posso tocar atabaque porque a mãe Ângela, que não é minha mãe, diz que eu sou médium. Médium é quem incorpora as entidades. Eu sou filho do meu pai, da minha mãe e de Obaluaê, um orixá muito bom que cura e cuida de todo mundo. Sempre que vamos no terreiro eu fico com vontade de incorporar Obaluaê.
Minha mãe diz que eu ainda sou muito novo pra incorporar. As entidades que incorporam na minha mãe e na mãe Ângela (e também as que incorporavam no meu pai antes dele deixar o terreiro) dizem que eu ainda sou muito novo pra me preocupar em cuidar de todo mundo, que eu só preciso brincar sempre e rezar de vez em quando.
Minha mãe diz que eu tenho que dizer a verdade sempre e mentir de vez em nunca, menos sobre religião. Quando eu vou pra escola, minha mãe diz: “se alguém perguntar qual é a tua religião, fala que é espírita kardecista”.
Eu não sei mentir, por isso rezo sempre pra ninguém na escola perguntar qual é a minha religião.

As crianças também são malvadas
Minha irmã não gosta de cortar o cabelo. Minha mãe obriga minha irmã a cortar o cabelo no natal por causa da foto de natal. Minha irmã diz que vai odiar minha mãe pra sempre se ela cortar o cabelo. Minha mãe pega a tesoura e diz pra minha irmã que ela tá fazendo chantagem e que chantagem é uma coisa de gente malvada.
Minha vó, a mãe da minha mãe, é muito boa. Ela vai viajar pra ajudar a minha tia cuidar dos meus primos gêmeos que acabaram de nascer. Minha vó avisa que vai viajar no natal, o primeiro natal que vou passar sem ela.
Eu digo pra minha vó que se ela não passar o natal comigo por causa desses dois que ela nem conhece, eu nunca mais vou chamar ela de vó.

As crianças também sabem contar
A professora explica na escola que todo mundo tem um pai e uma mãe, dois avôs e duas avós. Meus dois avôs morreram. Eu tenho uma vó e uma Vera. A minha vó é a mãe da minha mãe e a Vera é a mãe do meu pai.
Meu pai fica bravo quando eu digo isso. Meu pai diz que a Vera também é minha avó.
Na minha casa moram quatro pessoas: eu, minha irmã, minha mãe e meu pai. Quando vamos na casa da Vera, só vamos em três: eu, minha irmã e meu pai.
Quando eu chamo a Vera de vó, a Vera diz: “me chama de Vera”.
Mas isso eu não conto pro meu pai.

As crianças também têm sonhos premonitórios
Meu pai ganhou uma cueca de presente no amigo secreto do trabalho dele.
Minha mãe põe fogo na cueca e acende uma vela vermelha e preta pra pombagira. Minha mãe diz que faz isso porque teve um sonho premonitório de que a cueca foi presente de uma mulher que quer separar meu pai da minha mãe.
Sonho premonitório é um sonho que fala uma coisa que vai acontecer ou que pode acontecer.
Eu acordo de madrugada porque sonhei que uma nuvem preta chegava, pegava minha mãe e separava minha mãe de mim.
Meu pai me manda parar de chorar e voltar pra minha cama.
Minha mãe me deixa dormir com eles e diz que não foi um sonho premonitório.
Foi só um pesadelo.

As crianças também crescem
Meu pai às vezes me manda parar de chorar. Minha mãe nunca faz isso, porque ela chora bastante.
Meu pai vai morar em outra casa. Minha mãe chora e diz que que meu pai já nem quer mais transar com ela, que a Vera é católica e nunca aceitou que minha mãe é da Umbanda, que a Vera amaldiçoou o casamento deles porque disse que minha mãe fez macumba pra casar com meu pai.
Eu pergunto pra minha mãe se maldição de católica é mais forte que macumba e minha mãe chora mais.
Eu abraço minha mãe e digo que vai ficar tudo bem.
Minha mãe sorri no meio do choro e diz que eu sempre fui muito crescidinho. Minha mãe conta que quando eu era bem pequeno e dizia uma coisa muito inteligente que ninguém espera, perguntavam como que eu sabia aquilo. E eu respondia: “eu sei na minha vida”.
Eu já não sou bem pequeno e já não sei quase nada na minha vida. Minha mãe deita a cabeça no meu colo e volta a chorar. Eu quero começar a chorar também, mas sei que não posso.
Disso eu ainda sei.
Eu faço carinho na cabeça da minha mãe, peço pra ela parar de chorar e não choro.

As crianças também sabem dividir
Minha mãe e minha tia vão ao mercado e me deixam tomando conta da minha irmã e dos meus primos gêmeos. Elas avisam que não vão demorar. Minha irmã pega o primo bonito no colo. Eu também quero pegar o primo bonito no colo, minha irmã me manda pegar o primo feio. Eu mando minha irmã me obedecer, porque sou eu que mando quando não tem adulto em casa. Minha irmã não obedece. Eu puxo o primo bonito por um braço, minha irmã puxa pelo outro braço. O primo bonito cai no chão bem na hora que chegam minha mãe e minha tia, que não demoram mesmo.
Eu e minha irmã apanhamos igual.

Todo mundo mente
Minha mãe diz que eu não preciso dormir com ela essa noite. Minha mãe diz que me ama e me bota pra dormir.
Minha mãe não acorda essa manhã. Eu ligo pra ambulância, depois ligo pro meu pai.
A ambulância chega e leva minha mãe embora. Meu pai chega e fica comigo e com a minha irmã.
Minha irmã chora. Eu choro. Meu pai não chora, mas não me manda parar de chorar.
Meu pai diz que a minha mãe vai ficar bem.
Eu digo que é tudo minha culpa, porque eu não rezei pra Obaluaê direito, porque eu me distraí, porque eu peguei no sono, porque eu não falei eu te amo de volta e não botei minha mãe pra dormir.
Meu pai diz que eu não tenho culpa de nada.
Meu pai abraça minha irmã e eu. Meu pai chora.
Meu pai diz que só as crianças que não têm culpa de nada.

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