“Nem sei mais que desculpa posso dar. Ele insiste em me ajudar na redação final do relatório de visitas.” A Soninha falava banco de trás do Fusca do Vítor.
“Claro! E só pode ajudar se você for no apartamento dele, né? Eu e outras alunas já ouvimos essa conversinha.”
Nós três estávamos há mais de uma hora a caminho do hospital psiquiátrico na zona Norte. Íamos participar de mais uma aula prática do professor Zeca, da disciplina de Psicopatologia II.
O Zeca era um psicólogo da nova geração, e sua tese sobre psicopatas o transformou na fonte preferida dos jornais para opinar sobre o crime da vez. Na faculdade, era reconhecido tanto pela competência acadêmica quanto pela fama de predador sexual. Parece que agora a vez era da Soninha, a mais nova da sala. E a mais rica, com o sobrenome da família estampado na fachada de uma rede de bancos.
Verônica
“Hoje ela está bem boazinha. Não é, Verônica?” A mulher trazida pela funcionária parou no limiar da sala de visita, os olhos no chão. Como o professor Zeca ainda não tinha chegado, nenhum de nós sabia o que falar. Finalmente o Vítor arrastou uma cadeira e fez sinal para que ela se sentasse. Verônica era uma mulher bonita de menos de trinta anos. Vestia o camisolão das internas, mas os sapatos eram de grife. Seu cabelo comprido e liso precisava de mais cuidado.
A mulher levantou os olhos verdes para os sete jovens que lotavam a sala apertada e sem janelas. Sua expressão era vaga, como quem aguarda na fila do ônibus.
“A senhora sabe por que estamos aqui?”, começou o Vítor. Ela fez que sim. “Então, a gente veio aqui para a senhora contar sobre sua vida. Como era antes de vir para cá e tal…”
Verônica começou a falar de forma clara e segura. A impressão que tivemos é que havia repetido a história muitas vezes. Disse que morava com a mãe e o pai num bom apartamento em um bairro central de São Paulo. Tinha se formado em administração e tentou trabalhar na loja de móveis da família. “Não deu certo”, informou secamente. Teve namorados na adolescência, nada sério. Acrescentou sem emoção que nunca quis casar nem ter filhos.
Já sabíamos pelo Zeca que a mulher havia sido internada no hospital psiquiátrico depois de ter atirado diversos vasos de planta do oitavo andar. Matou um homem que passava na calçada e feriu uma mulher. Ele não deu mais detalhes. Disse que devíamos pesquisar por conta própria.
“Como é que ele fala com você?” O Zeca tinha entrado pela porta de trás sem ninguém notar. A intervenção do professor soou mais alta do que o necessário.
“Falando. Assim, normal”, respondeu Verônica sem se alterar.
Como o Zeca não continuou, foi a Marisa que desfez o silêncio. Perguntou quem era a pessoa que falava com ela.
“Cristo. O meu Cristinho.”
“O Cristo mesmo, Jesus Cristo, o da Bíblia?”
Verônica assentiu.
“Foi ele que… que mandou… você jogar aqueles vasos?” Marisa quis saber, a voz quase sumindo.
O relato dela veio calmo e ponderado. Cristo era amigo da Verônica desde quando ela se lembrava. Conversavam sobre tudo. Ela falava como tinha sido seu dia na escola, os passeios no domingo, as compras que fazia com a mãe, as novelas da televisão. Ele contava suas andanças pela Galileia.
“Um dia, o Cristinho falou que pessoas ruins iam fazer mal para ele”, informou ela. “Eu disse que podia ajudar, e foi assim: ele apontava quem o estava perseguindo e eu fazia as coisas. Até que, um belo dia, veio a polícia e me trouxe para cá.” Verônica parou de falar e cruzou as mãos sobre o peito. Ficou claro que não tinha mais o que dizer.
No caminho de volta, o Vítor contou que de vez em quando ouvia alguém falando de dentro da sua cabeça: “Será que vou ficar paranoico que nem ela?”. “Relaxa, cara”, brinquei – “só ouvir vozes não faz de ninguém um doente mental. Agora, se você começar a responder…”.
Cosme
A funcionária nos levou por um caminho diferente do habitual. A enfermaria masculina ficava num amplo salão de paredes altas e janelas gradeadas. O ambiente cheirava a vinagre e fumo. Não tinha ninguém nas camas de ferro próximas.
O Zeca nos esperava no fundo, diante de uma cama onde um homem negro jazia preso por correias de couro. Os olhos estavam fechados. “Pessoal, este é o Cosme. Ele é uma ótima pessoa noventa e nove por cento do tempo. Serviu na Marinha, lutou boxe profissionalmente, depois foi estivador e segurança de boate em Santos. Veio para cá depois de quebra a cabeça de quem teve o azar de cruzar com ele durante aquele um por cento.”
Enquanto ele falava, era impossível tirar os olhos da figura roncando. Dava para ver que era um homem grande. A calça e a camisa bege, que ficavam largos nos outros internos, pareciam justos naquela estrutura. Estavam salpicadas de sangue. Nos braços, marcas de pancada apareciam entre desenhos infantis de âncoras, sereias e corações. Tinha uma pálpebra roxa e o nariz parecia quebrado.
“Ele está dormindo profundo assim porque tomou um sossega-leão dos enfermeiros. De uns tempos pra cá, o Cosme começou a dar trabalho. Basta que o cigarro acabe ou a sopa demore a ser servida para quebrar o que vê pela frente. Tanto coisas como pessoas. Só aquieta depois de apanhar de pau dos encarregados da disciplina. Aí ele se estica no chão e declara: ‘Morri’. E fica lá quieto, de olho fechado. Os funcionários e os internos têm medo de chegar perto. Um ou dois dias depois, talvez com fome, ele se levanta e segue para o refeitório como se nada tivesse acontecido. Como o curso está no fim, é uma pena a gente não ter tempo de conversar com ele.”
Deusdedit
Dessa vez, o Zeca já estava na sala de visitas quando chegamos. Fez um discurso sobre as qualidades necessárias para ser psicólogo de instituição. Nós estávamos acostumados com seu jeito de se vangloriar. Gostava de contar como tinha tratado sujeitos violentos e vencido a força bruta com o poder da argumentação. “Isso é ciência aplicada”, dizia ele enquanto media o decote das meninas mais próximas. “É assim que os grandes pensadores avançam!”, repetia. Nós sabíamos, principalmente as mulheres, a que avanços ele se dedicava.
O Zeca terminou de falar e chamou a Soninha. Exibiu teatralmente um molho de chaves e selecionou três, presas por uma argola de metal. “Vai buscar o Deusdedit no quarto nove”, ordenou, explicando que corredor a Soninha tinha que tomar e quais portas devia abrir. Vítor e eu gelamos porque sabíamos como ela ficava desconfortável com aquele ambiente. “Eu nunca tinha visto nem um mendigo de perto, quanto mais maluco babando”, confessou uma vez no carro.
Percebi que o Vítor ia protestar e apertei sua mão para desencorajá-lo. Faltavam pouco para nossa formatura. Sabíamos que o Zeca adorava tripudiar sobre os poucos alunos homens, e um embate com o coordenador do departamento seria um risco grande naquela altura. A coitada sumiu nos labirintos do hospital. Voltou pálida, escoltando um homem tão pequeno e magro que a Soninha parecia mãe dele. De calção e camiseta sem mangas, a figura ficava ainda mais estranha por causa dos óculos escuros. O homenzinho apalpou o ar à frente e se sentou na primeira cadeira.
Do fundo da sala, o Zeca fez sinal para que fizéssemos a anamnese.
A Marisa deu início ao roteiro com as perguntas de identificação: nome, idade, filiação, onde morava antes, profissão.
Eu continuei com a parte da queixa: “O senhor já esteve internado antes em outra instituição?”.
“Sim, muitas vezes.”
“E qual a causa? Por que o senhor está aqui?”
“Não sei. Ninguém me fala.”
O Zeca aparteou: “O Deusdedit pôs fogo na casa com a mãe dentro. Ela não morreu por milagre. Não foi isso, Deusdedit?”.
“Se o senhor está dizendo…” Ele pareceu não se incomodar com a revelação.
A sala ficou em silêncio. Eu não conseguia prosseguir com as perguntas, o homem permaneceu mudo e ninguém mais se manifestou. Passados uns minutos, o Zeca voltou à ação: “Vocês não vão tirar o bode da sala?”.
Silêncio.
“Ninguém vai perguntar como ele ficou cego?”
Nada.
“Deusdedit, tira os óculos!”
Foi o que ele fez. No lugar dos olhos havia um conjunto de bolhas endurecidas, um bolo de carne vermelho-clara.
Reagimos cada um à sua maneira. Eu e Vítor ficamos estáticos. A Marisa e os outros se levantaram e começaram a reclamar com o professor. A Soninha saiu da sala.
“Ele se queima com cigarro!”, gritou o Zeca para superar o alarido. “E vocês não tiveram a coragem de perguntar!” Ele exultava com o resultado de seu teatro.
Cosme 2
A confusão só terminou quando uma enfermeira veio buscar o cego. Antes de sair, falou algo no ouvido do professor, que elevou a voz para se fazer ouvir: “Pessoal, atenção! Para compensar pelo susto, vocês vão poder testemunhar uma experiência que pode até virar tese um dia. Me acompanhem!”
Como a curiosidade às vezes vence a indignação, seguimos atrás dele até o pátio externo, onde um corpo estava estirado no cimento. Era o Cosme, que vestia as mesmas roupas ensanguentadas da semana anterior. O professor fez sinal para um funcionário, que voltou com uma padiola. Comecei a entender a situação quando as enfermeiras e auxiliares apareceram com velas acesas na mão. Algumas usavam véu como se estivessem na igreja.
O cortejo tinha sido bem ensaiado. Quatro homens carregavam a maca onde o Cosme permanecia de olhos fechados. As mulheres vinham em seguida cantando uma ladainha e nós fechamos a procissão.
A comitiva parou no canteiro de flores junto ao muro externo. O corpo de Cosme foi depositado no chão e em seguida coberto de terra, com a cabeça estrategicamente de fora. O Zeca assumiu um ar solene e começou a falar: “Amigos do Mandaqui, ouçam-me. Estamos reunidos para enterrar um homem bom. Cosme era meu amigo, um homem leal e justo. Ele vai deixar saudade em quem o conheceu na Marinha, no ringue, no cais do porto e neste lugar. Todos vocês o adoravam e não sem motivo. Que motivo os impede então de chorar por ele agora? Amém”.
Terminado o discurso, algumas mulheres ensaiaram um lamento aqui, outro ali. Foram todos voltando para o interior do prédio e, da janela da recepção, vimos o Cosme se levantar, bater a terra da roupa e sair andando como se fosse a única coisa sensata a fazer.
