por Américo Paim
A luz na cara tá insuportável. Abafado aqui. Nem sei se é noite ou dia. Esses caras são treinados. Não me dão comida. Só essa água estranha, que me deixa assim leso. E porrada. Na barriga, no pescoço, na canela. Isso tá ruim. Não vejo os trabucos, mas ouço o barulho de tambor girando, da trava. Um dos caras me fala no pé do ouvido, por trás, fedendo a cachaça.
– Largue o doce, animal. Tu tá fodido aqui…
– O que cês querem de mim?
– Onde escondeu a grana, seu bosta?
– O quê?
O sopapo vem violento na orelha oposta. Foi outro que me bateu. São pelo menos dois. O que falou segura minhas costas com as duas mãos. Me dão um murro nas costelas, mesmo lado do tapaço. Quem tá batendo é forte. Largam meus ombros e ouço suspiro de cansaço. Uma porta metálica se fecha atrás de mim. Volta o silêncio. É quando ouço de novo a voz rascante, que mais parece de dentro da minha cabeça:
* Ainda vai aguentar muito?
– Porra, de novo… Quem é que tá falando?
* Eles caras são escrotos…
– Véi, me deixe em paz. Já tá barril aqui…
* Barril? Cê vai morrer… entrega logo.
A voz some e deixa o mesmo zumbido breve. A porta se abre de forma agressiva. A passada sugere que é um só. Um tapa sobre a mesa de madeira à minha frente me assusta. A voz é grave e cospe perdigotos:
– Otário, sabe o que eu vejo em você?
– Não.
– O passado. Você já morreu e esqueceu de cair.
* Esse aí é pior… vai encarar? – vem a voz de novo.
– É o quê?
– Tá surdo, idiota? Tu tá morto.
– Não, peraí. Eu tava falando com outra voz.
– Bateram demais nesse defunto… tá com merda na cabeça…
– Cê num tá ouvindo nada?
– Tu é que tá surdo de tanta porrada. Cadê a grana?
– Rapaz, eu já falei que num sei de nada disso.
– Então vamos para as reduções, é o jeito.
– O que é isso?
Um jogo de causa e consequência, diz ele, lento e pausado, com um riso frio no fim da fala. Anda de um lado para o outro por instantes. Para atrás de mim e explica com bafo de alho e outras coisas fortes. A cada perda de paciência da parte dele, removerá uma parte do meu corpo. Simples assim. Com medo, eu grito alto. Será que é blefe? A voz me esclarece.
* Isso está ficando pior…
– Você de novo?
– Ué, tem mais alguém aqui? – O homem fala e segue feito pêndulo.
– Não, não, falei à toa.
* Ele não é muito paciente…
– Que ótimo, né? – eu falo bem baixo.
* Você precisa de tempo e não tem mais…
– Ah, legal. Tem lugar aqui perto pra comprar?
– Tá precisando de quê, babaca? – ele gargalha e sai da sala na sequência.
* Conte que entrou naquele beco pra mijar. Dá uma quebrada no clima.
– Mas é verdade! O diurético que eu tô tomando é foda… Cê preci… peraê. Como cê sabe disso?
* Num tô certo?
– Como me viu lá? Tu tava em alguma janela, lata de lixo?
* Foque na sua sobrevivência, assunto mais importante no momento.
– Esse cara tá blefando com essa coisa de redução, né?
* Não duvide.
– Cê conhece ele?
* O suficiente pra lhe dizer que não queira quem vem depois dele.
– Como assim?
* Resolva logo. Perto do chefe, ele é um gatinho de pelúcia.
– Porréessa?
Nem processo a informação. O homem do bafo volta. Ruídos metálicos me dizem que a coisa tá piorando. Ele diz que vai me dar mais uma chance. Se eu colaborar, nada de mal vai me acontecer.
– Cadê a grana?
– Veja bem. Eu entrei no beco pra dar uma mijada, só isso.
– Não começou bem…
– Eu juro pela minha saúde.
– Que num tá valendo nada…
– Oxe, fale assim não…
– Eu não gosto das suas unhas. Podemos começar com elas…
* Ele num tá errado nessa história de saúde…
– Que é isso? Tá maluco?
– Como é? – o homem pergunta, surpreso.
– Não, não, por favor. Eu só pensei alto. Me desculpe.
* Volta pro mijo que é melhor…
– Repare, eu tô tomando remédio pra pressão e aí tô mijando mais…
– E daí? Num tá me dizendo nada.
– Eu explico. Cê vai me entender. O dia tava bonito e eu resolvi ir a pé.
– Pra onde? – ele encosta um cano frio no meu pescoço.
– Pra casa de Gonçalves, amigo meu. Ia de Uber, mas mudei.
– É seu receptador?
– Queéisso… nada a ver. Amigo do tempo da escola.
– Oh, que bonito. Ele vai pra minha lista de ajuste de quadro.
* Falei que esse cara num tá brincando…
– É o quê?
– Uma técnica eficiente quando as reduções não funcionam.
Esse homem é louco. Preciso acalmar o cabra. Conto que o tempo mudou e começou a chuva forte. Barulho de água dá vontade de mijar, todo mundo sabe. Aí eu não tinha mais tempo nem lugar para tirar a água do joelho. Por isso fui até o beco. Podia ter feito em alguma parede, ou naqueles restos abandonados, objetos, caixas, pedaços de ferro, uma bagunça, mas vi o container de lixo, mais protegido, foi só isso. Foi por vergonha da situação, quase fazendo nas calças. Ninguém me viu. Fiz o serviço e fui ver Gonçalves.
– Você é bom de história. E Gonçalves? É bom igual a você?
– Por favor, faz nada com ele não. Se eu num tenho nada com esse dinheiro, quidirá ele…
– Quanto tempo ficou na casa dele?
– Nenhum. Ele num tava lá.
– Quer dizer que num avisou antes? Foi direto, na tora?
* Rapaz… conta logo que tu encontrou uma pessoa no beco… olhe que ele já deve saber disso…
– De jeito nenhum!
– Então como foi? – ele me pergunta desconfiado.
– Hein, ah, não, não. Ele tava de celular quebrado. Fui lá porque sempre vou e tudo certo.
– Tem preferência de mão? Vou arrancar duas unhas, mas você escolhe.
– Não, por favor, calma.
– Fala, desgraça: quem você encontrou no beco? – ele fala impaciente.
* Tô lhe dizendo que o cabra é bruto. Vai rumala porra em você….
– Para de falar comigo, caralho.
O murro me joga no chão com cadeira e tudo. Ele me chuta com força. Eu grito de dor. Explico que não falei com ele, mas como vai entender que tem uma voz na minha cabeça, uma miséria só aparece pra atrapalhar? Fico de joelhos e ganho outra broca. Peço desculpas a ele. Ele me levanta e me leva até a cadeira. Decido ganhar um pouco de tempo.
– Por favor, eu falo.
* Demorou… Gosta de apanhar, né? – a voz fala e fico calado.
– Quando fui atrás do container de lixo, tinha um sujeito de cócoras.
– O que ele estava fazendo?
– Cagando, né?
– Tá de piadinha, palhaço?
– Tô lhe dizendo… Aí me desculpei e fui pro outro lado. A situação dele era mais delicada…
– É tudo que tem pra me dizer? – volta o barulho de metal, mais intenso.
* Tá jogando sua chance fora, mané… ele vai lhe fatiar…
– Eu tô vendo, porra!
– Vendo o quê? – o homem fala, irritado.
– Nada… tô vendo que cê num tá levando fé na minha história.
Ele informa que o jogo das reduções acabou. Agora estamos no ajuste de quadro. Diz que vai tirar a venda dos meus olhos. Faz isso com o cano do trabuco na minha nuca. Avisa que eu olhe só para a frente, em direção à lâmpada e caso eu veja seu rosto, será a última coisa que verei. Ainda amarrado, abro os olhos devagar, paa me acostumar à luz. Ele coloca uma foto sobre a mesa. É um homem de pele clara, nariz pontudo, cabelos lisos penteados para a direita. Parece mais jovem, com uma cicatriz, linha quase reta, logo abaixo da boca, que a barba rala não disfarça. Parece ser ele. O homem me pergunta se conheço. Desconverso que não. Ele exibe outra foto. É o mesmo homem, com a cabeça em uma poça de sangue que a chuva ajuda a escorrer. Ao lado dele a viga velha com rebarbas salientes, onde bateu a cabeça depois de escorregar no chão imundo de limo daquele beco, fugindo de mim com a sacola aberta, cheia de dinheiro que ele contava quando me viu. Como se lesse meus pensamentos, o homem fala:
– Cadê a sacola com a grana, condenado?
*Pois é, o quéquetufez com a porra da sacola?
– Como é que cê sabe disso?
– Tu num tem medo de morrer, né? – o homem destrava o revólver.
*Fala de uma vez…
– Pra que tu quer saber?
– Tu é burro? – o homem, agora incrédulo.
– Não, num tô falando com você, não…
– Então deve ser reza, porque sua hora chegou.
* Rapaz, saquei tudo agora… Tu deixou lá mermo no beco. Só num sei onde…
– Cala essa boca!
Recebo outra porrada na cabeça e um aviso: a paciência acabou. Ganho tempo, peço para ver a foto de novo. Olho o homem ensanguentado. Na foto está o lugar onde deixei a sacola, mas não aparente, é claro. Não consigo pensar em mais nada. Engraçado que naquela posição, o morto parece estar olhando na direção dela, que está bem escondida. Eu deixei ali pra pegar depois que tudo estivesse mais frio e esquecido. O homem me venda de novo. Ouço o barulho da porta abrindo e fechando. Me sinto mais seguro e pergunto em voz baixa:
– Você tá aí, encosto? Fale comigo.
* Vai me contar?
– Cê me ajuda a resolver essa parada?
* Tudo se resolverá, eu garanto.
– Mas antes, quero saber: por que seu interesse nisso?
* Primeiro a informação.
– OK. Tá vendo o armário largado ali no canto? Embaixo dele tem um buraco com uma chapa por cima.
* Ali? Esperto você.
– Tá me dando arrepio O morto parece que tá olhando pra lá.
* Eu tava mesmo, só não deu tempo de ver o lugar.
Dou um grito e me afasto. Sou contido pelo homem, que estava mais próximo do que eu pensava. Não tem como ele ter ouvido. Eu estava quase sussurrando. Só se ele abriu e fechou a porta, mas não saiu. Desgraçado. Ele me diz:
– Otário. Acha que meu irmão só fala com você? Escuto o clique destravando a arma.
Não dá tempo para mais nada.
