@brontops
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A primeira coisa que há de espantar o leitor é a paisagem; uma anacronia na qual sobrevoa uma câmera giroscópica e desvela uma capital em desenvolvimento, por onde circulam carruagens e liteiras em bulevardsnunca antes vistos ao sul do hemisfério; por onde cavalheiros de cartola cortejam damas em saias de anquinha nas ruas de comércio; por onde a sombra de dirigíveis e dos edifícios de altitude abriga do cáustico sol tropical; e por onde se vê um número incontável de pretos. Ainda que haja forros, a maioria é descalça e reside em bairros distantes. Pois o preço do metro quadrado subiu muito após a chegada dos imigrantes e agora eles precisam morar longe, para lá dos morros e das crateras, em lugares como Senzalona e o Quilombonovo.
Podemos aproximar a câmera das pessoas que caminham pelo suntuoso Paço Imperial e encontramos ali uma negrinha de pés descalços. Para resumir o que já é resumido de nascença, chamaremos a moça de Maria. Ao contrário do que se poderia imaginar, ela não tem um olhar assustado: indício de quem já se habituara ali a caminhar pelas ruas e praças movimentadas da cidade. Fazia um serviço para a sinhazinha, Dona Helena, de levar uma mensagem perfumada e secreta para seu amante. A mocinha era a pessoa ideal para o serviço: lépida, passava despercebida e não sabia ler. Mas mesmo que soubesse, quem se importaria com o que a pirralha teria a dizer? Instintivamente, baixa a cabeça ao passar pelo Posto da Guarda Urbana, para evitar o importunar dos militares que poderiam pedir ali seus papéis. Um temor infundado, pois eles estavam ali mais entretidos a discutir os caprichos da sorte e dos resultados do bicho do que ficar atento a todo cidadão que passava pela praça.
Maria cruzou o Paço e entrou na Rua do Convento onde ficava a entrada para a Estação. De longe já via as fumarolas e se escutavam os apitos das locomotivas subterrâneas. Passou por um sem fim de mascates e vendedoras de quitutes, vendedores de rua cercando a Estação feito formigas ao redor de uma ambrosia. O nariz de Maria se contraiu com o cheiro das máquinas a vapor que vinha da boca da Estação e reagiu de forma natural, fechou as narinas largas com a pinça dos dedos.
Como todos os escravos a se moverem pelas galerias da Estação, Maria também tinha ferros. Mas os dela estavam nos pés, o que deixava as mãos livres para levar cabaças e algibeiras. Seus ferros eram delicados até, pois a dona sinhá queria o melhor para a moça, por quem tinha um carinho quase desinteressado e também porque não queria uma âncora atrapalhando seus ofícios nas ruas. Sorte de Maria e de mais alguns, pois ali dentre o rebanho de gente na Estação havia quem levasse ferros pelo pescoço, até encadeando mais de um. Outros tinham máscara de folha de flandres, para evitar que ficassem aos beijos ou se desviassem nas bodegas.
A fuligem das máquinas impregnava os túneis, tornando tudo vagamente londrino e um tanto infernal. A ausência do sol ferino poderia trazer frescor, mas a penumbra inspirava medo à Maria sempre que ela precisava pegar os bondes subterrâneos para a Sinhá. Mas nem todos os negros se sentiam assim: os mais experientes sabiam que ali quase nunca aparecia um pega-fujão. Corriam histórias de quem tentava seguir um tentando escapulir pelas galerias, para então se virem cercados e submetidos a golpes de capoeira vindos de não se sabe qual pé ou pior ainda, espetados de estilete, as barrigas roliças soltando sangue em golpes sutis. Então a verdade é que muitos se aproveitam para bater perna sossegados pelos túneis e brincarem e dançarem longe das vistas dos patrões.
Mas Maria não se desviou ali nesses grupos. Se ela tinha medo da Guarda Urbana também temia aqueles negros marrentos. Os desarmados temem os armados, seja quem forem. Desceu a última das escadarias até a plataforma do Trem. O funcionário da estação, de raça indistinta pois estava coberto de fuligem, badalava o sinete e anunciava por um cone de metal que o trem para Rosário estava para partir. A menina apressou o passo e o escritor precisa interromper aqui para apresentar o segundo personagem desta história.
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O leitor experiente já deve imaginar: se de um lado há uma Maria, do outro certamente haverá um João. Ele já estava no interior do comboio, tentando com dificuldade ler um livro no balanço da locomotiva. Em seu chapéu, João improvisara uma lâmpada elétrica que atenuava a penumbra do interior do vagão para que pudesse enxergar a página. Ao seu redor, formou-se um círculo de gente tentando entender o que aquele cavalheiro fazia no meio da ralé.
Cabe aqui separar umas linhas para falar mais de nosso personagem; diferente de Maria, este premiado por nome e sobrenome: João Assis Rebouças Amaro. Um homem letrado já demonstra ter posses, agora o que faz com suas posses denota inteligência. E neste ponto, o melhor é que o leitor tire suas conclusões: quarto filho, o único masculino, do Visconde da Sapucaia – o antigo Ministro Imperial da Mecânica e das Ferrovias. Muito embora nascido entre os graúdos, João tinha para si sonhos maiores ainda – talvez imensos demais – que era o de crescer na vida e na sociedade por seus próprios méritos. À Floriana, sua irmã mais próxima, a quem sempre abria o coração, explicava de forma sucinta “Não quero me contaminar”, sem precisar explicar a que lepra se referia.
Para saber para onde voa um pardal, convém conhecer seu ninho. Vamos a ele. O pai, o poderoso Visconde da Sapucaia, era um político mais preocupado com os destinos de sua própria família do que com a nação. Para além do óbvio da profissão, explica-se: era homem pardo, neto de escravos, que teve a sorte de viver como agregado e favorito de uma família poderosa que lhe favoreceu com estudos em Engenharia e Mecânica de Automação na Europa. Obteve sucesso tanto por capacidade técnica quanto por habilidades políticas, mas tinha a sabedoria de saber que o verdadeiro poder se preserva no sangue, sempre que possível. Como exímio oportunista, articulou bons casamentos com as três filhas e esperava que o caçula lhe seguisse os passos na corte e no capitalismo.
Demorou a perceber, contudo, que o menino era um descabeçado. Feito um Quixote, o caçula estava inundado de ideias e teorias, estava municiado de armas contra gigantes imaginários, não contra o ramerrame da vida e do poder. Arrependia-se de não ter estado mais próximo, mas a vida na corte e nas obras exigiam-lhe. Construíra pontes em províncias de todo o Império mas faltara-lhe uma simples pinguela com seu rebento. Agora João perdera-se no mundo das ideias e o filho, apesar de não ser nem tolo nem bronco, representava mais uma espécie de embaraço do que orgulho.
Mas essa era a opinião do pai. João, obviamente, tinha um retrato melhor de si no espelho. Bem pode afirmar sua irmã Floriana. Antes de se casar, ela servia de plateia quase entediada para seus discursos mais inflamados. Para o caçula, ele estava repetindo os passos dos heróis da civilização ocidental. Pretendia escapar da pocilga do servilismo, do espírito subalterno nacional e reencontrar o caminho para conduzir a Pátria a um bom caminho. O que dizer de um país cujo ícone não é um Edison, um Tesla, mas um literato que foi funcionário público por toda a vida e ajudou a fundar um clube para que a elite conceda a si mesma um crachá de imortalidade…? Ora, plantar batatas! Ou iremos construir o futuro aqui ou derraparemos e seremos apagados da história do mundo, como meros fornecedores de tubérculos e cafeína. Como se o destino fosse conduzido pela vontade, João sobrevalorizava suas próprias capacidades. Bem se vê que era um garoto, ainda que diplomado, mal saído do batistério.
Voltemos então agora ao interior do vagão, pois o tempo da inocência ficara para trás: João apertava os olhos para tentar ler a página de seu livro. Era uma velha edição popular qualquer de Sinclair das Ilhas, que lera numa sentada há uns anos. Ele não estava verdadeiramente interessado na história rocambolesca do volume. O que ele realmente queria era fazer propaganda de sua lanterna presa no chapéu. Técnica de marketing recém inventada na Europa, grito de feirante no Brasil. Garantia que era o último sucesso em Paris, Londres, Roma e até mesmo em Lisboa. Em sua algibeira, havia várias dessas lâmpadas elétricas com bateria de lítio boliviano. João caminhava entre os passageiros e oferecia seu produto, como se fosse um dos mascates às portas das estações.
Não se enganem: não era uma invenção de João. Fizera um empréstimo com uns amigos e conseguiu comprar um lote fechado em um leilão da Secretaria da Receita Imperial. A ideia não muito original era a de juntar capital para iniciar seu império empreendedor. Tinha esperança de serem itens de consumo popular, sapatos, resmas, giroscópios voadores, armações plásticas de crinolina… Mas eram umas lanternas elétricas de facho frágil, capazes de alcançar apenas a distância do braço. Com a dívida e os juros crescentes e com o orgulho de não recorrer à própria família, João decidiu ir ao encontro do povo, demonstrar, anunciar e vender seu produto.
João supôs que seria mais fácil vender aquelas lanternas para quem precisava se orientar na penumbra trevosa do comboio. Como a maioria dos passageiros era escrava ou quase, ninguém se preocupou em tornar o interior do vagão mais acolhedor. Bastava que houvesse bancos; nem janelas se preocuparam em fazer: afinal boa parte do percurso era pelo interior dos túneis, não fazia sentido, eles que fiquem no escuro. Esse era o argumento dos engenheiros britânicos que venderam aqueles esquifes coletivos (que por sinal não eram mais utilizados na Europa e poderiam ser repassados à ralé tropical subdesenvolvida).
Já fazia alguns dias que tentava repassar a mercadoria no interior escuro dos vagões. Até conseguiu fazer algum lucro. Pequeno lucro, de fato: uns mirréis surrados e moedas do tempo do Regente. Todavia, o suficiente para animá-lo a continuar. Ele quase sentia pena daquela gente para quem vendia aquela bugiganga. A maioria não sabia ler, mas gostavam da luz fraquinha da vela. Uma senhora disse que usaria para iluminar uma Nossa Senhora. Outro que usaria no carnaval. Ninguém falava em literatura na penumbra. O filho do Visconde preferia ignorar o uso que fariam para sua mercadoria, contanto que a adquirissem. Nesse sentido, o idealista João já era um perfeito comerciante.
Para evitar o bilheteiro, João trocava constantemente de linha férrea e era isso que iria fazer ali, desembarcando na Estação do Convento, onde – se o leitor não esqueceu depois de tantos desvios e digressões – estaria a pequena Maria. Retornemos a escadaria.
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A menina titubeava diante da escadaria rolante: um rio de degraus brotava em velocidade constante sob os pés; felizmente um funcionário de quepe e uniforme, encardido como um carvoeiro, estava ali para auxiliar os passageiros a usarem corretamente a pisar corretamente na máquina. Maria sentia graça de se mover estando imóvel, lembrava um carrossel que embarcara para acompanhar a filha de Sinhá. Dali, podia olhar para os lados, os detalhes dos túneis, as luminárias, os dutos de cabeamento, os tubos acústicos por onde os homens da estação se comunicavam entre os diversos níveis, os ventiladores de exaustão, os morcegos apinhados entre as estruturas de ferro do solitário e enegrecido lustre francês. Não era nem a primeira nem a última vez que Maria usava o serviço da Ferrovia Subterrânea Metropolitana, então não era para ela um assombro.
O que fez a menina se assombrar foi com o movimento que subia em sentido contrário, na escadaria paralela, por onde subiam os passageiros que vinham da plataforma. No meio das pessoas, havia um rapaz de cabeleira revolta sufocada pelo chapéu. Um garoto de posses a se julgar pela barba à moda francesa e o pincenê preso pendurado à lapela. Porém, o mais relevante estava na fronte do chapéu, onde se acoplava uma lanterna elétrica. Arregalou os olhos e a boca e assim ficou, mesmerizada pelo aparato possivelmente chinês.
Do outro lado, João carregava uma algibeira repleta de seus produtos da forma mais discreta possível para não atrair atenção dos vigilantes ferroviários. Pretendia subir rapidamente os degraus, mas duas senhoras obesas carregando gaiolas com tantos pássaros que mal conseguiam bater as asas soltando penas pelo chão talvez para vender na feira do Convento. Precisou conter o caminhar e acabou por ver a escravinha do outro lado, obcecada pela luz de sua engenhoca.
João também ficou estupefato, sem reação. O que teria visto naquela moça que despertou seu estupor? Uma paixão repentina? Amores à primeira vista? Nada tão romântico, nenhuma futilidade para encantar leitoras em busca do arrebatamento emocional… O motivo era físico: Maria possuía as mesmas fisionomias de sua irmã mais velha. Era a própria Floriana, cuspida e escarrada – talvez até literalmente.
Está claro, contudo, que não podem ser a mesma pessoa. João estivera no casamento de Floriana e viu quando embarcou para Paris com seu noivo. Não era a mesma pessoa, impossível. Precisava ser uma sósia, um doppleganger. Era um daqueles milagres que não pertenciam ao real. Eram tão semelhantes, à maneira de um Dickens ou de um Dumas, que por um instante João supôs estar num folhetim e que sua história só continuaria no jornal do dia seguinte.
Maria seguiu seu percurso na direção do trem parado na plataforma: tinha que levar a carta selada com obreia para o amante de Sinhá. João ficou olhando a moça se afastar, entendeu que ela não tinha a mesma idade que sua irmã, mas continuou ensimesmado com aquela escrava. Uma na Europa, vivendo entre pessoas de alta classe e outra cá na América, comendo o pão do diabo, um pouco como ele mesmo, vendendo bugigangas no trem.
Ele não quis entender que seu pai, o Visconde de Sapucaia, ex-Ministro das Mecânicas e Ferrovias, também era dado a se envolver com noivas que não chegaram a se casar mas que na prática já enviuvaram. Sendo assim, enquanto sua mãe estava grávida de João, uma outra mulher da Rua da Lama esteve grávida de Maria. A semelhança com a irmã era natural, ambos eram irmãos nascidos de mães e casas muito diferentes.
Às favas com sutilezas, cá estamos quase no século vinte e que seja conveniente dizer certas barbaridades na cara. João e Maria se pareciam, eram quase gêmeos afinal. Mas Maria de tão pobre tornou-se mais preta e João, de tão rico, quase ficou branco. Se fracassasse nos negócios e no pagar dos empréstimos, se seu pai permitisse sua queda, sua emancipação, talvez, quem sabe, pudessem então compartilhar a mesma humanidade. Deixemos esses dois seguir cada um seu próprio fardo e levemos essa câmera giroscópica para fora das galerias procurar paisagens menos subterrâneas.
(Outros exemplos de Encontros nas Escadarias)
