Quem usa pasta de dentes vegana?

A respiração é outra quando não acordo na minha cama. A luz raspa nas pálpebras fechadas que reagem: aqui não é meu lugar. Uma pergunta pronta por dentro da testa: como vim parar aqui? A questão gira rápida, fecho novamente os olhos, respiro fundo, o ar entra curto, abro os olhos novamente. Cara amassada numa almofada com cheiro de cabeça. Pego uma mexa dos meus cabelos, raiz e nuca suadas, levo ao nariz. Não reconheço o meu cheiro. Estou deitada no que parece um divã, mas não estou no consultório da Silvia. Nas sessões de análise, sempre me deito de barriga pra cima, cruzo um pé no outro. Acordei de lado, pernas encolhidas, tornozelo frouxo seguido de um pé pendurado. O tecido grosso do estofado, impermeável, esquenta, todo o suor fica na própria pele ou na camiseta que não é minha. Onde estão minhas roupas? Minha mão toca o chão, carpete. Estou enjoada. Não tenho ideia para qual lado correr. Onde fica o banheiro? Que susto! Um gato cinza me observa. Afundo o rosto na almofada, que vergonha do gato. Ele vê que babei e sabe que não estou usando nenhuma roupa de baixo do camisetão preto com uma rosa estampada na frente. Será que transei aqui? Sinto uma dor de cabeça diferente, a memória não vem, enjoo. Tento me sentar e desisto. Parece que uma turbina é ligada dentro dos ouvidos e trepida na base da nuca. Onde estou, o que tomei, dei pra quem? A resposta é falha e o caminhão da Ultragás me atrapalha, me distrai. Um cachorro late na rua, duas motos buzinam, os motoqueiros devem se conhecer, mais de um passarinho canta e… ul-tra-gás. Um flash de um corpo suado colando no meu. Será que estou longe de casa? Ontem eu acordei sem pressa. Hoje é segunda? Respiro, tomo coragem. Me sento e toco os pés no chão, faço movimentos com os dedos para reanimar. Estou sonhando, só pode ser. Minhas roupas parecem estar no banco do piano. Cadê meus óculos? Falo alto e o gato desfila sobre uma bancada, ali é a cozinha. Estamos sós? Me sinto desconfortável com o animal me vendo sem calcinha, a lembrança de um volume vibrando na minha boca. Quem será? O que morre na gente enquanto estamos dormindo? Não é a vergonha. Não vi quando entrei aqui, não vi quando apaguei. Qual o nome do gato? Ele sabe. Saí da peça da Mila, saímos, fomos para? O novo texto dela, monólogo onde emoldurou uma série de sonhos recorrentes. Ela queria minha opinião. Não sei se ela ouviu, não sei o que tomei. Preciso me vestir e sair daqui. Vou cambaleando até o piano, me apoio num acorde torto. São minhas roupas. Lingerie preta de renda de sempre. Numa das prateleiras que envolvem o piano, a vitrola conta o último disco que soou: Violator. Quem ainda ouve isso? Aposto que eu, depois das três. Sigo até o banheiro, não consigo vomitar. Tenho inveja de quem vai ali e joga fora o lixo que está grudado no estomago. Eu preciso passar horas enjoada, sentir tontura, tomar Dramin e dormir. Um dia todo pra me recuperar. E dessa vez não sei nem do que preciso me livrar. Faço xixi, arde. Com quem foi que eu trepei? Usou camisinha? Lavo rosto, me olho no espelho e pergunto. Espelho, espelho… espelho não é meu, nenhuma resposta vai prestar. Esfreguei pasta nos dentes com o dedo, quem usa pasta vegana? Tiro a camiseta GG e coloco sobre o cesto, deve ser de roupa suja. Olho e vejo umas três camisetas pretas. O serial killer das camisetas de banda e pasta de dentes politicamente correta. Vesti as minhas roupas, cacei meus óculos, estavam na bancada da cozinha. Que baderna! Deve ser louça de uma semana. Tentei achar um copo, beber água, enjoei, desisti. Cruzei a bolsa no corpo e a porta trancada. Quem me trancou? Fui olhar pelas janelas, rede em todas. Presa com o gato. Miou como quem diz eu sabia, ele também me tranca aqui. Me sentei perto da tv. Super Nintendo e uma coleção de jogos. Space Invaders e uma espécie de museu dos anos 1990. A Mila nunca atende antes das onze. Não me lembro a cara de todo mundo que foi entrando na casa dela, é sempre a mesma coisa. Ela quer que a gente fale o que viu da sua peça, o burburinho começa, bebida e pegação para quem quer. Carência, só quero ouvir o enjoy the silence do divã da Silvia. Pelo menos dessa vez estou em São Paulo, não teve ponte aérea. Me sento na banqueta do piano e fico olhando para a porta. Som de elevador, alguém caminha, entra em outra porta. Será que eu grito? Deve ter algum documento aqui. Um par de óculos sobre o piano. Quem usava óculos ontem? Não me lembro de ter bebido muito. Que droga coloquei na minha boca? Lembrança de um gatinho que se aproximou. Será que é ele? Óculos, cabelo bem penteado, uma camiseta lisa, verde musgo. Combina com a pasta de dentes. Acho que é dramaturgo, deu aula no ensino médio. Teatro? Quem tranca a porta de casa com gente dentro? Nenhum bilhete na bancada, nenhuma pista. Molho de chaves. Testo todas, nenhuma. Quando eu chegar em casa, se chegar com vida, vou jogar todas as chaves que não prestam mais. Que tipo de pessoa guarda chaves sem utilidade? Pego uma pasta A4 na prateleira. Xerox? No canto, perto do grampo enferrujado, Danilo. O amigo de faculdade da Mila, ele chegou a na casa eu já estava muito louca. Que vergonha. Tenho que sair daqui. Novamente o elevador, passos no corredor. Fecho a pasta e enfio na prateleira. Bingo! Ele abre a porta, deixa o saco de pão na bancada, sinto novamente o volume na minha boca. Vem na minha direção. Quase amoleço. Tenta me abraçar, percebe a bolsa cruzada. Pede desculpas por me trancar, diz que o trinco está com problemas e que o Lino escapa se a porta fica destrancada. Desculpa, não cola. Não achou que acordaria tão cedo, como saberia. Me pergunta se me lembro de alguma coisa, diz que vai fazer um café, antes disso entra no banheiro. Passo rasgando pela porta. O Lino sai rasgando também. 

Deixe um comentário