(Glaucia Faria)
Um ano passando fome para degustar Barcelona e o primeiro prato veio estragado. Minhas férias começaram erradas no momento em que Sheila se convidou para viajar comigo e eu não soube dizer não. E dizer não para Sheila deveria ser minha meta de vida depois de conhecer Barcelona. Errei nessa conta a ordem dos fatores, nunca fui boa em matemática. E em dizer não.
Do aeroporto telefonei para Vaneska, a amiga em comum que iria nos hospedar. Em comum uma ova, eu a conhecia pouco, Sheila sim era chegada, e a ideia de economizar não pagando um hotel partiu dela. Claro que Vaneska não atendeu. Sheila e eu pegamos um táxi, que eu paguei. Insisti nas chamadas. Nada. O endereço estava correto, menos mau. No toca, toca e toca a campainha do 4D demos com a cara na porta. Cabelo grudento, pele suada, meio-dia. Fora a fome. No primeiro entra e sai do prédio nós duas nos infiltramos, malandras. A edificação era antiga, charmosa, até. Sem elevador. Subimos os quatro lances de escada circular e as malas pesavam tanto quanto as dez horas de voo somadas aos quase quarenta graus. Surrei a campainha da porta e a única resposta que tive foi a recordação de que Vaneska sempre foi pancada.
A moradora vizinha diante da movimentação incomum, implicou. Duas estrangeiras sentadas nas malas? Aqui nos es pot. Sheila pincelou sua lábia infalível abusando do baixo calão em um catalão falsificado acentuado por gestos dramáticos. Troncuda de queixo levantado, a senhora prendeu o cigarro nos lábios contraídos. Os olhinhos engoliram a expressão desconfiada. Do roupão roxo puído manchado de alvejante, a rigidez da perna varicosa bloqueava a saída de um cãozinho cuja pelagem lembrava fiapos de manga e o latido de mais de 50 tons esganiçados reverberava no corredor. Uma fedentina de mijo escorria do apartamento pela fresta da porta. Vaneska, que nunca e nem de longe foi responsável, ou pontual, poderia demorar 1 ou 10 ou 24 horas para voltar para casa, ou sumir para sempre. Eu queria congelar meu constrangimento num freezer. Sheila, caliente para mirar os guapos, se disponibilizou toda sorrisos para levar o au-au aflito dar uma voltinha. Antes que a idosa se indignasse com tamanho atrevimento, ela assegurou:
— Deixo as malas e a minha amiga como garantia.
Amiga, no caso, eu.
Sim, éramos oficialmente a dupla Sheila Truqueira & La Garantia Soy Yo. Tudo bem. Ou tudo mal, já estou acostumada. Conheço Sheila desde que a vida era mato, mas logo ela fumou tudo e desparafusou o Tico e o Teco de vez. Enfim, ela foi, eu fiquei.
No fogão o vapor reluzia o cheiro da sopa sendo feita. Enjoei de imaginar sopa naquele martírio calorento. A vizinha me ofereceu um chazinho. Perguntei de Vaneska. Descobri que mal se encontravam, mas davam-se bem. Amizade improvável entre uma catalã rabujenta-nojenta e uma brasileira beirando os cinquenta anos que ainda cultiva alguns piercings na cara? Nem tanto. Reparei que a velhota não ouvia bem. E Vaneska também sofria de perda auditiva. DJ desde os anos 90, ela não passou incólume ao vício da música no talo. Volume baixo a deprimia. Seria essa fórmula da vizinhança pacífica? Ignorar? Não fingir ignorar, mas ignorar de verdade a reclamação do outro. Manter o fogo inimigo entrincheirado e sustentar a aparência de mal-agradecida. Eu matutava sobre minha relação parasita com Sheila, a questão do quanto sempre me anulei para manter alguma respeitabilidade. Coincidência ou não, nesse segundo veio uma parca mensagem de texto: Força, amiga!
Duas horas depois eu permanecia lá. Cheia de calor, fome e coisas inefáveis. O silêncio constrangedor, calor, a cadeira de mola solta, calor, um buraco sem prego na parede, mais calor, a pegada de pó derretida e fossilizada no chão da cozinha. O carpete abafado. Começou, pressenti, observando os vestígios mínimos, a sombra do que já não está, espelhos recusando o presente refletindo somente a ausência, o passado. Coloquei meus dedos indicadores nas têmporas: Sheila, não apronte, não apronte, não apronte. A velha quebrou meu mantra mental: gosto dos cães porque eles não têm palavras. Por isso também gosto de você.
Nesse momento Sheila deu sinal de vida. Desce, coração! exclamava a mensagem.
Você precisa devolver o cachorro, relembrei, temendo que ela tivesse perdido-vendido-feito-algum-escambo com o pequeno animal. Troquei o mantra: Ainda há cachorro, ainda há cachorro, ainda há cachorro. O cachorro voltou, são, salvo, intacto e peludo ao mesmo tempo que meu telefone recebia mensagens e latidos de Vaneska.
— Achey que so chegaria amnh descukmped a confudao mencontre no Ray bOp meianotch
Vaneska, sua cadela. Ao menos não estava presa.
Eu clamava por um banho, uma cama. Com as malas na vizinha, Sheila e eu enrolamos o tempo batendo perna na cidade. Ela não desacelerava, comprou em uma loja popular (e já saiu vestindo) uma regata de paetê e um shortinho jeans que chacoalhava as bochechas do rabo a cada passo que ela dava. Mantendo o conjunto mega suado de moletom oversized rosê sem graça que vesti para a viagem de avião eu apenas passei uma amostra grátis de desodorante. Descobri pelo Instagram que o tal bar RayBop ficava ao lado de um hotel chiquérrimo. Bocejei ao ler a programação: Noite do Flashback. Imaginei: tigrões de um lado, mulheres de laquê do outro, no meio a pista de dança acanhada ao som de Forever Young, do grupo alemão Alphaville. Certo? Erradíssimo. Essa era a balada velha de quando eu era jovem. No verão europeu de 2024, a nostalgia vinha em formato clubber.
— Vou fazer carão de novidade, disse Sheila.
Nós, cinderelas modernas, chegamos meia-noite em ponto. Meia-noite e um voltamos descoordenadas para a abóbora. A festa caída, caída. Que só. Que dó. Bobinhas. A noite em Barcelona só pega fogo depois das 2 da manhã.
Demos novo rolê aleatório e voltamos. Minha exaustão surreal ultrapassava o quilômetro quadrado da atual aglomeração na porta. Na ante-sala do bar, iluminada por um canhão de luz vermelha, a drag diva low camp Madalena Show Me The Money performava uma dublagem burlesca da Montserrat Caballé. Uau. Pensei: se a entrada é assim, imagina o resto? Tudo lorota, como um trailer bom que vende um filme ruim.
Era nada mais do que uma constrangedora festa a fantasia dos anos 90. Uma sobreposição de equívocos. De coque banana ou escorrido Pocahontas, mulheres dançavam como se estivessem possuídas ao ritmo da Ragatanga. Piercings falsos, tattoos de decalque, roupas pretas, looks falhos e pretensiosos, versões cansadas de VJs da MTV. Entre closes desnecessários e cenas excêntricas, um baixinho enfiado em uma solidão febril insistia pela atenção de uma sadomasô de boutique. Um jovem bem jovenzinho equivalente ao velho cybermano, de regata e calça de cós no joelho escancarava a marca da cueca: Calves Kelson. Eu ri, mas não percebi se era sério ou zoação.
Sheila segurou meu braço abrindo uma cara maldita de dar inveja na menina do meme do fogo no parquinho.
— Olha aquilo.
Aquilo era Vaneska.
Vaneska deu entrada na pista, cambaleante, como uma junkie largada de um carro em movimento na porta de um PS. O cabelo chanel-preto-duro-capacete carregava resquícios de espuma de xampu à seco. As olheiras disputavam espaço com o esfumado do lápis de olho vencido. No dedo do meio da mão direita faltava uma unha postiça. Sheila mal estancou a peçonha do canto da boca:
— Ela fez a lição de casa e veio de Mia Wallace pós overdose.
Inveja pura. Vaneska sempre foi linda. Redonda, enfática, nada polida e mesmo zoada continuava um escândalo.
A noite não pegava fogo, mas dois seres meio andróides, meio Björk se engoliam deitados no dance floor. Estavam a um enroscadinho da dança do acasalamento quando o DJ largou o som para ir brigar com o namorado. O povo da pista chochou. Quebrando o dress code musical, Vaneska, que conhecia o esquema da casa, acionou seu lado xarope conectando o próprio Spotify no som do local. No primeiro Chora de Vou Festejar, da Beth Carvalho, o DJ ressurgiu do vale das trevas retomando as pick-ups puto da vida. Berrou que a noite dele comportava somente, apenas, e nada mais do que drum’n bass, dub, trip hop, tech-house, psy trance e big beat tunts tunts.
Mais lenta que um Gol 93 abandonei a festa à procura de silêncio. Precisava de um banho, precisava dormir, amarrotada de cansada. Para ir ao apartamento de Vaneska, teria de esperá-las. Andei pela rua. Entrei no hotel ao lado e me instalei em um canto discreto no lobby. Devo ter cara de rica porque ninguém me expulsou. Ao contrário: um tipão árabe não parava de me encarar. Passou em frente, olhou nos meus olhos, foi, voltou, olhou novamente, eu olhei e disfarcei. Mas vi, e bem, ele arrancar um anel do dedo e o lançar ao chão. Maciço, pelo barulho da quicada. O danado rolou, deu voltas e voltas, e como se telecomandado à distância, bateu nos meus pés, e girou, estacionando debaixo do sofá onde eu me afundava. Sozinha.
O tipão árabe não se inibiu em agachar, e tatear o piso em busca do acessório perdido. Minha pantalona estava tão feia no corpo que descartei a hipótese de uma taradice por pernas. Era xaveco besta, fraco e à queima-roupa. Sentado ao meu lado, ele perguntou meu nome, e se apresentou: Ali, Dali, Mali, algo curto, com o A bem pronunciado e terminado em I. Um estranho que circulava à vontade, mas não parecia ser hóspede. No bolso da camisa clara de algodão transparecia um cigarro apagado, guardado para mais tarde. Decerto não nadava em euros. Primeiro match: eu afogava meu cartão de crédito em dívidas.
Falava um inglês com sotaque Ai Révi De Béra Praize Fóriu. Disse ter nascido em Paris, tinha sangue argelino, pais imigrantes e identidade arenosa. Uma corcova lá, outra cá. Alegou estar a negócios em Barcelona. Arrisquei um charminho em francês em um deboche demi-bouche. Ele ficou sério. Seus olhos traçaram uma linha intimidatória até os meus. Pronunciou algo em árabe. Pedi que traduzisse. A frase era…
— Quer se casar comigo?
Um torcicolo fechava com chave de ouro a minha noite, quase sete da manhã.
— Acontece… argumentei no idioma dos bêbados… que já sou casada.
Desolado por quatro segundos, no quinto ele atingiu a perfeição.
— Você tem uma irmã que gostaria de se casar comigo?
— Quê?
— Igual a você. Mesmo cabelo. Mesmo brinco.
Tocou minha orelha explicitando a pérola de camelô. Sei lá em qual deserto emocional meu corpo resseca as taras esdrúxulas que cativo, a questão é isso me excitou. E muito. Fiquei molhada como um oásis diante do desejo dele. A mistura de línguas. A pele, intrigante. Não branca, não preta, a cor da canela derretida nos 40 graus da Catalunha. Beleza moura. Na febre do Lost, de todos os perdidos do voo 815, o iraquiano Sayid era o meu crush. Nem quando o personagem começou a ser assombrado pelas memórias do seu tempo de torturador eu deixei de ter sonhos eróticos com ele.
A conversa acabou por falta de assunto. Ele foi breve ao se despedir. Eu demorei a me levantar. Tive medo dele me seguir. Tive medo de desejar que ele me seguisse. Contei para Sheila, via áudio, o causo do argelino. Pior que ela, só ela.
— Não trepe com ele por nada menos do que vinte camelos.
Meu esgotamento virou um vulcão na necessidade de tascar um beijo naquela boca. De pé, o vi de longe. Papeava com o concierge, depois seguiu para a esplanada. Fui atrás. E ele tinha um envelope em mãos e ocupou a melhor mesa depois da funcionária retirar a plaqueta de reservada. Lia um jornal sem pressa, as páginas abertas ocultaram minha presença. No instinto, liguei o foda-se e agi com todos os pepinos que isso implica.
Fui até ele. Caminhei com dificuldade, até minha franja palpitava. O sol já torrava o dia, o calor me deu coragem e força. Me debrucei, espalmando as duas mãos sobre a mesa. Caprichei no biquinho: bonjour. O homem afastou o jornal, levantou a cabeça. Sorriu. Eu ajeitei meus óculos. Não era ele.
