Felicidade é mato – Yan

Felicidade é mato. Mato verde, se não é. Felicidade mesmo é janeiro a junho, quando chove e é muito. Quando o mato é verde, é muito, chega a descer na garganta sem fazer força. Desmancha na boca, eu mastigo mais tempo só pelo gosto do gosto. O problema é que quando chove a terra dá mato e também dá milho, macaxeira, feijão. Se eu trisco os beiços perto, Aristides desce a peia no meu lombo e eu fico triste. Mas Aristides não gosta de me ver triste, me leva pra pastar no quintal dos dois meninos da vila. Eles não capinam é nunca e, quando é janeiro a junho, felicidade lá é sempre.

São dois meninos homens já, mas Aristides chama eles de meninos. Me puxa pelo cabresto antes do sol nascer, diz “simbora pros minino”, amarra a corda no pé de juá do quintal e aí a felicidade é mato até meio-dia. São dois, os meninos homens. Um é Vicente, da cor do pelo meu, diz que é professor lá pra cidade. O outro um é Luis, da cor que fica um primo meu quando foge de chibata, diz que passa o dia inteiro na frente de um quadrado que alumia.

Vicente é filho de vaqueiro, às vezes vem parente aqui montado em cavalo. Pense num sujeito que se acha. Perna comprida, anca grande, crina penteada. Mas com um homem no lombo. De que adianta? Tenho uns primos que pra ser feliz queriam nascer cavalo. Pra viver atrás de vaca, com arreio no meio da boca, com esporada na pança se não correr ligeiro? É nada. Felicidade pra mim é mato. E só.

Luis é filho não sei de quem, não é nem daqui, nem de perto. Fala meio chiado e chia mais quando Vicente sai pra ser professor na cidade. Fica bulindo o dia todo no quadrado que alumia, com cara de triste. Mas por razão que não dou fé, Luis sorri quando me vê. Joga cenoura pra mim, diz “bom dia, meu irmão”, aperta o quadrado que alumia pra sair barulho e canta junto:

É verdade, meu senhor

Essa história do sertão

Padre Vieira falou

Que o jumento é nosso irmão

Antes bem mais ser irmão de cavalo do que de homem. Mas eu não me ofendo não, até zurro bom dia de volta, porque felicidade é mato e cenoura também. A cantoria dele é que é desafino, baixo as orelhas vez em muito. Ontem, Luís levantou cedo, barafundou na tela que alumia com uns olhos apagados, tristonho que só. Abriu a porta do quintal, mas nem me deu bom dia, nem cenoura. Muito menos Vicente acordou, lavou a cara na bica do quintal e começou a falar. Aí eu levantei as orelhas todas.

“Sabe o que eu queria fazer hoje?”.

Luís só fez ruminar um “rum” que eu quase não escuto.

“Comer um viado”.

Aí Luís ficou triste e desalumiou de vez, chega até parece que comeu mato seco. Eu já bem sei, um pouco foi porque faz é tempo que não vejo mulher aqui. O outro pouco foi porque Luís entendeu que ia ter que se picar de cá.

“E vai fazer isso onde?”, Luís perguntou.

“Aqui, mulher. Fim de mês, eu vou pagar motel é nada. Mas é coisa rápida, tu vai tomar um banho no açude e volta”.

“É, eu preciso entregar esse texto amanhã. Tu jura que não demora?”.

“Juro, meu irmão. Já abri o grindr, logo vem o frango express”.

Luís desalumiou o quadrado e foi embora apagadinho, com cara de quem comeu mato seco mesmo. E também de quem pensa: quem é que chama de irmão enquanto manda o chamado irmão sair de casa pra comer viado? Eu nunca vi viado, diz que tem chifre. Mas quem chegou foi outro homem, da cor das tetas da minha mãe e cabelo da cor do milho do Aristides. Vicente fechou a porta do quintal e eu não vi mais nada. Fiquei com a minha felicidade de mato e o homem que não era frango nem viado deve ter ficado muito triste, porque zurrava feito eu quando o Aristides dá com a peia no meu lombo. E o Aristides quando chegou ficou da cor do céu quando é fim do dia, mesmo sendo meio-dia. Desamarrou a corda e me puxou pelo cabresto correndo e levando a mão na testa, no peito e nos dois ombros, muitas vezes.

Chegou em casa tão bravo que desceu a peia no meu lombo de graça, jurando nunca mais me levar pra pastar no quintal dos meninos. Eu poderia jurar pro Aristides que a jura dele não valia nada. Mas jumento não jura. Então, tudo que deu jeito de fazer foi descer o casco no milho, na macaxeira e no feijão. Antes do sol nascer, Aristides me puxou pelo cabresto, disse “simbora pros minino frango, seu fuleragem”, amarrou a corda no pé de juá e foi embora enfulecido. Eu já corri pro mato, felicidade é isso e só.

O problema é que logo hoje, mesmo o mato sendo muito, a felicidade foi pouca. Primeiro porque ouvi os gritos dentro da casa.

“Eu falei que tinha que entregar hoje, cara”, Luís falou. “Tu só me deixou entrar de madrugada. E eu não quero beber essa merda, porra”.

“Mulher, não venha de nervoso, isso aí é gala presa”, Vicente disse com a fala embolada. “Tu devia ter comido o viado também, meu irmão”.

“Viado é o caralho. E eu já mandei tu não me chamar de irmão, meu irmão”.

“Seu irmão é só essa porra desse jumento né? Agora tu vai ver, até ele vai gozar, só tu que vai ficar com a gala presa”.

Depois, a felicidade acabou de vez porque Vicente abriu a porta, botou uma cenoura na minha boca, se abaixou no meio das minhas pernas e começou a me lamber. Aí o jeito foi descer o casco na cabeça dele.

A ambulância foi embora pro hospital, Luis voltou pra terra dele sem se despedir nem me chamar de irmão, Vicente não voltou e o Aristides tá tentando me vender, mas ninguém quer comprar jumento assassino.

Era pra eu ficar triste, mas o quintal dos meninos ainda tá cheio de mato. E mato, qualquer burro sabe o que é.

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