Há semanas, sou carregado para lá e para cá numa garrafa de plástico pequena e gorducha. Um bípede estranho, que me chama de Barrigudinho, me arrasta pela cidade e às vezes me esconde num buraco. Durmo com ele embaixo do Minhocão, sobressaltado pelos tantos motores rugindo perto de mim, tão diferentes do ronco suave do barquinho do parque. Maldita a hora em que esse ser me tirou do meu lago. Que desprazer conhecer o asfalto e a carência humana, suas infinitas ruminações sobre a sina terrível que acometeu sua vida.
Ha algumas noites, o energúmeno pegou um pouco da água da minha garrafa pra fazer bochecho depois de escovar os dentes. “Te devolvo depois, gudinho”. Achei estranho, pois nunca o tinha visto escovar os dentes. Fiquei olhando o vaivém nervoso das bochechas, a barba cada dia maior, o cuspe da água de peixe no meio fio.
Depois, ele tirou a camiseta que vestia e a colocou embaixo de uma das goteiras do viaduto. Esfregou aqui, esfregou ali. Não limpou nada, as manchas pretas ficaram ainda mais escuras. Deixou a roupa pendurada na saída de ar do metrô, do outro lado da rua, pra secar. Sentou do meu lado e abriu com cuidado, olhando para os lados, uma latinha prateada: sua coleção de bitucas.
Gastou um minuto escolhendo as duas maiores e as deixou do lado da fogueira de lixo, que separou bem para que ficasse o menos fedida possível. Só madeiras e papel. Deixou o fogareiro improvisado com tijolos e arame no jeito pra cozinhar um miojo, a base da nossa alimentação ultimamente.
Encarou as mãos, que considerava um de seus pontos fracos, com as unhas pretas, os calos nos dedos de tanto fazer bico carregando caixa pros chineses do centro. Sei que não gosta dos chinas, não porque me interesse, mas porque faz questão de me contar sem eu pedir. Reclama, mas, com o dinheiro deles, vai tomar corotes hoje, servidos em garrafinhas como a que hoje tenho o desprazer de chamar de casa. Espero que não invente depois de condenar outro peixe a essa desgraça de vida.
Pouco tempo depois do anoitecer, chegou a outra bípede. A pele do rosto feito areia de deserto, rachada. Magra e pequena, quase como se desaparecesse entre a paisagem, usando um vestido com estampa floral, os cabelos loiros desgrenhados formando um tufo acima da cabeça. Logo entendi que, a despeito da cena, de frágil não tinha nada. Tem coisa que só peixe consegue ver. Era soturna, isso sim. Sentaram-se perto do fogo, numa pilha de papelões, e abriram o primeiro corote. Ela deu um gole comprido, satisfeito, e ele abriu um sorriso enorme. Perguntou se ele tinha cigarros, fumaram as bitucas.
Dado momento, fez sinal para que ela esperasse e foi até mim, escondido atrás de um saco de lixo. A mulher deu um grito quando ele voltou carregando a garrafa. Ele fez sinal para que ficasse quieta, já tinha muita gente de olho em mim. Ele abriu a garrafa e me serviu de uns pedaços de miojo, e depois passei um tempo ali, na água amornada pela fogueira. Ouvindo suas conversas sobre suas vidas passadas, as melhores receitas para fogareiros improvisados, as quinquilharias que achavam revirando lixo. De vez em quando, pegava a insolente me olhando de rabo de olho, desconfiada. E devolvia a encarada com os olhos os mais esbugalhados possíveis.
Quando a rua começou a esvaziar, madrugada adentro, ele chamou a mulher pra deitarem na barraca improvisada com lonas. Me colocou no pé dos panos que faziam às vezes de colchão e avançou para cima do vestido floral dela.
- Mas o peixe tá olhando, Vander!
- Tá nada, tá dormindo.
- E peixe dorme, é?
- Sim, e de olho aberto.
Virou a garrafa pra trás, no sentido da rua. Eu me fingi de morto e não me interessei em virar de volta pra ver aquela cena tão desprezível. Fiquei ouvindo gemidos e o som dos panos roçando no papelão. Meu ódio foi crescendo até quase explodir a garrafa. Que sorte terrível se abatera sobre mim, fadado a viver numa calçada suja, ouvindo o sexo dos animais terrestres, as conversas suadas do depois. Ri da inocência deles, fazendo planos para o futuro. Ela disse que não podia mais ficar onde estava, talvez pudessem se inscrever juntos em algum projeto da prefeitura. No nome dele, porque ela já estava queimada por lá. Pediu para que ele falasse com o pessoal da assistência social no dia seguinte, quando fossem tomar café da manhã na Sé.
- Mas o peixe não pode ir junto.
- O Barrigudinho vai ou não tem acordo.
- Bom, a gente vê isso depois, Vander.
- Não, isso é sério, Célia. Ele é tudo que eu tenho.
- Tá bom… Mas duvido que esse peixe vai viver tanto tempo assim…
Escutei atento a essa ameaça silenciosa, o barulho gosmento dos beijos de boa noite, o “chega” quando ele tentou transar mais uma vez. Enquanto os dois dormiam, chumbados de corote, um homem parou do outro lado da rua com o celular em punho, parecia filmar na nossa direção. Outros dois, mais jovens, vieram, usando tênis bonitos, parecidos com os que eu via no parque, máscaras no rosto, roupas pretas. Um deles era alto e imponente. O outro não devia ter 14 anos, cheio de espinhas no rosto, olhos que lembravam os meus. O maior despejou um líquido em cima da barraca improvisada e fez um sinal impaciente para o menor. Discutiram em silêncio, o maior apontando para ele, como dizendo “é você!”
Com as mãos trêmulas, o menino sacou um isqueiro, um pedaço torcido de papel e mostrou pro homem com o celular, que se aproximava pra filmar mais de perto. Eu me sacudia na garrafa, mas pouco podia fazer para acordar Vander e Célia, que só começaram a se mexer quando o fogo já lhes lambia os cabelos. Também não posso dizer que a cena me comovia em profundidade. Tenho, afinal, o sangue frio. Os garotos saíram correndo, o incêndio comeu os dois, a barraca, o saquinho do miojo. Comecei a ficar agitando quando senti minha água esquentando. De tanto me mexer, tombei a garrafa, que rolou em direção ao meio fio. Dali, só deu pra ver a fumaça preta subindo, o corre-corre das ambulâncias, dos carros de TV. Ninguém me achou e aqui fiquei reflexivo, tentando colocar lógica nos últimos acontecimentos, cochilando de olho aberto (Vander não mentiu) e sonhando com o lago. Esperando por alguma chuva que caia ainda hoje e me carregue na enxurrada, pra longe dos dramas humanos, dos miojos e dos viadutos.
