Família, né?
– Deve ter tomado pouca água, tadinho. E também não comeu nada ontem de noite.
Isso era Pedro girando as chaves para um Gabriel cambaleante cruzar o portão dourado do céu às 5h30 da manhã. São José que usava o outro lado do portão pra alongar antes da corrida largou um não com a cabeça e um.
– Filho meu não se presta a um papelão desses.
– Ah, Zé, faça-me o favor. O teu passou aqui não tem nem meia hora com uma garrafa de vinho debaixo do braço. Batizado todo.
– Como é, Pedro. Retire agora – e afastou os pés do apoio numa força que deu até cãibra na panturrilha.
– Pois não retiro. Nem agora nem na hora da vossa morte.
Lá de longe, Gabriel gritou um amém.
Almoço
A mãe ia doente já há uns 10 dias e ela sem saber mais por onde arrancar ânimo do lado de lá botou um filtro antes de começar a chamada de vídeo. Um daqueles bestas do WhatsApp que distorcem a cara. Funcionou. Riram de dobrar a barriga.
– Vixe, mainha, não tô achando por nada o botão que desliga esse efeito.
– Meu amor, precisa ver isso. Como é que tu vai atender os pacientes da tarde. Dá pra fazer só áudio? Não é melhor chamar pelo Google Meet não?
– Rapaz, parece que é um bug da câmera, tá em todos os aplicativos.
– Minha nossa senhora! E agora?
– Brincadeira, mama pronto, desliguei – sem desligar.
– Então desfaça essa careta, vá?
– Tô fazendo careta nenhuma não, oxe!
– Para com isso, menina. vai que um vento bate ao contrário e tu fica assim pra sempre.
E murchou o sorriso. A cara amuadinha voltou como um anúncio do fim da validade da piada. Tava sem graça mesmo, amargando uma virose que não curava nunca. A filha desligou o filtro e retomou a seriedade.
– Desculpa, mãe. Achei que você tava se divertindo.
– Ah, de novo? Assim eu não gosto não, brincadeira tem limite, né? Chega, vou almoçar. A gente se
Ô dó
– Como foi isso?
Sininho na cadeira do dr. Marcelo, único oftalmologista que ainda aceita Unimed na terra do nunca, tenta explicar:
– Foi o pó mágico de novo Dr.
– Mas a gente não tinha combinado que era pra usar o pó só com a varinha? Longe do rosto. É grave sua alergia, Sininho. Vamos ter que pingar o colírio.
– Ai, tem que pingar mesmo? Aquela gota enorme, meu olho é tão pequeninho.
– Tem que pingar. Vamos lá. Abre. Segura um pouco. Abre só mais um pouquinho. Olha aí, já foi. Agora pisca, pisca, de novo. Pronto! Já já passa.
São José
“Olá, Carina, como vai. Precisaremos adiar a reunião em alguns minutos. O consultor que fará a sua entrevista acaba de ter uma crise de soluço”. Carina respondeu “sem problemas, estou à disposição” Estava mesmo. Desempregadíssima. Essa era a décima sexta entrevista que fazia desde que foi afastada, desligada, encaminhada para novos desafios por seu gerente, líder, mentor, aquele imundo do Nelsinho. Passaram uns 10 minutos e chegou outra mensagem. “É de fato uma situação inusitada. No entanto, ela se mantém. Você teria mais meia hora?”. E de novo respondeu com uma quantidade zero de problemas “imagina, problema nenhum, tenho sim. Estimo melhoras”. Mais uma mensagem e outra e outra. Esse homem já tava soluçando há hora e meia. Quanto mais doces as respostas digitadas quase no murro no telefone, mais gritadas as pragas que lançava ao soluçante. Tia Odete, hóspede da casa de Carina desde o AVC do ano passado, dava palpite da sala de televisão – de mantinha no colo.
– E se essa belezinha ficar com soluço eternamente? Não tem outra pessoa na firma toda pra conversar contigo não, é? Cada qualidade de emprego. Tás precisando é de uma reza, menina. Queres que eu reze pra São José?
– Ah não, tia. Agora é com esse diafragma mal ajambrado que eu quero falar. A gente já começa com um assunto, uma dívida, sabe? Pode me render a vaga isso aqui. E também soluço uma hora para – Carina pelas tabelas com tia Odete e com a TV obsessivamente ligada na Record de de manhã até de noite. Não tinha muito jeito. Família, né?
– Sei lá vai que um anjo bêbado diz amém. Vai ficar com soluço pro resto da vida.
Depois das 6h da tarde o WhatApp calou-se feito um coco, só falou de novo na segunda, lá pro meio dia. “Prezada Carina, informamos que, devido à ausência do colaborador responsável pela sua entrevista, em virtude de questões de saúde, daremos continuidade ao processo seletivo com os candidatos que já foram previamente entrevistados pelo setor de Recursos Humanos. Agradecemos desde já pela compreensão”
Pra que filtro?
– Quem mais vem? – Apolo, dizia olhando pra um lado e pro outro com o braço estendido na porta do elevador.
– Pera, tô quase.
– Bora, Atena. Demora é essa?
Ela chega se espremendo.
– Vai mais pra lá, galera. Quero ver se esse elevador aguenta quando a gente voltar tudo pesado do almoço – aquele climinha intragável de piada de escritório.
– E Éolo, vem não? Hoje é pastel, tá totalmente pra ele – riem com fome e sem graça. Um hahaha alto que vai murchando deprimente.
– Vem não. Tá treinando o estagiário novo.
– É bom o menino?
– Nada. Cada vento troncho. Não mandou nenhum pro lado certo até agora.
fala depois.
Só o pó
– Vai querer ovo?
– Vii.
– Oi?
– Ni virdidi, ni sii. Tilviz i quiri, mis tilviz i ni quiri.
– Ah, não. Língua do I não aguento não. A frigideira já tá no fogo. Vá, quer ou não quer?
– Filipi, ti mi imi?
– Não aguento não, aguento não, aguento não.
– E se fer essem? Te eguente?
– Quer ou não quer?
– Tu tu nurvusu ú?
– Ah, vá, Carla. Para!
– Ah, lá qua casa mas landa. Tá falanda na langua da A.
– Vai que uma fada pisca três vezes agora. Tu vai acabar ficando assim até o fim dos tempos. Eu vou achar é bom. E aí, quer ou não quer?
Felipe (que era com dois Es) fazia de conta que não aguentava, mas tava doido pra ver Carla fazer bico na hora da língua do O, a favorita dele. Só que aí foi subindo um calor meio esquisito, ele de costas pro fogão, um cheiro de pano de prato queimado, de cabelo queimado. Demorou um pouquinho mais que ela pra ver o estado da cozinha. Já o bico da língua do O deu tempo de ver.
– Fogo, fogo, socorro – a bichinha gritava. Depois, já fora do apartamento, sentada no carro dos bombeiros seguia igualzinha – Soprô o fogo, tombô o forro, o corpo morto.

