por Américo Paim
É a única saída. Sinuca da porra. Vou virar presunto se vacilar com o chefe de novo. Os caras já me disseram. Aliás, nem sei por que tô tendo outra chance. Melhor num brincar. E é certo que Bacio já fez muita merda. Eu sei. Já me ferrou mais de uma vez e pode me dedurar. Ali vale é nada. Nunca tive essa precisão antes, mas oxe, não bula comigo não…
– Porra, Bacio, qué derrubá a porta?
– Ô, Joça, caralho, tô bateno faz tempo. Tá surdo, é?
– E foi? É que eu tava aqui pensando umas coisa…
– Aluou, fio?
– Antes fosse.
– Então é o quê? E bote logo uma pra nóis aê…
– Porraniúma. Quero tu são pra ouvir umas parada aê.
– Véi, um gole só… Sete da noite, papá, hora do goró.
– Nada. Vai me ouví primeiro.
Levo ele pro quarto. Esse filho da puta fala alto pra porra. Fecho a porta. Deixo uma greta de janela. Tá calor. Ele fica na cama. Bacio tá cada vez pior, véi. Chegou comendo de boca aberta, porco, cheio de farelo na roupa. Nojento. O cabelo macarrão requentado, e esse tanto de colar inda vai quebrar a coluna desse condenado. A mesma camiseta, feito farda, que nem segura a barriga de bola. Também, o tanto que bebe e come de porcaria, já era pra ter morrido, essa desgraça. Ele fala animado.
– Joça, tu tá todo mauricinho, hein? Fez barba, tá cheiroso. Vai comer gente hoje?
– Cala essa boca. Cê devia fazê a merma coisa. Tá podre.
– Oxe, tumei banho e as porra.
– Isso eu sei. Nem desmaiei quanto tu entrou.
– Vaisefudê.
– Ninguém guenta esse cheiro de bode… E o bafo? Deusémais…
– É o quê? Quémebeijá com essa cara de rato de cadeia? Magro que nem lagartixa de parede?
– Tá leso? Ói, tamo perdendo é tempo. O assunto é sério.
– Então fala saporra…
Me levanto, ando pelo quarto. O troço é doido de explicar.
– Bacio, tô seno testado pelo home, tu sabe.
– Tá fudido.
– Ele me mandô fazê umas coisa aê, parada braba.
– E tu fez?
– Tem jeito de pulá fora?
– Tá tudo certo, então. Eu é que tô lascado. Tô devendo pra ele. O home ficô puto.
– Tô sabeno. E ele tá queto, né?
– Aí que dá mais medo.
– Foda mermo. Ói, deixôfaláminhaporra, véi.
– Oxe, tô lhe segurano?
– Rolô uma porra aê… lembra de Tuba, que a mulé dele, Sirlene, morreu no meu apê?
– Oxe, esquece como?
– Eu sou inocente nessa, mas ele achava que não. E veio atrás de mim. Era ele ou eu, papá…
– Achava? Tu apagou o cabra? Tá macho que só a porra… Ali é bruto!
– Não, não, pera. Dei uma sorte retada.
– Foi mermo? Largue o doce.
Conto a ele como foi.
Eu tava de boa, na serra, perto da beira da rodage, muito lá pra dentro, não. Depois do Quibungo, fiquei medroso de mato… Lembra da história que tu nem acreditou? Mas é verdade, eu juro. O quê? Tá pensano que num existe? Então num vai sozinho lá dentrão da serra que tu pode caí naquela boca fedorenta. Lhe digo é nada. Agora, o que num te contei, que tu vai ouví entalado e morrê com isso, é que o monstro me pediu favô pra ele. Não me comeu por isso. Eu topei, né? E ia aproveitá a situação pra mandá Tuba dessa pra melhó. É isso mermo. Num posso explicá o favô não. Só escute e acredite, Bacio. Acontece que eu tava demorando de resolvê. Era preu levá Tubarão pro Quibungo comê, num vô mentí. Me diga: como é que faz isso? Quibungo num ia saí do mato e Tuba, se desse comigo, me apagava. E eu ripito: num fiz nada com Sirlene. Só encontrei a pobre no meu apê e ainda num sei como ela foi pará ali. Eu juro, Bacio.
– Peraí, Joça. Xovê se entendi essa bagaça. Tu comeu a mulé de Tuba e aí…
– Não, caralho. Comi ninguém não! Quédizê, acho que não. Tava bebaço. Complique não, Bacio…
– Tá bom. A mulé morreu e o animal foi atrás de tu. Como ele sabia?
– Luizão falou.
– Dedo-duro da disgraça! Nunca confiei. Tá bom. Aí tu vazou pro mato.
– Foi.
– Aí encontrô o Bundudo lá…
– O Quibundo.
– Certo, que seja. E aí ele num te matô e ainda pediu favô?
– Acredite.
– Tá foda de intubá esse leriado aê…
– É a pura verdade.
– E tu tem que levá o cara que qué te matá pra morrê na boca do monstro.
– Tinha.
– Ué, desistiu?
– Xô terminar de contá a porra da história, c-a-r-a-l-h-o?
Falo como me lembro. Fui pra serra, com tinha medo de ir muito pra dendomato. Já tava escuro. Deixei só um fiapinho de luz na cabana. Aí o som começou. Me dá rupio lembrá. Um gemido fraquinho que foi aumentano. Era preu ficá queto, mas não, curioso como quê, fui fuçar. Andei um tanto dendomato, até que achei a miséra. Parecia pessoa, numa pedra grandinha, de costa pra mim. Meti a lanterna e a gemedeira parou. Tava com um cobertor cinza escuro ou aquilo era sujêra mermo. Me cheguei: “boa noite, tá tudo bem?”. Aquilo virou a cabeça e nem sei como não me caguei ali na hora. Eu juro. Um capuz que só cobria metade da cabeça. Vi cabelo não. A pele brancona, mortinha, véi. Osóio fundo, escuro, nem dava pra ver o branco, cada olheira da porra. Nem parecia que tinha boca. Tinha uma barba, ou sei lá que diabo era aquilo, rala, desceno até o peito. Num vi queixo, nem a parte de baixo da boca. Num era caveira nem cara. O bicho falou comigo divagá, com uma voz que meu cu travou. Aliás, travou foi tudo, num vô mentí.
– Você sabe onde estou?
– É o quê, véi? Tu fala e tudo?
– Não sou daqui. Cheguei ontem e ainda estou meio zonzo.
– Oxe, tu tá aqui na serra de Pedra Velha.
– Não conheço essa paisagem. Talvez quando amanhecer…
– Ói, tu tá certo, mas acho que é melhor eu…
– Não vá embora.
– Oxe, oxe… rapaz, repare, é melhó tu voltá pronde tava antes.
– Eu quero, só que preciso de ajuda.
– E tu é quem?
– O Bradador.
– Bra o quê?
– Bradador. Sou um condenado.
– Crendeuspai… é melhor eu sair…
– Minha sina é passar a noite lamentando.
– Ói, vô lhe deixá aí no seu choro, quedeuslheajude e…
– Esse aí não pode fazer muita coisa.
– Ô, coitado…
– Faz tempo que estou nessa condição.
– Tu tem cara que é antigo mermo. Quer dizer, experiente e tal…
– Não estou numa boa fase. É a pior de todas, desde que morri.
Aí Bacio não aguenta. Se levanta num pulo só, o olho arregalado, a barriga se tremendo.
– Peraê, peraê, papá… Que papo é esse, mermão? Tu tava falando com sprito?
– Apois.
– Não, não, não… tu tá aluado mermo. Tô gostando disso não…
– E eu? Espere prouví o resto.
– Quero não, fio. Aliás, que porra eu tenho com isso aí?
Não dou chance a Bacio para vazar. Explico que preciso dele para resolver o problema que veio depois. Volto ao encontro com o Bradador.
– Oxe, oxe, oxe… morreu foi? Mas tá aqui falano comigo.
– Sou condenado, já disse – falou o monstro.
– Tu teve preso, é isso?
– Não é assim. Fui muito cruel quando era vivo. Minha alma foi rejeitada.
– Vixe… E veio pará logo aqui, jesuscristinho?
– Estou ficando estranho aqui no mundo de vocês… uma vontade de beber…
– Óia só. É dos meu. E bebeu, meu santo?
– Bebi. E foi muito porque nem lembro o que aconteceu.
– E onde foi isso, amado?
– Só lembro que deitei no fundo de um caminhão. Aí acordei aqui perto.
– Que situação…
– E a vontade que não passava.
– De beber?
– Não. De fazer as coisas que eu fazia antes.
– O que era, coitado? Jogá futebol? Comê um churras? Deve dá uma saudade, né?
– Não. É vontade de bater, torturar, matar, essas coisas.
Tenho que parar. Bacio tá passando mal. Vou buscar uma água pra ele. Ele rejeita e pede cachaça. Concordo e trago. Agora ele não quer que eu pare.
Falei pro Bradador que precisava resolvê uma parada. Um sujeito que queria minha caveira. Aí eu disse: juntá a fome com a vontade de comê: ele matava a saudade e eu livrava minha pele, entendeu, Bacio? Ele olhô estranho, com aquela fundura na cara e perguntô se isso ia fazê ele voltá pras terra dele, que fica mais lá pro sul. Eu disse que era mole. Ele falô que num matava de noite, só ficava vagano, o negoço da alma condenada e tal. Mas de dia ele podia rumaladisgraça em qualqué fidiputa. O quéqueufiz? Oxe, armei pra Tuba aparecer na serra. Usei minha galera, tu sabe. Falei com Cueca, Fedô, Soldadinho, os cara escroto, tu conhece. Eles conseguiro fazê o peixe chegar no lugar marcado, fio. Ele e mais dois, óia… Tu num sabe de nada. Entraro na cabana e o Bradador tava lá. Foi rápido. Só fui lá conferí o serviço. Mermão, que bagaça… Ói, já vi foi coisa, mas nem vou lhe contá pra tu num vomitá na minha cama.
– Deusémais… E cadê o monstro?
– Ficô lá. Combinei de voltá de noite.
– Tu foi esperto, Joça. E agora?
– Tu vai lá comigo.
– Nem fudeno… Tá maluco?
– Véi, eu contei pro Bradador sobre o Quibungo. Ele já conhecia, mas num vê faz tempo.
– Por que contô?
– Ué, é tudo monstro. Um ajuda o outro, né não? Eles conversa e tudo se ajeita.
– E como tu vai fazê isso?
– Eu sei onde o Quibungo fica, ué.
– Hoje?
– É hoje, Bacio.
– Então boa sorte. Vou chegando…
– Peraê, peraê… eu sei um monte de merda sua. Tu tá fudido com o chefe.
– Tu tem coragem de me entregá?
– Repare, tu lembra que eu tava deveno favô pro Quibungo?
– E daí?
– Ele vai me cobrá e eu tô com medo. Vai me deixá sozinho com os dois?
– Tô gostano nada disso… negoço de alma e monstro dá não.
– Tu vai comigo e eu ajudo com o chefe.
Ele topa. Já são quase nove da noite. Vamos para a serra. Seguindo os gemidos, a gente acha fácil o Bradador. Bacio fica branco quando vê o monstro, mas segura a onda e andamos pelo meio do mato até onde espero encontrar o Quibungo. Chegamos no local que vi o brabo na outra vez. Esperamos ele dar as caras. Percebo um vulto se deslocando rápido em volta do pequeno descampado. É ele, a qualquer momento. Discreto, me afastado dos outros dois. Ele surge, sujo, meio homem, meio lobo, mais de dois metros, peludo preto, garras enormes. Os olhos grandes, amarelos e nas costas ela, aquela boca imensa, transversal com dentes tortos e língua gorda, do pescoço até a cintura. Escorrendo baba o Quibungo fala, objetivo:
– Bradador, colega, há quanto tempo.
– Salve. Como está?
– Você trouxe o combinado – fala olhando pra mim.
Bacio nem tem tempo de gritar ou mesmo processar o que acontece. Em segundos desce goela abaixo da bocarra às costas do Quibungo. O Bradador chora e geme, não de pena, mas pela natureza. Eu aproveito e vazo dali. Os monstros que se entendam. E eu não gosto de olhar alguém comendo de boca aberta.
