– Quem começa?
– A gente, prô.
Juro. Na publicidade da ESPM, professores são chamados de prô. O prô era Benício, titular do Laboratório de Social Marketing Insights III e “a gente” eram Fê e Lu, dispostas a começar os seminários. Vieram de sainha plissada curta bem curta, Golden Gooses gêmeos nos pés e camiseta impressa com o logo do projeto a ser apresentado. Mas não impressa como se tivessem ido ali na gráfica rápida do shopping ontem de noite, impressa como quem contratou um aluno do design pra desenhar o logo, reprovou, reprovou de novo, aí contratou um designer de verdade, marcou um brunch pra discutir o briefing do job, disse que rosa de jeito nenhum, mas azul ou verde talvez, comprou uma camiseta de algodão pima e pediu para o tio Jorge, que tinha uma marca de roupa também de verdade, mandar imprimir no mesmo fornecedor que fazia as coisas dele (de super bom gosto) ainda que ficasse um pouquinho mais caro já que eram somente duas impressões.
Looks para apresentar trabalho, sabe? Se bem que esse nem era um trabalho qualquer. Benício, bem relacionado até nas agências todas, chamava no fim do semestre uma estrelinha do mercado pra assistir aos últimos seminários. E o Laboratório de Social Marketing Insights III fecha o terceiro ano da graduação. É fazer bonito, conquistar a estrelinha, descolar um estágio por fora dos processos seletivos e deu. Tá feita a carreira de mais um criativo (com th no tivo, por favor). O trabalho é sempre o mesmo, o de inventar uma empresa e sua campanha de lançamento baseada em um tema específico que esse ano é lendas urbanas.
– Fê e Lu então. Vamos lá?
Benício também tinha pensado no look. Era como se mostrar os alunos ao mercado, o tudo que ele toca vira ouro – a formação de um criathivo, ele diz – justificasse a escolha da vida acadêmica. Mais do que isso, era como se o olhar de espanto dos convidados – quase todos colegas da turma de 2002 desta mesma ESPM, quase todos estrelinhas do mercado, quase todos ganhando mais de 3 dígitos por mês – aquele olhar de “minha nossa senhora, o povo novo já vem pronto, eu mesmo botava no meu lugar, esse cara tem que parar de ensinar o que sabe, vou pegar o melhor pra ser estagiário, vou amassar, destruir, transformar num zumbi de cabelo oleoso, botar pra ganhar prêmio pra mim e depois conhecer a face medonha do burnout pra querer abrir pousada, escrever livro, assar pão, fazer podcast ou qualquer outra coisa que não seja roubar a minha cadeira quentinha de diretor de criação”, pronto esse olhar, era como se esse olhar justificasse qualquer escolha de Benício desde que escolheu chorar quando saiu espremido e sujo de sangue de dentro da mãe. Importante que a estrelinha do mercado solte ao menos uns 6 “genial!” (estupendo e brilhante também pontuam). Em uma turma de 59, trabalhando em dupla, 20% de elogios pra quem só elogia se realmente perder o controle tava ótimo. Mas aí Fê e Lu me saem com a Perna Cabeluda capitaneando campanha da clínica de depilação Pelo Menos que inclusive já existe. Não dá, né? A estrelinha nem riu. Embora as pernas das meninas estivessem mesmo depiladas à perfeição.
Benício não pergunta quem queria ser próximo. Foi logo chamando os que tinha deixado mais pra frente: Otávio e Lucas, amigos que tocam o baile do branco da ESPM desde o primeiro semestre. Esse ano o lote 1 esgotou em 10 minutos, antes mesmo da divulgação das atrações e do cardápio do openbar (foi Jack Daniel´s, Aperol e Xeque Mate, sim, o Gin era Gordon´s). Mesmo esqueminha, camiseta com logo, tenis cheirando novo – o cadarço desamassado ainda, sabe? -, calça branca, e muita mão na franja pra apresentar um salão de beleza especializado em tranças. Do algodão pousado nos peitos creatinosos dos meninos lia-se: Comadre Florzinha Beauty Salon.
– Só trança? Tem público pra isso? – Estrelinha pergunta, eu também perguntaria.
Otávio e Lucas apontam pra sala como quem responde que “sim, óbvio”, mas só encontram as respectivas namoradas com cabelo trançado. De uma lealdade comovente.
– Olha gente, calma lá – isso era Benício – o convidado é pernambucano. Boa, entendi. Mas me decepciona a inconsistência das ideias. Vamos fazer assim, se alguém aí tiver uma barbearia para o Lobisomem de Garanhuns ou um fornecedor de embalagem pro Homem do Saco, vou pedir que deixem o auditório pra gente evitar constrangimento.
Levantam-se 2 duplas. Uma das trançadas pergunta se o Nonô Brechó pra noivas na Rua Nova também configura expulsão, toda de branco a bichinha. Benício faz que saia. “Mas o atendimento é boutique, prô. E tem essa contradição, né, de ser brechó, mas ao mesmo tempo a rua ser nova, o slogan é ´Lindo de morrer´ e tudo isso”. A mão segue indicando a porta. Desfilam sobre o telão queijarias Cabra Cabriola e lenterias Biu do Olho Verde. Tudo fundamentado a dores do consumidor, projeções de crescimentos, diferenciais e valores agregados.
Estrelinha já ia olhando o relógio quando Pâmela, que preferiu fazer o trabalho sozinha do que em trio, toma o palco do auditório. Sobe afastando a cadeira com a mão firme de quem cresceu a inhame cozido de manhã cedo. Pede para desligarem as luzes e acende o telão num brilho mínimo. Ela senta e começa a contar os participantes da sala. Seriam 55. Os 59 alunos, ela incluída, a primeira que contou apontando o dedo pra própria testa, menos 6, os dos grupos da Noiva da Rua Nova, do Lobisomem de Garanhuns e do Velho do Saco, mais Benício, mais Estrelinha.
– 1, 2, 3, 4…
Enquanto conta, vê mais da metade da sala de olho molhado, disparam pelo menos uns 5 ataques de tosse nervosa sem som. Não sei se é o frio, a altivez do dedo apontado de Pâmela, aquele escuro. Somam 43. Ela passa o slide. Explica com grande clareza que o fígado é mesmo de todos os órgãos humanos o mais nutritivo. De 30 a 35 gramas de proteína pra cada 100 gramas de carne. Uma voz suave e preenchedora que parece sair de um desses fones bons, todo o ruído externo cancelado. Recomeça a contagem.
– 1, 2, 3, 4… – Agora são 29.
Aponta o controle para o telão e explica partezinha por partezinha do corte seccional de um fígado que ocupa o auditório inteiro. Não se vê mais nada que não seja os vermelhos, os brancos e os rosas hepáticos. E de novo.
– 1, 2, 3, 4…
Otávio levanta estabanado, corre em direção a porta, força as mãozinhas hidratadas no trinco em vão. É como se as gargantas tivessem sido desligadas da tomada. Nenhuma funciona. Ninguém grita, ninguém nem fala. Só Pâmela.
– 17. Vejam aqui as células do fígado. Os de vocês são assim vistos de perto. Não é bonito? Uma pessoa, digamos de 80 kg, uma pessoa assim como Otávio, volta aqui Otávio, tem cerca de 300 bilhões de hepatócitos e glóbulos hepáticos em franca metabolização de nutrientes, produção de bile, armazenamento de glicogênio, detoxificação de substâncias tóxicas e produção de proteínas plasmáticas. Somos quantos? 9? 9 vezes 300 bilhões, 2,7 trilhões. É muita célula. Não é, Benício?
Os que restam desviam as pupilas dilatadas do telão em direção a cadeira vazia de Benício.
– Como vocês devem estar percebendo, o negócio que apresento aqui hoje é da área da nutrição – e dá uma limpadinha no canto da boca.
O ar-condicionado cada vez mais gelado e as pernas de Fê e Lu sentindo falta dos pelos que queriam por tudo arrepiar. Os outros 4 arrepiam. Do lado de fora do auditório, as trançadas de branco, cada uma com seu chai latte na mão, se arrependem da escolha da lenda urbana.
– A gente devia ter pegado aquele, como era o nome mesmo?
– O Papa-Figo?

