pedra de corisco

@brontopsbaruq

Quando um raio bate no solo, não deixa luz e barulho só. Incrustrado terra abaixo fica uma pedra. Para uns, na forma da letra T; para outros é uma cruz, uma cruz decapitada. Fica perdida abaixo do solo sob gestação de sete anos, quando emerge já sem poder. Quem quiser sua magia, carece abortá-la, desenterra-la. Mas saiba que são sete palmos para cada ano. Talvez seja melhor maturar um pouco para facilitar o trabalho. Há quem use como talismã. Se usar na casa, nela não virá raios. Se usar em viagem, ela desvia tempestade e abre caminhos. Mas já me contaram usar para recarregar pilha e bateria de celular.

Quando um raio bate na pessoa, deixa a pessoa morta. Às vezes, até mais de uma. Isso era coisa certa. Hoje a ciência do homem se avançou muito. É satélite, computador, robô, raio laser. Deus que me perdoe. Periga tirar da tumba o defunto para fazer ele dançarino. Eu mesmo conheço caso de mulher que de raio escapou viva. Mas não inteira.

Não sei se conhece, ela era neta dos Cavalcante, lá das terras dos açudes. Dona Turmalina foi com a irmã e o cunhado e os sobrinhos para o litoral aproveitar feriado da Semana Santa. Mas tempo virou e veio tempestade e relampejava e enquanto ela corria com as crianças para se proteger e do nada veio um que derrubou um monte, ela inclusive. Dona Turmalina morreu não, mas ficou vai-não-vai por um tempo regenerando em hospital da capital. Com as crianças nada houve, graças a Deus, a Jesus e a Santa Bárbara.

Dona Turmalina, tadinha, não foi mais a mesma. Ficava dia e noite na cama, sem ânimo para nada, nem cozinhar, nem ir no culto, nem rever a sobrinhada, nem no zap ela se enturmava. Já não regulava bem da cabeça. Quando chovia, dizia que não era chuva o que chovia, mas martelos e mais martelos, a calha não daria vazão e o telhado e as telhas ruiriam sob esse peso e todos ali seriam cravados no chão.

Dona Turmalina não comia, mas mesmo assim foi engordando e engordando, quebrou cama atrás de cama, estrado não aguentava, botavam tijolo embaixo para segurar. Quando perguntavam a ela o motivo, ela respondia que a alma lhe escapava. O pastor culpava falta de jesus, havia quem dissesse que era amarração, mas o povo falava que era depressão, o mal do século.

Mesmo sem comer, ela só crescia e crescia e depois de sete meses, Dona Turmalina pariu. Saiu dela um rio de rocha, um monte de cascalho desceu pelas ruas e vielas até deixar raso o açude de tanto minério que se enfiou ali. A mulher continua até hoje lá na casa grande, derramando pedregulhos num balde para os parentes venderem na Internet. Ao menos, tá ajudando a família.

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