Depois de dois meses que a Vó Alda se foi, comecei a ver as pecinhas espalhadas pela casa. A primeira, eu encontrei, bem de frente a mesinha do café. Vermelha. Isso regulou com a dificuldade de locomoção do Vovô Tito. Somando uns dias, ele apareceu com uma coceira estranha abaixo dos lábios, na voltinha antes do queixo. O vovô coçava como quem tenta arrancar fora uma parte do corpo. A fala, descoordenou. Na pesquisa que fizemos, encontramos aquela doença que deixa a língua quadrada. Qual o nome mesmo? Depressão decorrente do luto, a imagem da pessoa fica com pouca definição e algumas peças podem desencaixar. Pelo menos foi o que assisti de um youtuber especialista em luto.
Na mesa do almoço de domingo, aquela confusão de pesquisas onde, cada um criava mais patologias que o outro. A mamãe me disse que não é nada parecido com língua presa, que é diferente. O Bento, meu irmão, já estava imaginando, usando IA, uma doença de um universo de ficção científica. Eu só sei que, quanto mais o vovô truncava a fala, mais peças apareciam pela casa. Não que, antes da vovó morrer, ele estivesse falando algo compreensível. Falava, de tempos em tempos, sobre a terra ser plana. Mas isso, é trava de outra geometria. A vó sempre respondia, cuidado pra não cair do tabuleiro.
Mais algumas semanas, avisamos o vovô da consulta com a especialista. Ele respondeu qualquer coisa e não foi. Falava sozinho e quando perguntávamos o que se passava, ele sorria quadrado e só. Comecei a ver que, da sua conversa ou reza, peças despencavam ritmadas até o chão. Como num game antigo, vovô Tito se desmanchava e as peças se acumulavam pelos cantos casa. Ele foi se transformando numa figura em blocos que, olhando de longe, era o desenho de um homenzinho saído de um game. De perto, era uma espécie de escultura de lego.
De noite, enquanto estava dormindo, a fala se arredondava e ele repetia o nome da vovó. Alda, pra lá, Alda pra cá. Era reação do organismo que trabalha na reconstituição do tecido das pontas das peças. Mas depois do café, a imagem do vovô pixelizava. Dizem que café estressa as curvas e juntas. Não tinha nem como pedir para o vovô parar de tomar café.
Juntei as peças em alguns baldes de dez litros. Não joguei fora, coloquei tudo dentro do carro que ele não usava mais. Comecei a remontar, como um homem sentado, no banco do motorista.
