E o Lobão, ein?

– Garçom, uma cerveja.

– Só tem chope.

– Desce dois, desce mais.

Isso era Dudu, fazendo a voz do Evandro Mesquita e a do garçom, que na verdade quem deveria fazer era Mari. Ela engoliu seco e:

– Amor, pede uma porção de batata frita.

Ele:

– Ok, você venceu. Batata frita.

Quando entrou por cima dela no “aí, blá blá blá blá blá blá blá blá ti ti ti ti ti ti ti ti ti”, Mari soltou o microfone no chão e correu pro banheiro. Ele só se deu conta do abandono quando a voz sobrou meio fraca no refrão. Não soube mesmo. 

Ao contrário de Dudu e Mari, os amigos da FAU pareciam todos tão afinados. Se dividiam em 3 grupos (em escala de inveja Mariliana, do menor para o maior): 1. os dos que ainda estavam juntos, os mesmos casais (todo mundo com pelo menos umas 6 menções na primeira página de pesquisa do Google, mezzo barrigudos, mezzo maquiadas, colares compridos de madeira, blazers de linho, em dia com o carnê do baú, sabe? Fotos dos filhos na casa de campo que “a gente mesmo desenhou”, sorrisos, cheiro de xampu bom e que felicidade, que felicidade); 2. Os do segundo ou terceiro casamento (beijos apaixonados, podemos ficar até o dia amanhecer, pois guarda compartilhada, fulano que já pegou sicrano, ninguém nem fala de arquitetura, “lembra daquele dia na praia?” – um dia que ela não sabia qual foi, combinado no subgrupo do qual não faz parte -, olhares cúmplices, tatuagens novas, bio estimulador de colágeno e músculos, muitos músculos) e 3. Os solteiros desde sempre, viagens compradas de supetão “como assim vocês ainda não conhecem esta micro cidade de nome impronunciável que Mari nunca ouviu falar e não consegue nem localizar no mapa? Nossa, tem que ir”, peles viçosas sem o esforço do grupo 2, corpos cobertos de tecido gostosinho de pegar, tão gostosinhos de pegar, prêmios, livros e apartamentos enormes). Inclusive este onde se dava o karaokê de 25 anos de formatura. Nenhuma parede dividindo quarto, sala, escritório, cozinha e jardim espalhados em 400m2 de pura vida que vale a pena. 

No grupo zero estavam Dudu e Mari. Ele trabalhando nos decorados de uma incorporadora cujo nome os amigos nunca lembram “como chama mesmo, Dudu, a construtora lá?” e ela na corretagem de imóveis. Não os charmosinhos desenhados, construídos e criticados pelos grupos 1, 2 e 3. Os normais mesmo, desses que melhor levar um pacote de lencinhos umedecidos Veja pra passar pelo menos nas maçanetas das portas e nas janelas antes de receber o próximo interessado para locação ou compra. Mas pior não era isso. Pior era ter ensaiado um Bowie pra cantar a semana todinha e o cara se agarrar no Blitz como se nada fosse.

O banheiro onde Mari se refugiou dava quase metade do apartamento deles. Do espelho da pia, onde tentava apagar o rímel da olheira, deu uma choradinha de nada, viu que além da porta por onde chegou, havia outras três. Na curiosidade de corretora, abriu a primeira. Dava para um corredor de cimento queimado e canos vermelhos aparentes como manda a cartilha da FAU. Entrou. Andou, andou e alcançou de novo a sala. Estavam lá os convidados todos cochichando em maravilhamento. 

– Mas quando foi que tu separou de Dudu? – o anfitrião queria saber

– Oi?

– Bora cantar a nossa, amor? – Evandro Mesquita, himself, mas o himself de 1980 e poucos, todos aqueles ângulos no maxilar, esperava no palquinho do apartamentão. 

Ela sobe, e ele:

– Sabe essas noites que cê sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso.

Aí Mari:

– Na ruaaaaaaa

Os dois numa harmonia bonita de ver, realmente um casal, – ah, um casal – sensacional. Foram aplaudidos como desde os aniversários de menina pequena já não era. Ele, simpaticíssimo, conversador, botou a festa toda no bolso. Mari isso, Mari aquilo, dava até gosto o tanto que elogiava cariocamente. Chopes e chopes depois, lá volta ela pro banheiro. Dois litros de xixi olhando a porta do meio no espelho. Entro ou não entro?, se perguntava. Abriu só de cantinho, uma coisa meio porcelanato piso ao teto, frisos e frisos dourados. Entrou dando risada. Andou, andou e alcançou de novo a sala. Estavam lá os convidados todos cochichando em maravilhamento.

– Mas quando foi que tu separou de Dudu? – o anfitrião queria saber.

– Oi?

– Bora cantar a nossa, amor? – Dudu aponta o microfone pra Fernanda Abreu herself, mas herself de hoje em dia, nuazinha, e com todas as curvas iguais, ou melhor, com todas as curvas ainda mais bem desenhadas do que em 1980 e poucos – Bora? – Dudu ri bestinha do palco do apartamentão. 

Ela sobe, e:

– Tá tudo muito bom, bom. Tá tudo muito bem, bem.

Ele:

– Mas realmente, mas realmente.

Os dois numa harmonia cheia de tal e coisa e coisa e tal. Mari soltou a tulipa de chope no chão e correu pro banheiro. Ninguém se deu conta do abandono, até porque todo mundo continuou cantando o refrão quase no grito. A porta tava trancada, ela bateu mesmo assim. Tem gente, gritaram de lá. Insistiu na maçaneta e deu de ombro com Freddie e Bowie que saíram do banheiro em “aff”. Vivinhos.

A bichinha tava morta. Foi ruim demais ver Dudu tão cheio de brilho no olho. Um brilho que não era pra ela. Quase que sai pela porta que entrou, dava pra pular a janela também. Mas aí ela abriu o zíper da calça, fez mais um meio litrinho de xixi, lavou aquela maquiagem ridícula, esfregando com a força do mundo todo, olhou pra terceira porta e entrou. Era um corredor largo de madeira. Andou, andou e alcançou de novo a sala. Estavam lá os convidados todos cochichando em maravilhamento.

– Mas quando foi que tu reencontrou Dudu? – o anfitrião queria saber.

– Oi?

– Bora cantar a nossa, amor? – Dudu aponta o microfone na direção de Mari. Dudu himself, mas um himself tão bonitinho. Aquela cara de Dudu recém-chegado na FAU só que com as rugas de canto de olho de agora, bem paralelas, traçadas no esquadro Desetec, como ela só viu em Dudu. O cabelo desgrenhado, prateadinho, sem aliança no dedo, mas com uma vontade danada de colocar uma – Bora?

Ela sobe, e:

– Can’t we give ourselves one more chance. Why can’t we give love that one more chance? Why can’t we give love? Give love, give love, give love.

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