
“Às vezes, uma ideia estrutural surge e torno uma história em torno dela; outras vezes, tudo vem em um momento de inspiração, como um jogo de palavras. Uma das histórias do meu livro Stackable, ‘Uma Mulher à Beira do Casamento’, começa com uma frase que me veio à cabeça: ‘Fui visitar uma mulher à beira do casamento’. Desenvolvi o resto imaginando quem seria essa mulher. Quero escrever histórias que façam os leitores refletirem, seja durante ou após a leitura — histórias que funcionem como dispositivos para gerar pensamentos contínuos. Essa abordagem tende a resultar em ideias estruturais”, disse em entrevista Aoko Matsuda. Parece que ela usou a mesma metodologia em seu livro mais conhecido, Onde Vivem as Monstras (Gutenberg, trad. Rita Kohl).
No caso, a ideia estrutural – que podemos chamar de plot, mas também de prompt – surge após uma pesquisa sobre lendas urbanas, mitologias e histórias folclóricas japonesas, tiradas do teatro kabuki ou do rakugo, uma milenar contação de histórias em que um performer usa leques ou pauzinhos para criar um miniteatro.
Aoko Matsuda nasceu em 1979 em Himeji, Hyōgo, Japão. Formada em inglês pela Universidade Doshisha, iniciou carreira literária em 2007 e, desde então, tem se destacado por sua abordagem inovadora e crítica às normas sociais e de gênero no Japão contemporâneo.
Estreou em 2013 com a coletânea de contos Stackable (Sutakkingu kanō), indicada aos prêmios Mishima Yukio e Noma Literary New Face. Também é tradutora de obras da literatura anglófona, incluindo autoras como Karen Russell, Amelia Gray e Carmen Maria Machado.
Seu livro Obachan-tachi no iru tokoro, traduzido para o inglês por Polly Barton como Where the Wild Ladies Are, recebeu o World Fantasy Award na categoria Melhor Coletânea em 2021. Nesta obra, Matsuda reinventa contos tradicionais japoneses de fantasmas, trazendo-os para o contexto contemporâneo com uma perspectiva feminista e bem-humorada. As histórias entrelaçadas apresentam personagens femininas que, originalmente retratadas como figuras trágicas ou vingativas, ganham novas oportunidades e experiências, desafiando as narrativas patriarcais tradicionais.
Matsuda sempre teve interesse por histórias de fantasmas, mas ao longo do tempo percebeu que, nelas, as mulheres frequentemente ocupavam papéis de sofrimento para impulsionar tramas centradas em homens. Em Onde Vivem as Monstras, ela subverte essa dinâmica, oferecendo às personagens femininas — muitas vezes fantasmas — agência e protagonismo, explorando temas como desigualdade de gênero, expectativas sociais e liberdade pessoal.
Além de sua ficção, Matsuda é conhecida por seus ensaios críticos à sociedade patriarcal japonesa. Em entrevistas, ela expressa o desejo de que sua escrita funcione como “pequenas pedras” deixadas para trás, contribuindo para mudanças sociais significativas ao desafiar normas e estruturas opressivas .
Seu primeiro romance, Jizoku kanō na tamashii no riyō (The Sustainable Use of Our Souls), lançado em 2020, apresenta um cenário distópico onde todos os homens de meia-idade desaparecem, permitindo que as mulheres confrontem e superem as limitações impostas por uma sociedade misógina.
A escrita de Matsuda, embora aparentemente simples, é marcada por um trabalho cuidadoso com o ritmo e a linguagem, surpreendendo os leitores e desafiando suas expectativas. Sua abordagem única e inventiva tem contribuído para ampliar o espaço das mulheres na literatura japonesa contemporânea, ao lado de autoras como Mieko Kawakami e Sayaka Murata.
Jessica Esa, da revista Metropolis, destaca que Matsuda transforma “tradicionais histórias de fantasmas japonesas em contos muitas vezes bem-humorados e dolorosamente relevantes”, elogiando o modo como a autora atualiza temas clássicos para refletir questões de gênero na sociedade japonesa atual, com “humor, mordacidade e pungência”.
Tina deBellegarde, em Books on Asia, observa que Matsuda subverte a figura do “espírito feminino vingativo”, típica do folclore, criando fantasmas femininos “fortes, independentes, desinibidos e frequentemente otimistas”, que ganham mais agência como espíritos do que tiveram em vida. Ela ressalta que a morte, nas histórias, liberta as personagens femininas, permitindo-lhes experimentar uma autonomia inédita.
A crítica do Reactor enfatiza o “timing cômico” de Matsuda e sua “crítica social mordaz”, apontando que suas protagonistas – mulheres vivas e mortas – são complexas, multifacetadas e fogem dos estereótipos de monstruosidade ou submissão. A New Welsh Review chama atenção para o modo como Matsuda “nunca descarta as histórias das mulheres”, aprofundando-se em suas experiências e explorando temas como assédio, padrões de comportamento e desigualdade de gênero. A crítica destaca a ironia presente na obra ao retratar uma sociedade em que “homens e mulheres são quase iguais – igualmente em desespero”.
































PROPOSTA
Bem, como na proposta anterior em que usamos Lendas Urbanas, nesta você vai precisar fazer uma certa pesquisa – ou mergulhar em suas memórias. A ideia agora, no entanto, é pesquisar mitologias ou mitos do folclore ou enredos orais extraídos de alguma religião ou do imaginário sobrenatural do além que se perde na bruma dos tempos.
Ou seja, pegar como mote um determinado enredo de outro mundo e recontextualizá-lo ou reimaginá-lo acontecendo aqui agora em 2025 em sua cidade.
Vejam o que fiz depois de algumas conversas com meu DeepSeek. Primeiro pedi que ele pesquisasse e escrevesse um mito específico, “Exu e o Mercado das Almas”, em algumas linhas.
Exu abriu um mercado no cruzamento entre o Orum e o Ayê, onde vendia destinos em forma de frutas. Ogum comprou uma jaca (símbolo de guerra), Oxum escolheu um cacho de uvas (amor), e Xangô levou uma pimenta (justiça). Exu avisou: “Cuidado com o caroço!” Mas os orixás ignoraram. Ao morderem as frutas, engasgaram-se com os caroços, que eram sementes de conflito. A guerra de Ogum virou massacre, o amor de Oxum tornou-se obsessão, e a justiça de Xangô transformou-se em tirania. Arrependidos, pagaram Exu com cantigas e oferendas para remover os caroços. Exu riu: “Tudo tem dois lados. Até eu.” Desde então, os humanos oferecem a Exu mel e água para adoçar os caminhos.
Fonte: Inspirado em contos bantu recolhidos por Nei Lopes em Kitábu: O Livro do Saber e do Espírito Negro-Africanos” (2005)
Em seguida, pedi que ele transportasse esse mito para o século 21, dando algumas sugestões de como ficariam os personagens e as situações. Ele me devolveu:

Francisco e sua Loja de Eletrônicos
Cenário: Um sobrado antigo virou a LabX, loja de eletrônicos com fachada neon e placas com hologramas. A loja fica entre um food truck de acarajé e um escritório que trafica criptomoedas.
Personagens:
- Francisco (Exu): Dono da loja, veste casaco vermelho e preto, tem piercing no lábio e fala usando enigmas
- Paulo (Ogum): Ex-militar, trabalha como segurança de um condomínio de luxo
- Maria (Oxum): Influencer de moda e marketing digital, obcecada por números de engajamento
- Raquel (Xangô): Advogada corporativa, famosa por processos implacáveis contra funcionários problemáticos
A Narrativa Recontextualizada:
Na LabX, Francisco oferece gadgets que supostamente mudam destinos. Tem três produtos em promoção:
- Headset Gamer Tempestade (para Paulo): Promete “visão estratégica em tempo real”, com software de simulação de batalhas
- Smartwatch Coração Algoritmo (para Maria): IA que otimiza posts virais analisando emoções alheias
- Câmera de Segurança Olho da Lei (para Raquel): Reconhece “comportamentos suspeitos” usando dados biométricos
O aviso de Francisco ao vender seus gadgets:
— “Cuidado com o modo desenvolvedor nos códigos. Não mexam se não entenderem!”
Consequências:
- Paulo usa o headset para treinar seguranças, mas o software hackeia sistemas da prefeitura, causando blecautes em protestos. Manifestações viraram guerras urbanas
- Maria se torna refém do smartwatch: sua IA cria um perfil fake que sabota rivais, transformando seu amor por likes em chantagem
- Raquel processa inocentes com base em falsos dados biométricos da câmera, demitindo até um pai de família que tem um mero tique nervoso
Retorno à LabX:
Arrependidos, os três clientes voltam à loja. Francisco, rindo, exibe as linhas de código escondidas (os “caroços” do mito original):
— “Vocês compraram facilidade, não perguntaram o preço. Toda tecnologia tem dois lados: o que resolve e o que aprisiona.”
Para consertar, exige:
- Paulo deve doar o headset para um coletivo de cybersecurity de favelas;
- Maria precisa postar um vídeo confessando seus algoritmos manipulativos;
- Raquel tem que defender gratuitamente os que prejudicou.
No final, Francisco atualiza os gadgets com open source e dá a eles um pen-drive com mel e café (simbolizando “adoçar” e “despertar”). Despede-se do trio dizendo:
— “Nem eu controlo tudo. Até o Wi-Fi tem dono.”
Outro mito: Oxumaré e a Serpente que Sustenta o Mundo
Oxumaré, a serpente arco-íris, foi incumbida por Olodumare de carregar o sol e a lua nos ombros, garantindo o ciclo do dia e da noite. Cansada, ela reclamou: “Por que só eu trabalho enquanto os outros orixás descansam?” Exu, então, tramou uma cilada: fez Oxumaré engolir o próprio rabo, prendendo-a em um círculo eterno. Na angústia, ela ouviu Nanã Buruku, que sussurrou: “O movimento é a tua essência. Sem ele, o mundo desaba.” Oxumaré aceitou seu papel, e seu corpo tornou-se a ponte entre o céu e a terra. Por isso, ela é dual: macho e fêmea, chuva e seca, símbolo da transformação contínua.
Depois de 15 prompts:
Redonda mas não parada
No aquário redondo, Odara gira. Bolhas formam palavras no vidro embaçado:
— O sol dorme no mesmo céu, Letícia.
Dona Nara, na poltrona, repete:
— No mesmo céu, Zé.
Zé. Nome morto. Letícia cospe no café instantâneo. Por que não me esquece, vó? Pensa, mas limpa a baba da avó com a manga do roupão.
Na TV, Vale Tudo repete: a mocinha grávida foge do cafetão. Corre em círculos pela estação de trem. Letícia ri. Corro mais que ela, pensa, olhando o córrego lá embaixo. Água parada, cheia de garrafa.
Vicente sobe as escadas. A camisa do Corinthians colada no peito. Entrega um colar de miçangas.
— Achado no lixo. Combina com você.
Letícia joga no chão. Dona Nara pega.
— Era da Elke! — grita. Elke Maravilha morreu de AIDS em 94.
Odara ri. Bolhas:
— O lixo de um é o tesouro do outro.
— Tesouro, Zé! — Dona Nara balança o colar.
Vicente fica. Olha o aquário.
— Peixe fala?
— Só merda.
Ele ri. A mão encosta na dela ao pegar a Brahma. Letícia sente o calo do guidão. Queria ser o guidão, pensa, e se assusta.
À tarde, a torneira arrebenta. Água marrom inunda o chão. Vicente tampa com um chinelo. A água jorra. Molha a foto do Corinthians. O rosto do jogador derrete.
— Time de merda — ele diz, rindo.
Letícia ri. Odara cospe:
— Água parada apodrece. Água que corre arrasta.
Na novela, a mocinha cai nos trilhos. O trem passa. Ela sobrevive. Letícia pensa: Queria ser trem.
Na padaria, Letícia ajusta o lenço de seda no pescoço. Vermelho, igual ao batom. Seu Ademir rosna, os olhos grudados no decote:
— Traveco não é gente.
Ela estende a mão, unhas pintadas de vinho.
— Dois miojos, seu Ademir. E um brigadeiro. Para o senhor — sorri, doce.
O homem pega o dinheiro com nojo. Letícia abre a bolsa de couro falsificado. Tira um cartão de visita bordado: “Letícia Silva – Designer de Unhas. Faço na sua casa.” Deixa em cima do balcão, ao lado do brigadeiro.
— Gente é quem paga suas contas — sussurra, saindo com o salto batendo no azulejo quebrado.
Odara, no aquário, cospe uma bolha perfeita:
— A faca mais afiada não faz barulho.
Noite. Vicente volta. Traz um pão de queijo murcho.
— Pra você… e pra velha.
Letícia morde. Sabe meu nome, pensa. Odara sussurra:
— O pão cresce mesmo no forno quebrado.
Dona Nara dorme. Na TV, a mocinha da novela amamenta o filho na cadeia. Letícia pinta as unhas de vermelho. Vicente olha.
— Fica bonito.
Ela cora. Guidão, pensa.
Madrugada. Crianças brincam na rua. Derramam gasolina da moto roubada. Pulam. A menor cai. O fogo sobe rápido. Gritos. Letícia abre a janela. Quer gritar. Fecha.
Odara murmura:
— O fogo que queima é o mesmo que cozinha.
Dona Nara ronca:
— Cozinha, Zé.
Letícia deita. Sente o cheiro de gasolina e pão de queijo. Redonda, mas não parada, repete, até dormir.
Os contos dos robôs são meio toscos, meio duros, mas podem fornecer uma boa estrutura para se desenvolva sobre eles linguagem, criação de personagem, de cenas, descrições etc. Dá pra perceber que é possível transpor um universo para outro.
Mas é claro que você vai fazer isso com muito mais sutileza e criatividade. Se quiser, use as ferramentas DeepSeek, Claude, Perplexity, ChatGPT ou Grok, à sua escolha. Seja para pesquisar os mitos, seja para inventar uma cena que você vai usar pra criar em cima.
A IA é uma ferramenta a ser usada para destravar o fluxo da narrativa. Mas a concepção da história é sua. O que Aoko Matsuda fez com os prompts retirados das lendas japonesas? Escolheu-os cuidadosamente para passar uma mensagem – grosso modo, sua crítica ao patriarcado nipônico. Distorceu todas as lendas para encaixar mulheres como protagonistas quando antes eram coadjuvantes ou figurantes. Ou seja, adaptou os prompts ao seu projeto literário. É o mesmo que você vai fazer.
Escreva em qualquer pessoa, em uns 10 mil toques.
