O quintal

por Américo Paim

No quintal, desde a cozinha até o portão de madeira que dava para o rio, uma trilha serpenteava entre árvores e arbustos insólitos. De caules diferentes, como que entalhados, a folhas e flores de diversos tons em um mesmo pé de planta, convivendo com frutas de formatos e cores peculiares. Ninguém explicaria, até porque poucos viam. Os muros eram altos. A dona da casa sempre discreta. O povo de Pedra Velha falava dela, sem saber sua história, e dizia de uma maldição. Parecia, como outras coisas na cidade, que a mulher apenas surgiu ali. Mesmo assim, por medo ou respeito, as pessoas a deixavam em paz. Quase não saía, só para compras rápidas. Não era vista em igreja, farmácia, escola, nada disso. Ou estava dentro da casa silenciosa, ou no quintal, esse cheio de sons.

Ela era jovem, esguia, de postura elegante, cabelos negros e lisos, presos com cuidado. Usava saias longas e mangas curtas. A pele era bem clara, sem marcas. Magra, porém, longe de ser fraca. Nem se sabia seu nome. Um dia, porque alguém viu uma árvore crescer de repente, com folhas e flores coloridas, por cima da murada, batizaram a mulher de Dona Arco-íris e isso se espalhou. Os moleques não pulavam para o quintal porque à mera aproximação do topo da murada, a pessoa ficava sem forças, passava mal, inexplicável. A casa só tinha como vizinhos um grande descampado e uma casa de dois andares, com boa conservação, mas desabitada.

Tudo mudou quando a casa vizinha foi comprada por Joaquim. Escritor com trinta e poucos, barba rala, roupas escuras e uma barriga discreta. Seu hábito era escrever após o meio-dia, às vezes entrando pela madrugada. Fazia dinheiro com contos policiais e de suspense. Veio a Pedra Velha porque soube das histórias impossíveis da cidade. Após seis meses de pequenas reformas, mudou-se para a casa. No início, em fase muito criativa, mal via o mundo à sua volta, mas em poucas semanas veio um bloqueio. Tentou de tudo, sem sucesso. Analisou o que causava isso e concluiu, sem dúvidas: as crianças.

Por todo o dia ele ouvia cantos e gritos no quintal da casa vizinha. Crianças sendo crianças, pensou no início, só que passou a incomodar. A bagunça infantil rendia, só parando à meia-noite. Produção caiu, rotina de sono mudou, os resultados pioraram. Ele trabalhava no térreo e dormia no andar superior. Do seu quarto dava para ver o quintal. Por causa das árvores, só via bem um ipê amarelo, em destaque, do outro lado do quintal e uma janela grande, do que parecia ser a cozinha da casa. Ali, muitas vezes, aparecia a mulher misteriosa de quem tanto se falava. No começo ele a cumprimentava e ela sacudia a cabeça ou mostrava um sorriso tímido. Em uma sexta-feira, o prazo do novo livro chegando, perdeu a paciência e foi reclamar.

Saiu de casa batendo a porta com energia. Andou pela calçada tosca, resmungando palavrões. Diante da casa vizinha, abriu o portão, seguiu a curta trilha de lajotas, subiu os degraus até a varanda. Bateu forte várias vezes na porta de madeira resistente. Ela demorou a atender. Mal cumprimentando a mulher, falou duro sobre o barulho das crianças. Ela o observou, atenta e muda. Seu rosto não entregava, mas era amoroso. Em meio à raiva, ela lhe ofereceu café e bolo. Ele ignorou grosseiro e saiu mais irritado ainda.

A situação perdurou. Ele agora gritava da sua varanda no primeiro andar, várias vezes ao dia, entre indignado e raivoso. Ela ia à janela sempre sorrindo. Um dia, mostrando um bolo, acenou que ele fosse até lá. Cansado das próprias reclamações sem efeito prático, ele foi. Era uma quarta-feira, seis da tarde.

– Eu vim aqui como último recurso! – disse ele, sem arrodeio.

– Que bom que veio, Joaquim!

– A senhora precisa controlar suas crianças! E como sabe meu nome?

– Tenho seus livros. Gosto demais – ela falou, gentil.

– O que vai fazer, afinal? – ele respondeu, ignorando a delicadeza.

– Entre e sente-se. Acabei de passar um café.

– Eu não quero nada disso. Quero providências!

– Fique calmo. Vamos conversar.

O tom de voz da moça parecia hipnose e logo ele sossegou. Na acanhada sala de estar, de sofá e duas poltronas simples, sentou-se em uma delas, frente a uma janela ampla. Havia um aroma de jasmim e quadros com pinturas de árvores, com certeza feitas por crianças. Olhava um deles e ela o interrompeu.

– Qual a sua árvore preferida?

– Hein? Olhe, não vim aqui para isso.

– Talvez seja uma não frutífera. Ipê?

– A senhora está me escutando?

– Prove esse bolo – disse ela, lhe entregando um prato.

Ela era atenciosa, mas a raiva dele seguia. Ele falou do prazo, da falta de concentração. Ela olhava doce, como se o conhecesse há muito tempo. Havia nela uma paz estranha, fora de lugar. Ele argumentava, ela só lhe falava da natureza, das árvores, do destino. Café e bolo deliciosos e ele enfim se acalmou. Nunca havia comido nada tão bom. Ela contou se chamar Hortênsia. O apelido de Dona Arco-íris não lhe dizia nada ou incomodava. Contou-lhe do quanto o admirava, de como queria há muito que ele viesse à casa dela. Passou um bom tempo falando de passagens dos seus livros e como haviam ficado em seu coração. Ele ouvia a tudo incrédulo, incapaz de interrompê-la. Algo o impedia. Horas passadas, ela disse-lhe que seu próximo livro seria especial. Ele retrucou que não havia como ela saber e por causa de tudo aquilo, pelo visto o livro nem existiria. A noite avançada e só então ele se deu conta de que não ouviu um só som de criança enquanto estava naquela sala. Como se explicaria aquilo?

– Quero ver as crianças – falou rude.

– Está muito tarde.

– Estão dormindo? Não ouço nada.

– Não é bem isso.

– Eu insisto. Por que não ouço o barulho que me enlouquece?

– Acho melhor conversarmos sobre isso outro dia.

– Não concordo. Quero tirar a limpo.

– Melhor que vá para sua casa – ela falou em um tom estranho.

Ele não aceitou. Levantou-se rápido e correu na direção do quintal. Ela mudou a expressão no rosto para satisfação e o seguiu. O quintal estava escuro, mas ele se aventurou pela trilha sinuosa, gritando para crianças que nem via, que saíssem de onde estivessem se escondendo. Chegou ao portão. Desapontado, retornou, encontrando Hortênsia de pé à porta da cozinha, com três meninos e três meninas em volta dela. Ele se aproximou. Queria vê-los melhor, seus traços. Pareciam todos com a mesma idade, cabelos negros desgrenhados, a pele muito clara, de um branco indefinível. Estavam sujos e suados, como saídos de alguma brincadeira. Não sorriam. Não se via seus dentes. O que mais lhe chamou atenção, porém, foram os olho, cor de mel, de brilho bem discreto. Em todos era o mesmo tom. Lhes perguntou os nomes e recebeu silêncio. Aos pés deles, pincéis, tintas, lápis, talhas e outros itens. As cores eram incontáveis. Ela então lhe disse, com a mesma voz doce com que se apresentou na sala, que eles gostavam de brincar com aquilo todo o tempo. Então lhe disse que se voltasse para o quintal. Ia lhe mostrar algo. Ele obedeceu. Em instantes, vindas do nada, luzes iluminaram tudo e ele contemplou inúmeras plantas multicoloridas, como se saíssem de uma caixa de lápis de cor. Brancas, azuis, amarelas, vermelhas, verdes, todas as cores em folhas, flores, frutos e caules. Ela então lhe disse:

– Eles as pintaram.

– Como assim?

– Usam suas cores preferidas, a cada dia.

– Quer me dizer que isso muda?

– Sim, as pessoas não são assim?

– Não estou entendendo.

– É como nos conectamos. E é só aqui nesse solo que isso acontecerá.

– Pode ser mais clara?

– Essas árvores são suas casas.

– Gostam tanto delas assim?

– Você não entendeu. São suas moradas. As últimas.

– Que conversa é essa?

– Está quase na hora, observe – ela apontou para as árvores, com um gesto gracioso.

Entre petrificado e em pânico ele viu as crianças se moverem, cada uma delas para uma árvore diferente. Paradas defronte aos caules, viraram-se para Hortênsia, que lhes disse:

– Até amanhã, meus amores.

Uma luz delicada e uma nuvem suave saíram de cada uma das fendas estranhas talhadas nos caules e as crianças entraram flutuando, em meio a um brilho fraco, cor de âmbar, como os dos seus olhos de seiva. Logo todos sumiram dentro das árvores, como engolidos, de forma lenta. Nenhum som foi emitido. Ao fim do silêncio, veio um vento frio, breve o suficiente apenas para ser percebido, e as árvores voltaram às cores originais, folhas em vários tons de verde. Certo de ter alucinado, Joaquim virou-se para ela e perguntou:

– Que truque é esse? O que tinha naquele café? Ou foi o bolo?

– Eles são como flores especiais. Vivem por poucas horas, todos os dias.

– Essa conversa não está legal. Bem que me disseram que isso aqui era amaldiçoado.

– Alguém que amei há muito tempo me deixou esperando. Por ele e por um filho dele.

– É o quê?

– Nunca voltou. E meu filho só viveu da primeira hora do amanhecer até a meia-noite.

– Olhe, o escritor aqui sou eu – disse ele, entre deboche e nervoso.

– Uma feiticeira, com quem ele foi embora, me lançou essa sina.

– Hein?

– A cada ano uma pessoa que eu amasse entraria nesse quintal e seguiria esse destino.

– Como é?

– Procurei por crianças para o lugar do meu filho por cinco anos.

– Você não deveria ter feito isso.

– Eu mudei esse ano. Não será mais uma criança.

Foram as últimas palavras que Joaquim ouviu. Antes que respondesse, foi envolvido na tal névoa. Fechou os olhos. Ao abrir de novo, entendeu ainda estar no quintal. Não via mais Hortênsia ou seu próprio corpo. Para onde olhasse, só via árvores. Até que focou melhor e reconheceu algo: a varanda do quarto da sua casa, a antiga. Seus olhos de âmbar podiam avistá-la da sua nova casa, o ipê amarelo. Enfim o silêncio.

Deixe um comentário