O Velho do Saco – Yan

Zeca Cantinho era na verdade o senhor josé carlos de alguma coisa. Na infância foi muito levado e o avô lhe gritava:
“Vem cá, ao cantinho. Ou te comportas ou chamo O Velho do Saco”.

O medo que o nome lhe causava o fez tão obediente a ponto de chegar da escola e já se colocar no encontro de duas paredes do armazém do avô. Virou funcionário público exemplar, constituiu família, foi aposentado compulsoriamente e enterrou a esposa. Seus filhos cresceram bem comportados, conseguiram a nacionalidade do bisavô e foram morar em portugal. Mandavam fotos das crianças, vinhos e sapatos de couro de bico fino todo natal. Num dia de finados ele se barbeou, calçou os sapatos e foi visitar o túmulo da esposa. Antes de chegar à saída do cemitério, um menino levemente familiar o encontrou e o seguiu até sua casa.
Ele enxotou o perseguidor, trancou a porta e tomou banho. Quando voltou para a sala de roupão encontrou o garoto espremido entre o sofá e a cristaleira, de pé e de costas para ele. Chamou a polícia, o juizado de menores e os bombeiros, mas o pestinha sumia sempre que tocavam a campainha. E depois voltava ao cantinho, e chorava:
“Tenho frio. As paredes estão muito frias”.
O senhor josé carlos de alguma coisa se despiu e ofereceu o roupão, que não foi aceito. Passou a sair todos os dias para brechós e voltar com casaquinhos e toucas de lã e nada do menino querer vestir. Foi ficando abatido, reumático, começou a mancar de uma perna e a não cortar os cabelos nem fazer a barba. Resolveu dar um basta naquela loucura, manquitolou até  o canto da sala e gritou:
“Mas qual é o inferno que você quer vestir, pelo amor de deus?”.
A voz do menino ecoou da quina das paredes:
“Um saco de lona bem grosso, daqueles de carregar castanhas, que tem no armazém do meu avô”.
Ele foi a um atacadão, voltou com o saco e o mostrou para o menino, que de repente foi tomado de uma energia de mosca-varejeira, saiu correndo pela porta e zuniu:

“Ninguém pega o Zeca, seu cara de meleca”.
Foi alcançá-lo numa rua de casas pobres onde se ouviam mães gritando com suas malcriadas crias. O menino se misturou entre várias crianças, e só então o senhor josé carlos de alguma coisa percebeu que suas roupas eram muito diferentes da roupa das outras crianças e muito parecidas com a roupa de sua própria infância. Enfurecido com a malcriação, perseguiu uma nuvem de meninos, puxou pelo pé o que parecia ser o seu e saiu andando com o saco nas costas. Chegou em casa, deu uma bicuda de bico fino no saco para cessar os gritos, e dormiu. E no sonho o menino apareceu para ele e disse: “Ainda estou com frio. Me coloque no forno”.
Ele se levantou, abriu o saco, enfiou o corpinho com roupas diferentes das de sua infância no forno, apertou o acendedor elétrico, e dormiu.
E no sonho o menino apareceu para ele e disse: “Ainda estou com frio. Me coloque na sua barriga”.
Ele se levantou, abriu o forno, fatiou e devorou tudo sem vontade, feito os jilós de sua infância, e dormiu. Acordou no dia seguinte de bom humor, com urgência de se barbear. No caminho para o banheiro, viu o menino de pé, de costas pra ele, espremido entre o sofá e a cristaleira. O menino disse:
“Tenho frio. As paredes estão muito frias”.
Então O Velho pegou o saco vazio e saiu manquitolando pela rua.

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