Quatro propostas

 Jarra com bacia

A vizinha me convidou para conhecer o apartamento. Até então, tínhamos nos visto três vezes e a primeira foi quando recolhi a mão ao vê-la apertar o sete.
            – Então é você?

             – Como? –  me assustei feito o sagui ladrão que costumava invadir as cozinhas do condomínio.

 Ela me pediu desculpas, disse que se chamava Aurélia e, sem mais ,  solicitou um documento assinado por engenheiro ou arquiteto expondo os detalhes da reforma. Aurélia era a síndica.

            Na semana seguinte, quando fui entregar o documento, tivemos o segundo encontro. Toquei a campainha e ela me atendeu pelo espaço apertado que o fecho de correntinha permitia. Franziu os olhos, disse boa tarde e pinçou o papel com o polegar e o indicador. Ao fechar a porta, o até logo se misturou ao latido de um cachorro.

            No dia seguinte, nos vimos na minha sala. Aurélia, feito uma arquiteta,  detalhava a Damião o que deveria ou não fazer.  As mãos nos bolsos da calça  estavam escondidas por um camisão branco.

             Assim que entrei, o empreiteiro me enviou um olhar alongado e aborrecido. Aurélia, sem constrangimento,  estava dentro da minha  casa, dando palpites na obra.

      – Fui secretária numa construtora. Entendo mais que muito engenheiro. –  enquanto explicava, se aproximou e encostou a bochecha direita na minha. Um arremedo de beijo.

– Derrubar a parede entre a sala e a cozinha vai ser ruim para a acústica – ela me  repetiu o que já havia dito mais de uma vez ao Damião.

 Fingi interesse, agradeci e disse que ia pensar na ideia. Queria mesmo era encerrar a visita.  No seu apartamento, só entrei dois meses depois, na semana seguinte à mudança.

             – Cássia! Como você está bonita. Seja bem-vinda – ela repetiu o quase beijo de bochechas de dois meses atrás. Daí curvou o corpo para o lado esquerdo e alongou o braço para me mostrar o caminho.

             – Sua sala é aconchegante e clara . – eu mesma fiquei espantada com meu comentário. Saiu espontâneo,  efeito da luminosidade.

            Aurélia  gostou do que eu disse, abriu um sorriso e me contou que daquele lado nascia o sol.  Eu já sabia. Quem não sabia? O meu apartamento, de frente, ficava na face oposta e tinha vista para a avenida e uns fragmentos do pôr do sol. Quando ia dobrar o corpo para tirar os tênis, ela me impediu.

                – Que é isso? Não precisa. Entre assim mesmo. Sabe que tenho um par igual?

Com a obra terminada, Aurélia buscava uma intimidade, que eu não tinha vontade de permitir. Por que tinha me convidado?

            Nem esperou uma resposta sobre a coincidência dos tênis, puxou minha mão direita e me levou até a janela ampla feito a minha. A diferença é que a dela se abria para uma vista rara de São Paulo e nenhum prédio próximo bloqueava a paisagem até a Serra da Cantareira.

-Tá vendo? – ela apontou. – Ali é o Pico do Jaraguá. Reconhece?

– Claro! Que maravilha!  – fingi contentamento.  Chegando aos oitenta e com toda aquela paisagem , Aurélia, mulher saudável, viveria o resto de seus  dias por ali. Por um tempo além do desejado, ela seria a minha vizinha.  Tentei espantar o pensamento cruel enquanto observava os quintais e jardins das casas, os prédios diminuídos pela distância, o contorno da serra, o céu sem nuvens do inverno e as manchas da idade nas suas mãos.

                Recomposta do desencanto, afastei meu corpo do parapeito e me virei para a sala. Um cachorro  saiu da entrada do corredor e tentou nos alcançar. O dachshund de pelo marrom avermelhado usava um colar elizabetano e arrastava as patas traseiras.

– Esse é o Bill.

– Oi, Bill! – foi o que pude dizer.

O cachorro respondeu com três latidos e se arrastou de volta para a entrada do corredor. Enquanto acompanhava seus movimentos, vi um homem quase da altura dos batentes, de pele acinzentada e meio curvado de magreza erguê-lo do chão e sumir na parte escura da casa. Ao me contar que era seu filho, Aurélia se esforçou em parecer natural. Ela não esperava por ele, pediu licença e me disse que voltava logo. Cheguei a ver os quartos fechados antes de ela encostar a porta que entendi separar dois mundos.

Voltei à janela e fiz fotos da vista por vários ângulos. Aurélia mantinha as cortinas brancas de voal presas por um cinturão de cetim no mesmo dourado das almofadas sobre o sofá. O móvel de três lugares, forrado por um tecido de flores miúdas, tinha braços e pés de madeira que lembravam uma peça colonial. A sala toda parecia uma sala de fazenda.

            Na entrada, na parede à direita, um bufê escuro sustentava uma luminária de vitral colorido com a base num tom ouro velho. No lado oposto, um oratório sem santo exibia um buquezinho de flores secas. Ao centro, uma jarra azul e branca dentro de uma bacia sobre uma toalha de crochê com franja. Na parede, um espelho de cristal com moldura rococó.

            Diante do móvel pesado, estava a mesa de jantar na mesma madeira escura do bufê. Ao redor, seis cadeiras onde caberiam oito. Todas de espaldar alto com o forro azul de veludo gasto. No chão, nenhum tapete. As gavetas e as portas do móvel tinham fechaduras sem chave. Deu vontade de fotografar, mas guardei o celular e me aproximei do espelho.

 A visita

Quando de novo eu me perguntava por que Aurélia teria me convidado, ouvi o trinco da porta. Poderia permanecer ali, me virar para a entrada e me apresentar a quem quer que estivesse chegando.  No entanto, por instinto, escolhi me proteger sob a mesa. A falta de duas cadeiras dava espaço para o meu corpo mediano.

Do meu lugar no chão acompanhei as botinas darem a volta no móvel e reconheci você diante do espelho. Não acreditei. Deixou as chaves da porta sobre o tampo e apoiou as duas mãos na madeira. Você na casa que eu mal conhecia. Você com a camisa fora da calça, ofegante e mirando os próprios olhos. O cristal chegou a embaçar com a aproximação do seu rosto. A mesma barba escura e aparada. De onde eu estava, você, o Valdívio Grandão ficava ainda maior.

Minha respiração acelerou no ritmo da sua. Que iria dizer se me percebesse escondida sob a mesa ? Por que Aurélia me convidou e o que fazíamos ali?  O que fazíamos, não. O que você fazia? Até então eu atendia ao convite da minha nova vizinha.

Vi quando você soltou a mão direita do móvel e buscou no bolso da camisa os óculos e o celular. Leu e respondeu uma mensagem e voltou a guardá-los. Você tinha pressa, parecia atrasado.

Do outro mundo, depois da porta do corredor, Aurélia, o filho e o cachorro não faziam qualquer ruído. Tive a impressão de que eu estava no chão do apartamento há mais de uma semana. Que eu era um alfinete perdido no vão dos tacos. Por que Aurélia me convidou e me esqueceu? E , de novo, o que você, Valdívio, fazia ali?  

            Colocou sua mochila na minha direção e quando se abaixou para abrir, fechei meus olhos como se deixar de ver você, faria você não me ver. Erro meu. Não por que você tenha me visto, é obvio, estou agora te contando, mas por que não pude saber o que tirou de dentro.

 Assim que me coloquei em risco ao abrir um dos olhos para ver o que fazia, só encontrei o zíper da mochila aberta até a base de borracha e pude ver a lateral de uma sacola de papelão da Renner. Não de quem tinha comprado roupas há pouco, mas de quem pegou em casa a primeira embalagem que viu na frente.

Ajeitei meu corpo uns centímetros para a esquerda, apoiei minha cabeça no braço e encontrei uma posição para ver que você lutava para fechar o colar elizabetano sobre o macacão vermelho. Valdívio! Você estava fantasiado de cachorro. Você era a versão humana do Bill que há pouco eu tinha conhecido. Não pude acreditar. A calça jeans com cinto, a camisa de listras estavam dobradas e você colocou  tudo de novo na mochila, fechou o zíper e foi bater na porta do corredor que separava os mundos.

Aurélia não demorou para abrir, aproximou o rosto do acessório de plástico no seu pescoço e fingiu outros dos seus beijos. Depois, olhou por toda a sala e perguntou:

– Não tinha alguém por aqui?

– Ninguém. – você respondeu e quase empurrei as cadeiras para me revelar de uma vez e descobrir o que fazia. Ahhhh! Você e Aurélia iam se surpreender. O filho mais o cachorro iam sair do esconderijo. Uma cena de suspense. Como você pode observar, não fiz. Preferi assistir o que viria depois.

Aurélia contou que estive ali, mas que devia ter voltado para meu apartamento por conta da demora em voltar para a sala. Que eu morava logo em frente e que soube que você me conhecia quando te viu pelo olho mágico entrar em casa no jantar de inauguração.  Agora me lembro. Você me elogiou por ter conservado a parede entre a sala e a cozinha.  Você conhecia Aurélia e as irritações de Irineu.  Pelo fosso interno no prédio, os ruídos na minha sala ampliada chegariam altos à casa dela. Seria um transtorno. Parabéns por não derrubar a parede, você repetiu. Quando comprei o imóvel, mal sabia que Irineu não suportava qualquer ruído ou festa nos vizinhos.

               Não podia imaginar que eram conhecidos e, muito menos, que você prestava serviços de toda espécie para atender às fantasias do filho de Aurélia. Às vezes, ele ficava violento. Bill, o cãozinho arrastava as patas porque levou um chute de Irineu.

Você era o outro cãozinho dele. Devia estar no apartamento de Aurélia no dia em que entreguei os documentos e ela não me abriu a porta. Você e Irineu ocupados com alguma diversão.

 Não vi, mas ouvi quando ela disse que depois falaria comigo e que iria se trancar no quarto para deixá-los à vontade. Devia ter desconfiado quando você insistiu que eu comprasse esse e não o apartamento a três quadras do meu trabalho. Você me convenceu e agora eu entendo. Ia facilitar seu trabalho.

 Vi quando você e Aurélia passaram a porta para o outro mundo. Saí de baixo da mesa sem encostar nas cadeiras. A mochila estava no chão e as botinas lado a lado .  Abri a porta sem chave do bufê e escondi tudo .  Você não viu. Era essa a intenção. Nem sei o que pensou. Na certa, estava com pressa.  Três horas mais tarde, foi curioso ver você da minha janela atravessando a rua vestido de cachorro. O colar elizabetano na mão.

Conselhos de Bento

Uma hora depois que Valdívio saiu, encontrei a mochila dentro do bufê. Cheirei todas a roupas e a cava da camisa misturava o perfume de desodorante com suor, mais suor que desodorante. Uma delícia. Era como se ele estivesse de novo aqui. Busquei também cheirar as calças, queria mais, mas o jeans estava limpo e tinha ainda o perfume ardido do sabão em pó. O cinto de couro rachado e gasto conservava um odor animal. Acho que todo couro é assim. As botinas guardavam as meias grossas e não tinham mau cheiro.  Esfreguei as duas no nariz, elas misturavam a mesma essência do couro do cinto somado à pele de Valdívio.    

Foi Bento que soprou no meu ouvido que devia procurá-lo para devolver as roupas. Peguei a mochila e desci para a rua. Bento me garantiu que Valdívio morava há umas duas quadras de casa. Ele foi comigo, me disse para atravessar a avenida e continuar subindo até a primeira travessa para a praça dos cachorros.  Vestido de dashshund ele bem poderia estar por lá. Bento errou e isso me deixou irritado.

No cercado para os cães, três labradores, um vira-latas, um Golden e dois shih-tzus de latido agudo. Nada de Valdívio com o macacão marrom e o colar elizabetano.  Ali mesmo, no meio dos bichos, começamos a discutir.  Bento me garantia que íamos encontrar Valdívio, mas antes eu devia atirar pedras nos cães. Ele me indicou a esquina onde a prefeitura estava refazendo a calçada. Fui até lá, enchi meus bolsos, mais os bolsos da mochila com cacos do revestimento e voltei até os cachorros. O vira-lata rosnou para mim e Bento mandou começar por ele. Vai! Atira com força no cão sem dono, ele berrava na minha cabeça.

Atirei três pedras e ele saiu ganindo. Parecia fêmea. Pulou o cercadinho de bambu e correu para a rua. Os passeadores e os donos gritaram comigo.  Então, Bento me mandou xingar, berrar todas as ofensas que conheço e junto atirar pedras, mais pedras naquelas pessoas estranhas. Um deles me filmava, outro me mandava parar e outro dizia que ia chamar a polícia.  Enfia o telefone e a polícia no cu, o Bento mandou eu dizer e me fez fugir para as ruas onde ficava o conjunto habitacional. Vamos para os predinhos, o Valdívio mora lá, ele me garantiu.

Desci correndo pelas ladeiras. Bento me dizia corre mais, corre mais. Eles estão atrás de você. Todos os cachorros, todos os donos com pedras nos bolsos, os operários da obra, o pipoqueiro, a moça dos sanduíches de atum, o dono da Kombi do coco e os que vivem nas ruas carregando paus. Corri até não poder mais. Bento tinha razão. Todos eles me perseguiam. Vi um por um. Vi todos como um batalhão de soldados até a hora que pisei no buraco, dei mais dois passos à frente e bati meu rosto na lateral do poste. Que dor! Arranhei a bochecha e o nariz começou a sangrar. Bento gargalhava e todas as pessoas que me seguiam, sumiram numa espécie de tornado. Cadê eles? Cadê eles? Bento não me respondia. Cadê eles?, eu insisti mais uma vez e nada. Bento tinha sumido como os outros naquele círculo de vento.

 Acomodei a mochila do Valdívio no chão feito um travesseiro e, de longe, Bento reapareceu,  me acenou, me mandou deitar e sumiu. Ali mesmo na calçada comecei a chorar. Sou um velho louco que mora com a mãe, gritei em direção à praça. Ninguém me ouviu. Só o vira-lata sangrando da pedrada voltou e se deitou ao meu lado. Você não devia ter feito isso. Atirar a pedra?  perguntei.  Sair de casa, procurar Valdívio. Ele não gosta de você. Ele é só um profissional. Ganha dinheiro com qualquer coisa e namora a sua vizinha. Aquela puta que estava lá em casa? E ela é puta?,  ele me perguntou. Todas as mulheres são putas e você deve ser uma cadela vagabunda. Sai daqui, sai daqui! Chutei a cachorra, mas ela nem sentiu. Ficou ali me dizendo coisas até anoitecer. Não sou puta, não sou puta. Quando ele me disse isso, descobri que era uma fêmea e estava prenha. A pedra que atirei acertou sua barriga gorda.  Você é uma cadela sem dono, eu retrucava e ela respondia que não era, me mandava deixar as mulheres em paz. Deixe todas em paz. Esqueça as mulheres. Esqueça a vizinha.

 Dormi na rua e acordei em casa.  Antes do café, minha mãe trouxe os comprimidos.  Quando disse que não precisava dessas drogas, Bento reapareceu me dando ordens. Tome, tome, tome. Então, disse a minha mãe que só ia tomar porque era um pedido de Bento. Ela não gostou, mas acho que ficou aliviada quando sentei na beirada da cama e mandei pra baixo as duas pílulas redondas.  O café está na cozinha e tem uma surpresa na sala , ela me contou.

Bento, dessa vez, não me disse o que responder, mas sei que olhei para minha mãe com curiosidade, calcei os chinelos, fui ao banheiro e então para a sala. Sobre o tapete, Bill, com seu colar elizabetano e a cadela de rua aproveitavam um raio de sol.  Bento me sussurrou que trazer a cachorra prenha tinha sido ideia dele. E minha mãe não contestou? perguntei.  Quem falou com ela foi você, não se lembra?  Não me lembrava, mas me voltou a conversa de que devia esquecer Valdívio. Vou esquecer Valdívio, respondi a ele.   Toma o teu café, Bento disse na minha cabeça. Toma o teu café, ele repetiu.

Fui até a cozinha, fiz uma pequena bandeja com duas fatias de pão com manteiga, uma xícara de café preto e voltei para a sala. Nesta hora os dois cachorros tinham despertado, me sentei no sofá bem perto deles para acompanhar a conversa. Prestei muita atenção.  Os dois falavam sobre mim.

 Bill e Beleza

– E você? Por que fugiu? – Bill parecia interessado em conhecer a cadela sem raça.

– Naquela hora, se ficasse ele me matava – ela respondeu olhando para mim. Quis me intrometer e explicar que foi Bento quem mandou. Queria também saber seu nome, mas deixei os dois continuarem.

–  Irineu não ia chegar a tanto. Está vendo minhas patas? Ele só me machucou. Não sei de verdade se queria me matar. Ele tem destas coisas. Tento compreender. – Bill explicava aumentando a história.  O que aconteceu é que tinha dado só três chutes e de novo foi culpa do Bento, essa voz que me atormenta.

–  Foi ele? – a cadela olhou outra vez para mim.  – Achei que era doença. E o colar?  Para quê? – ela perguntou.

 –  Sem ele, arranco a roupa de compressão. A família não tem dinheiro para consertar o estrago que ficou na minha coluna. Vou usando até conseguirem  algum e me tratarem como se deve –  dessa vez a resposta de Bill tinha passado do limite e resolvi interferir:

                – Aqui ninguém é miserável não e você, cadelinha de rua, não vai acreditando no que ele diz. Você tem nome?

                 –  Gorda. As pessoas agora me chamam de Gorda. A barriga, sabe. Essa prenhez aqui que todo mundo vê. Antes, meu nome era Beleza – respondeu sem estranhar minha intromissão.  

                 –  Posso te chamar de Belê? – perguntei.

                – Não.  Me chame de Beleza.  Não gosto de Belê.  Quem me deu este nome era uma pessoa querida, mas morreu atropelada. Daí virei esta cadela sem dono, prenha e com apelido.

                – Que triste! – Bill entrou na conversa e perguntou o que eu queria também saber. – Quem era esta pessoa?

                –  Dora, uma mulher também de rua.

                – Atropelada?  Como foi? – eu perguntei.

                –  Um carro azul. Era um carro azul, guardei a cor porque ele passou três vezes. Dora estava dormindo. Eu também. O motorista era um moleque de boné e o passageiro outro moleque de boné. Eles encostaram na guia, abriram o vidro e gritaram vagabunda, vagabundos.  Vagabunda, vagabundos, vagabunda, vagabundos, vagabunda, vagabundos. Três vezes. Ninguém acordou.

–  Como não? Eu acordava fácil. – disse Bill.

 – É isso.  Só os cachorros ouviram. Eu fiquei em pé, lati e rosnei. Dora abriu os olhos quando eles já tinham virado a esquina. Não viu nada.

– Não foram embora?

– Achei que iam. É costume. Tem gente que vem sempre. Xingam, jogam mijo, jogam álcool, tentam por fogo e vão embora.  Estes voltaram, vieram com o carro pra cima. Pegaram a Dora, o Manuel e o Duda, o pai dos meus filhotes. Eu fiquei no meio das rodas. Quando deram ré, me dei conta de tudo.

– E a polícia? – eu perguntei.

– Chegou para cobrir os corpos e ficaram lá a manhã inteira.

Bill tinha esticado as patas da frente do jeito que melhor se acomodava. Eu me sentei no chão e acariciei o pelo duros e amarelos de Beleza.

– Estes homens têm que pagar.  Não li nenhuma notícia. Não deu na minha Internet.

– Pouca gente soube – Beleza respondeu.

– Que você fez depois?  

–  Iam me levar para adoção, mas os outros, o que sobraram, os cachorros e as pessoas estavam cuidando de mim. Na manhã que vi o Irineu, fugi de outra confusão no pedaço e fui dar um rolê na praça.  Sempre sobra uma comida boa dos cães de raça.  

 De novo acariciei os pelos sujos de Beleza. Ela virou a barriga gorda para mim e então pedi desculpas pelas três pedras. Disse também que ia limpar a ferida.

– Dei sorte de só pegar de raspão – ela respondeu.

– Você é muito mau – disse o Bill para mim.

– Foi o Bento.

Bill sabia que tinha sido a voz. Bill carrega na coluna machucada as lembranças de Bento. Já o conhece faz tempo, falou para provocar e eu mais uma vez repeti a resposta. Foi o Bento.  Então ele se aproximou de Beleza , o tanto que o colar elizabetano permitia e perguntou:

– Se ele te machucou, se ele te fez mal, por que você voltou à praça?

– Porque ele estava sozinho e Bento não estava.

– Como sabia que Bento não estava? – Bill perguntou e eu reforcei:

– Sim. Como sabia que Bento não estava?

– Do mesmo modo que sei que ele não está aqui agora.

– É mesmo! Cadê o Bento, Irineu?

–  Fecha essa boca, Bill. – Beleza repreendeu o cachorro com a intimidade de amigos que se conheciam há anos.

Bill obedeceu. Beleza tinha muito a ensinar.

– Então, Beleza, responde aí por que você voltou. – Bill retomou o rumo da conversa.

– Como já disse, Irineu estava sozinho, não é mesmo? – ela me perguntou, eu concordei e então ela continuou dizendo que eu precisava de ajuda.

– Sim. Estava perdido naquela praça com a mochila de Valdívio sem saber o que fazer – eu respondi.

Beleza então contou que Dora também tinha um Bento que lhe dizia coisas  e , vez ou outra, se perdia ainda mais pelas ruas. Beleza viu em mim, um substituto para Dora. Fiquei surpreso. Bill até se levantou.

– Beleza, a decisão de trazer você para casa foi só minha. Não foi do Bento. Não foi do Bento, eu repeti para me convencer.

Os dois cachorros se encostaram em mim. Cada um em uma perna. Tirei o colar de Bill ele nem arrancou a roupa. Então o coloquei no colo e segui para a cozinha.  Peguei uma guia para Beleza. Minha mãe não estava. Deixei um bilhete.

“ Mãe, diz para a vizinha que ela pode fazer festinhas com barulho e que vou deixar a mochila do Valdívio na portaria. Vou embora com ao cães. Vou para rua. Levar uma vida como a Dora. Bill, Beleza e eu. Prometo que não vamos ser atropelados e quando nascerem os cãezinhos, trago aqui pra conhecer.”



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