Roberto Efrem Filho
De primeiro, eu via só o facão na cintura de pai. O cabo do podão regulava a altura do meu ombro. Tava nós mais os morador do engenho de fronte à cerca da fazenda, cada qual com facão ou com enxada. Eu ouvi Seu Batista gritar que somava umas trezentas pessoa. Certeza eu não tenho porque num sei contar direito, não, senhor. Só aprendi número pequeno. Mas era muito morador, sim, hômi e mulher. Tinha mais gente do que em dia de feira em Gameleira. Isso eu sou capaz de provar porque nós foi um atrás do outro, dos sítio até a cerca. E era tanto morador que a fila cobriu o engenho Santo Antônio inteiro, começano na rodagem e chegano na casa grande. Se o senhor duvidar, pergunte ao povo que eles confirma. Na beira da cerca, nós observou os segurança da usina atravessar o pátio. Aí, sim, eu vi arma. Os ferro dos hômi brilhava no sol de onze da manhã. Vinha uns dez segurança mais Seu Fernando, que é o gerente da fazenda. Quando eles foram chegano, pai me botou pra trás, a mão no facão, assim, porque nunca se sabe, né? Não vou mentir, fiquei na desconfiança. Aí Seu Fernando disse que ele e mais os segurança vinha na paz, queria só conversar. Eu logo entendi que ninguém se pegou nessa palavra. Não tem paz com arma na mão, tô certo? Eu, de minha parte, encarano aqueles ferro reluzente, sentia era medo.
Apois nessa conversa pai disse a Seu Fernando que uma comissão precisava tratar com o patrão. Isso, Seu Siqueira. Eu não conheço negócio de comissão, mas pai explicou aos homi que dez morador queria entrar na fazenda pra exigir que Seu Siqueira pagasse o natal. Sim, eu também não conheço negócio de natal, não, senhor. O que eu sei é que pai falou a Seu Fernando que o pagamento ia atrasado, que já entrava ano novo e o patrão ainda devia o natal. Tinha também uma lei. Pai sabia o número e mostrou a Seu Fernando que sabia. Sim, senhor, pai é analfabeto. Eu sei ler uma coisinha, pai não assina nem o nome. Assim mermo, o número da lei ele sabia e disse aos hômi. Nessa hora, doutor, Seu Fernando pareceu levar a sério o que pai dizia. Pai falava com respeito. Não ofendia ninguém. O chapéu ia na mão e ele olhava Seu Fernando de frente. Sim, doutor, olhava nos olhos, feito um filho de Deus olha outro filho de Deus. Acontece que nos olhos mermo de Seu Fernando o que tinha era surpresa. Sabe como é susto? Olhe, o senhor me desculpe, mas eu não tô inventano, não. O doutor mandou eu dizer os detalhe, num foi? Então foi isso: aquilo era susto. Eu percebi o susto, pai percebeu o susto, os morador tudo percebeu o susto no branco dos olhos de Seu Fernando. Não fosse assim, de onde vinha aquela confiança que tomou o peito da gente? A confiança foi tanta que Seu Fernando resolveu pedir um tempo pra ter com o patrão. Ele deixou os segurança na cerca e voltou pra casa grande. Daí não demorou muito, foi ligeiro. Seu Fernando apareceu lá em cima, acenou pros hômi e eles deixaro os morador passar pela porteira.
Eu subi do lado de pai a estradinha que vai dar no pátio da casa grande. Agora eu enxergava de perto tanto os facão dos morador que ia com nós quanto os fuzil dos segurança. Se eu conheço fuzil? Doutor, o cabra que já levou uns tapa na cara conhece a palma pelo nome. Ao menos assim mainha diz. Penso que pai concorda porque ele já levou fuzil. Foi no terreiro lá de casa, ano passado, no dia de cobrar o foro. Pai reclamou da cobrança, tentou explicar a Seu Siqueira que a estiagem deixou pouco, o feijão quase não deu, a macaxeira mirrou, mal nós comeu banana. Pagar foro dessa maneira é injusto demais, né não? Pai disse ao patrão que pagar a ele era tirar da boca de nós, os menino. O patrão se enfezou com essa história. Ficou brabo. Rapidinho, os segurança apontaro as arma bem assim, nos olho de pai. Eram três. Doutor, eu tava junto e vi fundo no escuro dos buraco dos fuzil. Pai não. Ele baixou a vista e pediu desculpa a Seu Siqueira. Eu de sincero não entendi, pai não fez nada demais. Deve ser porque fuzil não guarda respeito, tô certo? Sei é que depois que o patrão saiu com as economia que mainha correu pra entregar a ele, pai se calou uma noite e um dia, outra noite e outro dia, mais outra noite e mais outro dia. Nós ficamo tudo preocupado. Mainha dava o cumê e pai enjeitava. Mainha perguntava pelo roçado e pai nem se bulia. Eu que tive de tirar o inhame e levar de carroça pra feira. Mainha mandou, pois pai tava doente de humilhação. Nas palavra dela, né? Eu aprendi aí que aquilo de pai era doença e tinha nome.
Vou dizer ao senhor, a coisa melhorou quando pai decidiu buscar o sindicato. Se eu conheço sindicato? Doutor, eu fui lá com pai, de carroça mermo. Leva umas três hora de viagem. A maior demora é cruzar os canavial, sabe? A cana nunca acaba. O cabra chega cansa, mas eu penso que vale a pena. O sindicado é uma casa na cidade e nós entra nela pra escutar os pessoal falar. Nós escutou uns hômi dizer dessas coisa de lei e como o trabalho tem que ser. O certo, né? Os direito. Uma moça quis saber se eu estudo, se sei ler e escrever. Eu contei a verdade, que mainha me mostrou a cartilha e eu fui decorano as letrinha. A cartilha foi o padre que deu a ela. Nós nunca foi à escola, não, senhor. Nem mainha, nem nós. A moça no sindicato contou que Doutor Arraes vai fazer uma escola no rádio. E nós vai ganhar rádio e caderno. E é pra ter uma pessoa junto, alguém que saiba mais um pouco, pra ajudar nós. Eu não entendi como danado é escola no rádio. Gostei mermo é de começar a ler e de ouvir umas musiquinha, né não? Mainha diz que sente falta de música em casa. E eu gosto das artista. Fico imaginano Eliseth Cardoso. O senhor já viu Eliseth Cardoso?
Ah, o que eu mais gostei na primeira vez que nós teve no sindicato foi que os pessoal ficaro tudo feliz em ver pai. Eles apertaro a mão de pai, seguraro nos ombro de pai e sorriro demais. Eles queria ouvir pai. Convidaro pai a sentar numa roda de cadeira e pediu que pai contasse como é a vida aqui no engenho, como é que Seu Siqueira trata os empregado da usina. Um deles é morador em engenho de outra usina e disse a pai que ele era muito esperado ali. Eu fiquei feliz junto, né? Não sabia dessa importância de pai. Penso que nem ele… Agora eu estranhei que, nessa primeira vez, pai entrou calado, ouviu calado e saiu calado do sindicato. Pai não tava alegre que nem eu tava. Doutor, eu adivinhei esse sentimento porque, na volta, nós veio na carroça sem dizer nada. E nós tava ainda sem dizer nada quando eu dei por mim que pai sentia raiva, muita raiva. Nós seguia no canavial e os olhos de pai era vermelho, doutor. Vermelho, vermelho, juro por Deus. O senhor conhece sangue?
No pátio da casa grande, nós paramo diante do terraço, os segurança ladeando nós. Seu Fernando desceu a escadaria e veio pra trás de pai. Daí, num minuto, Seu Siqueira atravessou a porta da sala e parou na beirada do degrau de cima. Doutor, eu confesso pro senhor que eu achei aquilo confuso e penso que pai achou confuso também. O patrão tava lá, defronte a nós, todo alinhado. Vendo ele, pai deve ter julgado que era hora de falar. Digo isso porque foi então que pai começou a contar da nova lei do pagamento do natal, que é pra trabalhador rural que nem nós. Pai olhava pra cima, doutor, e disse a Seu Siqueira que os pessoal do sindicato tinha ido na usina dois meses atrás, dizer qual era o correto. Pai disse que, depois disso, ele mermo falou com o gerente duas vez. Acontece que até hoje não teve pagamento do natal e pai falou que os morador veio exigir o direito. Doutor, eu tô lhe dizeno, pai pelejava na garganta e o patrão era como se não ouvisse, como se não visse pai. Tenho impressão que, lá de cima, Seu Siqueira não via nada que não fosse cana-de-açúcar. Sim, senhor, ele avistava os morador rodeano a cerca, ele sabia da curva dos facão se formando no arame. O patrão via hômi, mulher e os menino. Apois, assim mermo, era só cana-de-açúcar o que Seu Siqueira enxergava. Aonde se voltasse, para qual lado fosse, até onde pudesse esticar a visão, nada tinha que não cana-de-açúcar.
Pai acabou de falar. Penso que aguardava alguma resposta do patrão. O senhor tinha de ver, a resposta veio calada. O patrão em silêncio tava, em silêncio continuou. Na hora merma em que pai gritou pra eu correr, Seu Siqueira fez um aceno de mão pra Seu Fernando. Um aceno pequeno, difícil de entender, sabe como é? Doutor, agora lembrando, acho que pai gritou sem entendimento. A visão do aceno veio depois do grito, o grito de pai botou meus olho nas mãos do patrão e minhas perna no caminho da porteira. Foi o tempo de eu sentir o fuzil estalar nas costa de pai e de começar a escutar os tiro. Não, esse tempo aí eu não sei precisar, não, senhor. O doutor me desculpe mais uma vez. É que, como eu disse, eu só aprendi a contar número pequeno. O tempo dos tiro não cabe nos dedo, não. O tempo dos tiro não cabe na vida. Ou é a vida que não cabe. Sim, doutor, foi o tempo de eu correr do pátio da casa grande até a cerca. Nesse tempo, eu vi os morador arrombar a porteira e vir em minha direção. Eu vi dois cair aqui, Doutor, a dois palmo de onde eu vinha. No instante que eu alcancei a cerca, escutei uma senhora dizer que nós ia em treze mortos. Mais tarde, eu fiquei sabeno que de fato era doze. Os dez da comissão e os outros dois morador que caiu perto de mim na tentativa de acudir os da comissão. O décimo terceiro morto acharo que era eu. Como faz, doutor, uma conta dessa?
Daí pra frente o senhor sabe o que foi. Os polícia chegou nos engenho uma hora depois dos tiro parar. Eles examinaro os morto, entraro em casa de morador com a conversa de que queria saber onde tava o resto das arma. Dero uma pisa no filho menor de Seu Batista. Os polícia proibiu ele de falar que Siqueira matou o pai dele, que Siqueira é covarde, que Siqueira é assassino. No fim, parece que os polícia mermo se convenceu que não tinha arma nenhuma com nós ou que bastava pra eles as arma que Seu Fernando entregou como sendo nossa. Deixaro nós enterrar os doze morto somente no dia seguinte. Mainha tava queixosa porque ia precisar vestir pai com uma camisa e uma calça velha, das que ele usava na lida. A camisa de botão mais arrumada de pai, a que ele vestiu no casamento e nos batizado meu e de minha irmã, que era a camisa que ele pegava pra ir nas reunião do sindicato, tava furada de bala de fuzil seis vez. Esse número os polícia contou, mainha contou e eu contei, pra nunca esquecer. Os pessoal do sindicato viu o desgosto de mainha e arranjou uma camisa de botão e uma calça nova. E nós enterrou pai e os outro onze nos caixão que Doutor Arraes mandou trazer da capital. Diz que o enterro foi bonito, né não? Era gente que só de fora. Gente do Recife, da igreja, da política e do jornal, como é o caso do senhor que quer escrever sobre nós, como é? Uma matéria! Eu mermo não sei, doutor, se foi bonito. Boniteza também é grande, negócio difícil de contar.
Eu, de minha parte, penso que bonito é o fogo. Doutor, eu não vou mentir, o canavial tá queimando desde que os tiro findaro. O senhor viu? A cana novinha derreteno. Os polícia voltou nos sítio atrás de descobrir quem ateou fogo nos engenho da usina. Besteira, doutor. Eles não achou foi nada. Dero outra camada de pau nuns dois morador mais indignado e só. Teve não quem ateou fogo. Eu não vi. Duvido muito que tenha quem viu. Às vez, fogo vem de fogo. Se o senhor prestar atenção, vai atentar que esse aí é fogo lento. Não rastilha pela cana-de-açúcar. É fogo sem pressa. Vem debaixo, bem devagar. A língua vai chupano o verde da cana-de-açúcar e deixano tudo pretinho, pretinho. Seu Fernando fez de tudo pra apagar e não deu conta. O fogo volta, doutor. Ele insiste. Comeu o canavial todo do lado esquerdo da rodagem, na altura da capelinha, e toda n0ite avança um tanto mais. Tão dizeno que o patrão vai perder mais da metade da safra. O bonito é os estalido. O senhor ouviu? Aqueles barulinho de quando a chama cresce nos pau de cana rumando pro céu. Parece que o fogo voa. Parece que sente raiva. Vá ver, doutor, vá. O bonito é o vermelho que dá nos olho de quem encara o fogo. É vermelho, vermelho, doutor. Pode botar no seu jornal desse jeito que eu tô lhe dizeno. É vermelho que conhece sangue.
