Entrevista com tia Elisabeth, dia 1

Roberto Efrem Filho

Teste, teste, teste. Apartamento do Edifício Módulo, 7 de setembro de 2016. Entrevista com Tia Elisabete, dia 1. Pronto, tia. Coloquei pra gravar. Vamo começar? Amorzinho, peguei meu Campari. Tu quer cerveja? Opa, tia, quero. E meu amorzinho não quer também bolar um fininho pra melhor tia do Recife, não? Eu bolo, tia, mas só porque você é a melhor tia da região metropolitana. Affe, Arlindo, somente da região metropolitana? Que perjúrio, minha Nossa Senhora, a gente cria um menino com tanto gosto. Dá casa, comida e roupa lavada. Bota pra estudar, faz tarefa de casa. Orienta a ser viado bem direitinho. Cola purpurina na cartolina do cartaz sobre o relevo do agreste de Pernambuco e ele cresce assim, hétero e ingrato. Deixa eu pegar a seda, tia. Vá, Amorzinho, tá aqui a cerveja.

Tia, isso é Eliseth Cardoso, não é? [“Teu mal é comentar o passado; ninguém precisa saber o que houve entre nós dois; o peixe é pro fundo das redes; segredo é pra quatro paredes”]. É o disco de 58, Arlindo. O meu preferido, “Fim de Noite”. Eliseth está sofridíssima. É a cara de Tio Aparício, né, tia? Ah, meu filho, tudo que chora esquecido é meio Aparício. Aquilo, sim, era uma bicha grega, Arlindo. Aparício era trágica e implacável. Tia, tá apertado, tem que puxar com força. Ô, Arlindo, quando eu comecei a fumar, tu não era nem nascido. Ah, a madame me desculpe, eu esqueci que tava diante da Maria Fumaça da Conde da Boa Vista. Meu filho, quando eu era boa nisso, até a vista do conde embaçava. Porra, tia, até o conde? O rei, a rainha, o papa, o presidente da república, quanto mais o conde, Arlindo! Parece que não me conhece.

Mas oh, por que tu quer que eu fale pra esse gravador? Tia, é pro livro. Eu quero que a senhora fale do tempo do meu avô Pedro e do meu avô Siqueira. Tu já sabe dessa história, Arlindo. Tu sabe que teu avô Siqueira matou teu avô Pedro. Disso eu sei, Tia. E tu precisa saber mais o quê, menino? Tia, eu li sobre Siqueira no arquivo do Diário e do Jornal do Commercio. Li tudo quanto é matéria sobre o assassinato dos doze em 63. Eu estudei o inventário de Siqueira, tia. Os documentos de cartório, as atas de reunião da sociedade canavieira. Fui atrás das homenagens que Siqueira recebeu na Assembleia Legislativa. Li todinha a papelada que Tio Aparício deixou antes de morrer. Tia, juro à senhora, eu lembro até do jeito como Tio Aparício xingava e falava mal do próprio pai. Amorzinho, eu não acabei de dizer que teu tio era trágico e implacável? Eita, acho que apagou. Dá aqui, tia. Pronto. E lendo tanta coisa, tu não encontrou o que queria, Arlindo? Encontrei parte, tia. Encontrei sobre Siqueira. Já sei mais ou menos o que escrever sobre ele. Eu tenho um quadro, sabe? Uma imagem. É a imagem de um escroto trepado num terraço de azulejo azul e rodeado de jagunço, mas é uma imagem. Só que do meu avô Pedro, eu não tenho nada, tia. Tenho a fotografia dele morto na capa do Diário de Pernambuco. E eu preciso de mais que isso. Tia, eu preciso saber do seu pai. No jornal da época, Pedro é o subversivo, o comunista. Pai nunca foi comunista, Arlindo. Ele não sabia nem o que isso queria dizer. Eu imagino, tia. É por isso que eu resolvi pedir à senhora pra falar. Minha ideia é gerar um contraste, entende? Quero pôr a memória oficial de um contra as lembranças do outro. Quero escrever sobre Pedro.

Cacete, tia, é “Último desejo”. Eliseth gravou Noel Rosa, que massa. Tia, sabe que Noel compôs essa música por causa de uma dançarina de cabaré? O grande amor da vida dele. Acontece nas melhores famílias, não é Amorzinho? Quer outra cerveja? Vai tomar outra dose de Campari, tia? E tu quer que eu fale de pai, escute Eliseth Cardoso e ainda fique sem beber, Arlindo? Tu não acha demais pra essa velha cansada? Tia, se for muito difícil, não precisa… [“Perto de você me calo; tudo penso e nada falo; tenho medo de chorar”] Sabe que, assim que eu cheguei no Recife, em 68, Adalberto me deu de presente uma radiola e os discos todos de Eliseth Cardoso? O desembargador, tia? Sim, o meu desembargador, Arlindo. O aristocrata? O meu aristocrata, Arlindo. Agora fodeu. Noel pôde endoidar por uma dançarina de cabaré, e a puta velha aqui não tem o direito de ter vivido une histoire d’amour com um príncipe encantado? Ô tia, a senhora me desculpe. É que eu nunca entendi esse teu caso com Adalberto. Então a gente faz assim, Arlindo. Eu derramo nesse gravador a tristeza que teu livro pedir, se você prometer que um dia vai escrever sobre a delícia que Adalberto derramou em mim. Combinado? Tia, quer que eu acenda a baga? Tá combinado, Arlindo? Combinado, tia. Muito bem. Agora acenda a baguinha, vá. Olha aqui a cerveja, Amorzinho.

A imagem que tenho de pai é de um homem calado, Arlindo. Pai não sabia falar. Em casa, pai e mainha não conversavam, sabe? A gente acordava com o galo, o dia ainda escuro. Mainha já tava no terraço, diante da lenha pra ferver água e cozinhar a macaxeira, o cará, às vezes a banana e, se a galinha desse, fritar o ovo. Mãe botava o prato de pai e ele comia sem dizer palavra. Eu comia junto e, quando acabava, levantava com pai e seguia com ele pro roçado. No passo de pai, eu adivinhava o dia, qual era a lida, a tarefa. Se ele caminhasse assuntando o céu, eu já pressentia chuva; e se a sola da alpercata levantasse poeira seca, eu tinha certeza de que pai andava preocupado. Eu era a sombra de pai, Arlindo. O filho mais velho, a quem pai queria por tudo ensinar o trabalho.

E tu não achava ruim, tia? Amorzinho, até pra achar ruim a gente tem de aprender. Eu ainda não tinha entendido que era possível não gostar, percebe? Eu fazia o que pai e mainha mandavam, que era também o que eles faziam. Quando era época, os quatro desciam pro canavial, pra trabalhar na queima e no corte. Depois tinha o tempo da moagem e a gente precisava lavar e preparar a cana. Tia, com qual idade a senhora passou a ir pro canavial? Tua mãe e eu crescemos no meio da cana, Arlindo. Eu sou mais velha que Madalena 8 anos, tu sabe. Lembro perfeito de tua mãe enroladinha no braço de mainha, bebê, cercada de pé de cana. Mãe tinha um colchinha colorida, de retalho, que o padre de Gameleira deu a ela pro enxoval. Pois essa era a roupa de Madalena pequena ir pro canavial. A fumaça levantava, o facão rasgava a cana e tua mãe lá, paradinha do nosso lado. Amorzinho, eu vou pegar umas pedrinhas de gelo no congelador, um segundo.

Pronto. Eu já te contei que pai e mainha perderam três filhos? Não, tia. Eu não sei disso. Foi um antes de mim, que viveu menos de um ano e mainha diz que morreu de disenteria depois de uma semana de febre. Eu nasci em 51. Mainha engravidou mais duas vezes. As duas bebês morreram no parto. Mainha só teve filha mulher, tá vendo? Não ria de sua tia, não, seu cabra safado! A verdade, Amorzinho, é que essas barrigas de mainha eram só dor e aperreio. Só deixou de ser assim quando ela engravidou de Madalena. A gestação foi calma, um milagre mesmo, Arlindo. Tua mãe nasceu e vingou. Na hora do parto, lá em casa, Madalena chorou tão alto, gritou tanto nesse mundo que Dona Zefinha calculou que a criança parecia trovão antecipando chuva. Eu ri desse negócio de a menina ser trovão. Mainha tava feliz, Arlindo. E pai calado, do jeito dele. Entrou calado na casa, olhou tua mãe chorando nos braços da parteira e disse “minha filha vai se chamar Madalena, vai ter o nome de minha mãe”. Nesse instante, Arlindo, juro por Deus, eu vi um comboio de nuvem se formar em cima do sítio. Era nuvem pesada, gorda, já escura. Daquelas que fazem o céu chegar no chão, sabe como é? Até que trovejou. Pai saiu de casa pro terreiro, pra reparar o céu, acho que sem acreditar na tempestade. Foi aí que mainha deu o peito e Madalena pegou. Não demorou nada e parou de chorar. Quando a chuva resolveu cair, eu entendi que pai também tava feliz. Eu sei da felicidade porque, no estrondo da água batendo na terra seca, pai abriu os braços e fechou os olhos, Arlindo. Pai deixou a chuva molhar. Madalena nasceu, mainha dava de mamar, pai se banhava na chuva, calado. Dona Zefinha mandou eu correr pra tirar os panos do varal, perigava a terra virar lama, eu fui.

Eu me criei sendo o filho mais velho de Seu Pedro. Bastou a bala do fuzil de Seu Fernando atravessar as costas de pai pra eu intuir a natureza do homem. Mas veja, Amorzinho, não a natureza de Fernando. Eu tô falando da natureza violenta e covarde dos homens que teu avô Siqueira mandou que matassem meu pai, teu avô Pedro, e aqueles outros onze. A natureza dos homens que permite que haja homens dessa natureza, compreende? Hoje eu vejo isso, Arlindo. Foi ali, quando eu corri praquela porteira pra me acoitar nos braços de mainha, que eu me tornei mulher. Não porque mulher seja sempre boa, eu nunca tive essa ilusão, certo? Tua avó Ofélia mesmo era uma boa bisca, Aparício comeu o pão que o satanás amassou na mão dela. Eu me tornei mulher, Arlindo, pra fazer a guerra que eu escolhesse, e não a guerra que a terra me obrigasse a lutar.

Vou buscar outra cerveja, Amorzinho. Acho que tomo essa contigo, esquentou. Arlindo, aproveite pra bolar outro baseado, vá. Deixe de ser muquirana, meu filho. Só pode ser sobrinho de Aparício, affe. Mas tia, depois da morte de meu avô Pedro, vocês continuaram vivendo no engenho dos Siqueira por quê? Porque mainha ganhou a casa e o sítio. Doutor Arraes interviu e alguma coisa aconteceu que as famílias dos doze mortos puderam permanecer lá, confesso que eu não lembro como. Mainha mantinha o roçado e a gente vivia dele, mas era sofrimento, Arlindo, carestia. Mainha, Madalena e eu, a gente viu a fome. No início, logo após as doze mortes, o governo ajudou, o pessoal do sindicato ajudou. Aí vieram os militares e tu já viu. Com uns três anos da morte de pai, mainha começou a trabalhar na fazenda, como doméstica de Dona Ofélia. E mais tarde convenceu o patrão de que eu podia cuidar do estábulo. Os Siqueira tinham um plantel, era cavalo pra dar com o pau. Aparício cavalgava, tu tinha que ver. Bem danadinha ela, montadinha numa égua manga-larga marchador que se chamava Julieta. Eu nesse tempo já andava menininha, sabe? Franguinho de 16, 17 anos. Era muito audaciosa, tia? Audaciosa, porém virgensíssima, Arlindo. Nossa Senhora da Conceição não era mais inocente, mais pura e mais casta que eu. Já disse pra não rir de sua tia, menino! Eu realmente percebia o interesse dos homens, o olhar, o risinho. Um viado não é uma invenção tão recente, concorda? Eu percebia a expectativa dos homens ao meu redor, o desejo e o medo. Eu mesma sentia. Foi numa dessas que eu me dei conta do interesse de Adalberto, na mesma época em que Fernando começou a me acossar.

Tia, acendi. Toma. [“No rancho fundo; bem pra lá do fim do mundo; onde a dor e a saudade; contam coisas da cidade”] Ai, Amorzinho, essa é a de que eu mais gosto. Ary Barroso e Lamartine Babo, tia. Já ouviu a versão de Ney? Tio Aparício deixou esse vinil pra mim. Arlindo, Aparício me fez ouvir esse disco até estourar. Esse que ficou pra você já foi o segundo que ele comprou. Mas tia, como foi isso de Fernando te acossar? Foi a morte dele, Amorzinho. A morte dele e a minha vida. Eu vivia metida no estábulo, lavando, penteando e dando comida a cavalo, e me dei conta de que Fernando andava cercando. Fernando chegou junto para saber se eu estava bem, eu escutei a bala estalar as costas de pai de novo. Fernando se interessou em saber se eu precisava de algo, eu senti o calor da pólvora queimando no pátio da fazenda. Fernando escapou a mão esquerda em minha cintura, perguntou se eu tinha almoçado, eu suei como o menino que correu do tiroteio. Arlindo, em nenhuma dessas vezes eu rejeitei Fernando. Por que, tia? No começo, nem eu entendia. Cheguei a me ver traindo pai ali, com o pistoleiro que lhe atravessou o fuzil. Mas na manhã em que Fernando me acochou na parede e, baixo, disse que queria comer meu cu, eu entendi tudo, eu entendi impecável, Arlindo. Eu queria Fernando perto, muito perto, Amorzinho, colado na ponta da faca que eu carregava na cintura.

Tia, eu vou aceitar aquela dose de Campari. Ainda tem gelo, Amorzinho. [Os arvoredos; já não contam mais segredos; e a última palmeira; já morreu na cordilheira; Os passarinhos; hibernam-se nos ninhos; de tão triste esta tristeza; enche de trevas a natureza] No dia em que acharam o corpo de Fernando no canavial, o pescoço rasgado e o pau decepado, eu subi no trem em direção ao Recife. Lembrando assim, quase cinquenta anos depois, eu acho graça. No dia, eu tremia inteira, Amorzinho. As mãos de sua tia transpiravam, eram dois açudes sangrando. Por pouco, eu não borro o endereço anotado no cartão. Que endereço, tia? O endereço que Adalberto deixou comigo na última vez que me procurou na fazenda. Ele deixou o cartão junto com o dinheiro da passagem e o molho de chaves da casa que tinha alugado pra gente. Eu vim pro Recife, Arlindo, porque Adalberto prometeu ser meu namorado. Porque disse que me botaria para estudar em escola. Porque, se eu quisesse, eu podia até ser artista, transformista, Amorzinho, imagine! Eu vim pro Recife porque Adalberto não conhecia mais a vida fora de mim, porque me queria para sempre dentro dele, o peso do meu corpo sobre o seu. Adalberto dizia, “o suor do teu pelo na minha bunda”. Eu quase não sabia ler, Arlindo, mas fui pedindo informação e cheguei no sobrado da Rua da Glória. Era 1968 e Adalberto cumpriu o que prometeu. Eu morei mais alguns anos naquela casa, até ele comprar esse apartamento e registrar no meu nome. É desse tempo, Arlindo, o Recife que eu amei. O Recife que me deu meu nome. Na varanda do sobrado, os dois nus de madrugada depois de uma farra no Chanteclair, Adalberto abraçado às minhas costas forçando um pouco a entrada, eu inteira na mão esquerda dele, aquele carinho em meu mamilo direito, esse disco de 58 na radiola, “eu posso te chamar de Eliseth?”; eu ouvi, sorri de canto a canto, vi a rua vazia e respondi “eu prefiro Elisabeth, coração”. Amorzinho, a gente pode parar por aqui? Esse haxixe, esse Campari, não sei. Acho que sua tia velha precisa descansar. Tudo bem, tia. Tá ótimo por hoje. A gente continua outro dia. Fim da gravação.

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