Fundo do Fosso

1.

Chamo o elevador. Vigésimo primeiro andar. De pé, troca de queixas entre as conversas burocráticas do futuro divórcio. Quando um casal começa a se separar, desorganiza tudo, organiza uma parte e não tem data muito certa para a coisa acabar. Elevador chega. Dois passos eu, dois passos ele. Aperto o botão do segundo subsolo, a porta se fecha. 

Nos sentamos rápido no chão do elevador em queda. Vinte e três andares. Interfono para a portaria, nada. Estamos presos. Diego respira fundo:

– Não deram manutenção na semana passada?

– Estou sacodindo inteira, por dentro. Não me lembro.

– Você quer que eu te lembre alguma coisa? Posso fazer uma lista, Camila?

– Não precisa, eu faço a lista. Um. A portaria não responde. Dois. O botão vermelho também não. Três. Podemos gritar juntos e bater nas paredes. O que acha?

– Explica melhor aquela coisa de não ter me traído. 

– Diego, o elevador acabou de cair, não precisamos falar disso. Ou precisamos?  Você quer continuar a DR nessa situação? 

Continuei apertando botões, batendo nas paredes frias, mandei mensagem, celular sem sinal.

– O seu celular tem sinal?

Diego passa mais de dez minutos imóvel.

– Ooooiii! Alguém me ouve? 

Nada. Continuo batendo e gritando. Me recusei a gritar socorro. Tanta cena de filme que a palavra entra na boca da atriz e não combina. Não faz sentido gritar socorro no subsolo. Alguém grita socorro do inverno? A câmera? Ninguém nos vê? Deve estar zoada. Acho mesmo que ninguém na portaria assiste câmeras de segurança depois que inventaram esse tanto de rede social no celular. Deviam inventar um monitor na portaria de looping contínuo acoplado ao TikTok. Ouço a respiração do Diego: 

– Olha aqui, você vai continuar dizendo que não fez o que fez?

– Não fiz o que, Cristo? Já estamos fazendo tudo do seu jeito. Era só olhar a bagunça do depósito, tirar de lá o que é meu, e pronto. 

– Pronto o que?

– Sigo meu rumo.

2. 

Vigésimo primeiro andar, chamo o elevador. Porta se abre, dois passos eu, dois ele. Aperto o menos dois. Porta se fecha e o elevador cai. 

Ainda bem que tivemos tempo de sentar. Tranco bruto, pulsação de tudo o que é músculo no corpo. Na pele, nenhum arranhão. Por dentro, tudo revirado. Diego respira descompassado. O que vem?

– Culpa sua!

– Oi?

– Culpa sua a gente pegar o elevador essa hora. Já são mais de duas e meia, ninguém vai ajudar. Vamos amanhecer aqui. 

– Não começa. Você disse que quer me ver fora daqui até o fim da semana. Hoje é que dia? A conversa começou na quarta-feira, agora já é quinta. Preciso de pelo menos duas malas que estão no depósito e um micro-ondas velho. Já você, quer ver se eu não pego nada seu. Não precisava estar aqui. Ah, já sei, quer ficar na DR até dois mil e vinte e sete?

– Culpa sua!

– Aproveita, começa a gritar. Quem sabe algum vizinho escuta e chama alguém pra nos tirar daqui. Aperta o botão do interfone, aqui ó, grita… CULPA SUA!!! CULPA SUA!!! CULPA SUA!!! Bate assim nas paredes. Faz alguma coisa. 

Diego fica quieto por mais de dez minutos. 

– Seu celular está com sinal?

Ele não responde. Está vendo fotos no celular, não diz se tem sinal.

– Ainda tem minhas fotos aí, estou vendo.

Faz que não ouve. Eu aperto todos os botões do painel, aceno para a câmera. Misto de temperaturas na pele. Suor quente, suor frio. Se contar para a Vera, ela aproveita o mote e escreve uma cena sobre o casamento no fosso. Devia cobrar cada vez que ela se utiliza da minha vida para escrever. Acho que dava pra ajudar a pagar a advogada.

– Vai ficar aí sem fazer nada?

– Vou, não tem mais nada pra fazer. Acabou. 

3.

– Chega. Amanhã eu não estarei mais aqui.

Porta se abre, entramos. Porta se fecha. Elevador cai muito rápido. Durante a queda, nos sentamos no chão. 

– Meu Deus, você está bem?

– Melhor agora, não acha? Chegamos ao fundo do fosso.

Diego é um riso só.

– Achou graça?

– Vamos ver as notícias do Instagram. Será que o seu namoradinho postou alguma foto na academia? Hoje foi dia de natação ou bike? 

– Deixa disso e ajuda a chamar a portaria. O interfone não funciona, botão de alarme também não. Seu celular está funcionando. Liga na portaria. 

– Sem sinal. Nada de Instagram. Salvei uma planilha aqui. A Dra. Virginia mandou um esboço da partilha. Quer ver? 

– Já falamos disso. Eu só queria pegar as malas no depósito. 

– Vai pra casa do bonito? Ele tolera traição.

– Diego, você me traiu ano passado…

– Traí uma vírgula, eu tomei um café com a Ângela. Não posso tomar café com uma colega de trabalho?

– Pode sim. Mas você tomou um café da manhã numa suíte de hotel. Fez o que quis e depois veio com papinho de que monogamia já era. Já era?

– Toca o alarme, Camila?

– Não, agora é minha vez de me sentar aqui. Não adianta, já passou das duas e meia, o prédio todo dormindo, até o porteiro, a vigilância. As câmeras devem ser de brinquedo. Nosso casamento também. Amanhã alguém tira a gente daqui. Sua vez agora. Se levanta, bate nas paredes, grita, aperta botão. Quem sabe saímos daqui? Ou será que já, já, vamos começar tudo outra vez?

– Começar?

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