
Tempo de Monge
O monge artesão responsável pelas ampulhetas do mosteiro ouvia envaidecido que suas criações, de tão perfeitas, pareciam estender o tempo. Foi lhes estreitando o espaço entre os bulbos e soprando o vidro cada vez mais fino e transparente. Inspirava-se na devoção de uma noviça que permanecia plácida, de olhos fechados, mesmo quando a areia já se acumulava inteira na parte de baixo da ampulheta. Desejava que um dia, ela abrisse os olhos e visse o tempo ainda pela metade do caminho. Anunciada a visita do arcebispo ao mosteiro, lhe encomendaram a ampulheta mais perfeita já vista. Ele calculou a passagem exata de um grão de areia por vez. A reza do arcebispo duraria uma semana de tão longa. No dia da visita, todos os joelhos no chão, o artefato mais ambicioso do monge desequilibrou-se. Voou vidro fino por toda sala de oração. Ele perdeu o cargo e a oportunidade de observar a noviça que, de tamanha concentração, nunca se deu conta de sua partida.
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NADA A VER
No fundo da Cobasi da Angélica, passando pelo corredor de plantas e depois pelo de ração e acessórios para hamsters, estão os aquários. José Augusto mora nos da direita de quem entra, os de água doce. À esquerda, diante dele estão os de água salgada. E assim meio de ladinho, ficam as carpas pequenas. Na Cobasi da Angélica não tem carpa grande.
Os clientes dispostos, com tempo e dinheiro, não costumam olhar pro lado de José Augusto que custa R$7,90 e não precisa nem de bomba nem de termômetro pra viver. É um Tetra Neon – aquele meio transparentezinho com uma listra neon horizontal, se na horizontal – e mora com outros 27 Tetra Neons. Os clientes dispostos, com tempo e dinheiro, reservam a atenção pro lado da água salgada. José também. Até porque de onde ele onde está, na ponta do corredor, só consegue olhar pra frente ou pro aquário do lado, o dos caramujos, e desde pequeno tem um nojinho respeitoso de caramujos.
Digo se na horizontal, porque este é um Tetra Neon que prefere nadar na vertical. Especialmente se houver alguém observando o aquário. É que a listra que lhe brilha de ponta a ponta, quando na vertical, põe José mais esbelto, alto até. Divide o dia entre as pesquisas e a devoção a Ariadne, uma Pseudochromis paccagnellae que mora no aquário à sua frente. Ariadne é rosa pink da cintura pra cima e amarela da cintura pra baixo, quase um picolé mini saia ao contrário.
É que a pesquisa de José Augusto mergulha exatinho nesse tema: o da cintura. Além da magreza e do comprimento, desejava pra si uma possibilidade de rebolado, nadar em ondas, sabe assim? Ariadne não era nenhuma Kim Kardashian no Met Gala do ano passado, mas da turma da Cobasi era quem mais se aproximava da silhueta desejo de José Augusto. Pelo menos em Ariadne se sabia onde a cintura ficava. No dia que encontrou o site da National Library of Medicine leu para ela e pra todos os outros 27 Tetra Neons o artigo “Remodelagem estética da caixa torácica com osteossíntese e osteotomia de costela”. É de maio de 2024. E olha que essa nem é a técnica favorita dele. Os caramujos que pararam pra ouvir ficaram horrorizados. Alguns colegas questionaram se peixe tem costelas e ele jurou que provavelmente sim, já que a 11ª e a 12ª chamam-se flutuantes. O problema é que quando retiradas, e essa era precisamente a técnica que lhe ouriçava as escamas, podem levar a uma perfuração pulmonar, hemorragias, lesão neurovascular e dor crônica. Isso ele viu no Jornal americano de cirurgia plástica. Viu, mas esqueceu rapidinho.
Embora fossem insistentes os pedidos, nenhum dos Tetra Neons topou realizar o procedimento, ainda que José relesse o parágrafo que confirmava que em um grupo de 27 pacientes observou-se uma redução média de 12 a 13 cm na circunferência da cintura após três meses, com alto índice de satisfação. “E não sou eu quem está dizendo não, viu, é o Jornal americano de cirurgia plástica”.
Mas vê aqui esse pedaço, Ariadne tentava do lado de lá, um estudo de 2023 avaliou a função pulmonar em 11 mulheres jordanianas que passaram pela remoção das costelas inferiores e os resultados indicaram efeitos adversos significativos na função pulmonar e na força muscular respiratória, sugerindo que a remoção de costelas pode comprometer a saúde do paciente.
Mulher respira tudo torto, ele defendia, nada a ver com o procedimento. Mulheres que apontavam para os caramujos em “ecas” e “deus o livres” não se ofenderam porque da discussão só viam bolhas. Noves fora sugeriram o uso de um espartilho. Foi Ariadne quem puxou uma entrevista da Kim Kardashian pra provar o ponto. Era a única a quem José Augusto escutava de verdade. Ariadne, não a Kim Kardashian. Roubaram uma plantinha. As dos aquários de água doce eram inclusive de plástico, o que pra o uso, tanto melhor. Amarraram o Neon e houve até uma polêmica pra entender se a cintura seria antes ou depois da nadadeira. Pensaram que em tempo de peixe, uma semana seria mais do que suficiente pra modelar pra sempre. Ariadne até combinou consigo mesma que se desse certo, faria igual. Amava esse um vestido do Met Gala. Mas naquele dia mesmo José Augusto foi pescado por um vendedor que atendia uma criança pequena com a mãe. Acharam a coisa mais querida o peixe de cinto. No elevador ainda, ele nadando na vertical no maior rebolado do mundo pra chamar a atenção do menino, acabou lhe dando um susto. O coitado deixou o saquinho plástico de José Augusto cair no chão. Estourou. Ele escorregou no vão pra nunca mais. A criança chorou. Ariadne nem soube.


