Assim, em minha defesa, devo dizer pelo menos que o carro era alugado. Acontece que eu escolhia um modelo diferente toda vez que precisava ir pra Maringá, quer dizer, uma vez a cada dez, quinze dias, e assim eu ia conhecendo os mais variados tipos de automóveis, todos eles muito tecnológicos, claro, mesmo que na época esse conhecimento todo não fosse me prestar pra nada – eu não tinha perspectiva de comprar um carro tão cedo, fosse o modelo que fosse, porque o canal só engatinhava ainda, o número de inscritos cada vez maior, é verdade, mas ainda assim nada muito impressionante. Bom, o dessa vez era um Creta, acho. Lembro que o interior era todo em tons claros, os detalhes em couro, um automóvel lindíssimo e em tudo diferente dos que eu conhecia até então, quer dizer, os carros que meu pai teve, um Monza vermelho tomate que ele lavava aos domingos, um Tempra grafite dezesseis válvulas quando a coisa melhorou um pouco, todos autos que ele amou pra valer, amou de verdade, e que cabiam na sua vida apertada de comerciário. Eu nunca liguei pra carros, isso não tem nada a ver comigo, nunca teve, mas devo admitir que pegar aquela estrada sozinho de madrugada de tempos em tempos tava virando, aos pouquinhos, uma espécie de meditação ativa, algo que eu fazia por mim mesmo e pelo qual tinha começado a ansiar, a pegar gosto, alguma coisa desse tipo. A qualidade do asfalto da Castello me impressionava muito, bem como a quantidade absurda de placas de trânsito e de anúncios publicitários que pipocavam por toda a extensão da via, tão bonita àquela hora da noite, tão diferente das rodovias vicinais do meu Paraná, que sempre me pareceram abandonadas, sempre meio fantasmagóricas, mesmo antes do fim da concessão do pedágio, quando desativaram e abriram de vez todas as praças.
Foi um pouco antes do trevo de Clarínia que o carro apitou a primeira vez, me arrancando de um tipo superficial de transe. Um aviso no painel dizia que o nível do combustível estava baixo. E assim, claro que agora fica fácil dizer qualquer coisa, tão fácil quanto inútil, porém eu não tenho motivo algum pra mentir, juro que o que aconteceu aconteceu assim mesmo, assim como eu vou contar, quer dizer, quando o apito soou eu olhei pro painel e quase imediatamente passei lotado por um posto, e o que eu tô tentando explicar é que o problema foi justamente esse, sabe? De certa forma esse primeiro posto chegou muito rápido, ok, é bizarro dizer isso, eu sei, mas na minha cabeça foi isso mesmo, o posto apareceu muito rápido, muito em cima. Eu nem tinha me dado conta de que o sinal no painel era um problema que precisava de solução. Se o apito tivesse soado antes, ou seja, se eu tivesse começado a viagem com o tanque um pouco mais vazio, se tivesse sei lá, abastecido álcool em vez de gasolina, algo assim, um detalhe, tenho certeza que teria sido o suficiente, ou então se em vez disso o posto é que tivesse me aparecido só um pouco mais pra frente, como se uma construção magnânima como aquela pudesse sair voando, pudesse se deslocar pelo espaço por quilômetros apenas pra atender a um capricho de uma mente muito da perturbada. Ou, ainda, como se o posto não existisse de fato, com seus funcionários, sua loja de conveniência, sua borracharia, seus imensos reservatórios subterrâneos, nada disso; o posto só existiria pra que eu pudesse passar por ele.
E aí, se o problema do primeiro posto foi aparecer cedo demais, o do segundo foi o contrário. Eu tinha certeza que um carro moderno como aquele não iria me deixar na mão, ou então, no mínimo, iria armar um pampeiro daqueles antes de simplesmente parar na beira da estrada. Então eu segui viagem mais ou menos tranquilo. E tem a questão do meu tedeaagá, não é só uma desculpa, quer dizer, é isso também, uma desculpa, mas não deixa de ser verdade. Até aquele momento eu tava acostumado a sempre viajar no banco do passageiro, sem maiores preocupações do que a minha fome ou a vontade de mijar. Então foi isso, quando o segundo posto finalmente apareceu eu já estava distraído e me lembro de passar por ele pensando algo mais ou menos assim: não tô com fome, não quero mijar, vamos nessa.
Tá, eu sei que é bem difícil de acreditar, mas é aqui que a coisa vai ficar mais difícil ainda. O desespero foi tomando conta devagarinho enquanto eu tentava me lembrar das coisas que tinham acontecido antes do começo da viagem, se o carro tava com o tanque cheio quando eu saí (como se àquela altura isso fosse fazer alguma diferença), se eu tinha de fato abastecido etanol em vez de gasolina, se eu tinha abastecido qualquer coisa quando passei pela marginal, antes de sair de São Paulo, mas o meu coração ribombava no peito, eu sentia ele pulsando na ponta dos dedos, e não me deixava ter certeza de mais nada. E é isso, foi nesse estado de nervos que eu ainda passei batido pelo terceiro posto. Sim. O maior de todos, um verdadeiro colosso, impressionante mesmo. É claro que eu me lembrava dele das viagens anteriores, é impossível ignorar um posto daqueles. Acelerei ainda mais e agradeci aos céus a graça concedida, o fato de eu ter muito mais sorte que juízo e, no momento em que eu me embriagava daquele imenso alívio, perdi o desvio que levava pra entrada do posto.
A partir daí eu sabia que a viagem já era. Cogitei parar o carro e engatar a marcha ré. Cogitei parar apenas, porque sabia que não haveria outro posto tão cedo, era impossível. Eu precisava voltar. Então cada quilômetro a mais era agora um quilômetro a menos, um quilômetro na direção errada. Mesmo assim eu segui em frente, não havia alternativa, eu pisei fundo e segurei o volante com muita força enquanto procurava uma placa que eu sabia que não estava lá, uma que estampasse uma seta ao lado da palavra Retorno. O farol de uma carreta iluminou o interior do carro e, por mais que eu acelerasse, a claridade no retrovisor foi chegando cada vez mais perto e ficando cada vez mais forte.
