
María Fernanda Ampuero nasceu em Guayaquil, Equador, em 1976. Jornalista e escritora, sua obra se insere na vigorosa produção contemporânea de autoras latino-americanas que reinventam o horror, o fantástico e o gótico a partir de uma perspectiva feminista, ao lado de nomes como Mariana Enríquez (Argentina), Mónica Ojeda (Equador), Samanta Schweblin (Argentina), Liliana Colanzi (Bolívia), Brenda Navarro (México), Natalia Borges Polesso (Brasil), Giovanna Rivero (Bolívia) e Pilar Quintana (Colômbia). Sua literatura – composta por Rinha de Galos (2017), Sacrifícios Humanos (2020, trad. Silvia Massamini Felix, ed. Moinhos) e Lo que aprendí en la peluquería (2010) – desvela com precisão cirúrgica as violências de gênero, as desigualdades sociais e as tensões familiares que marcam a América Latina.
A crítica tem destacado a potência literária de Ampuero em transformar o cotidiano em matéria de horror. Valeria Luiselli definiu Pele de cão como “uma narrativa que não permite ao leitor desviar o olhar”, enquanto Alberto Olmos ressaltou que “sua prosa é como um bisturi: corta até o osso”. O jornal espanhol El País caracterizou sua escrita como “uma mistura de realismo sujo e horror psicológico”, e a escritora mexicana Brenda Lozano observou que “Ampuero não tem medo de mostrar a podridão que habita as relações humanas”. A boliviana Giovanna Rivero, por sua vez, comparou seu trabalho ao de “uma arqueóloga das feridas sociais”.
Sacrifícios Humanos (2020) reúne contos que exploram diferentes facetas da violência estrutural. Em “Luto”, acompanhamos uma empregada doméstica confrontada com a morte grotesca de sua patroa; “Biografia” narra a infância devastada por uma mãe abusiva; enquanto “Monstros” expõe os medos de uma adolescente em uma periferia violenta. Como observou a crítica argentina María Moreno, “Ampuero não inventa monstros: ela revela os que já existem em nossas relações mais íntimas”. Seu horror emerge da constatação de que o verdadeiro terror está nas dinâmicas de poder que estruturam nossa sociedade.
O conto-título “Sacrifícios” apresenta um casal perdido em um estacionamento labiríntico após uma festa. O que começa como um inconveniente banal – a dificuldade de encontrar o carro – transforma-se em uma experiência de terror psicológico. A ambientação claustrofóbica e a progressiva deterioração da relação entre os personagens criam uma tensão palpável. Como destacou a escritora brasileira Natalia Borges Polesso, “Ampuero constrói seu horror naquilo que não é dito, nas entrelinhas dos gestos cotidianos”. A autora equatoriana Mónica Ojeda complementa: “Seu terror está na linguagem, na forma como ela desmonta a aparente normalidade”.
Inserida no grupo de autoras que estão revolucionando a literatura de horror na América Latina, Ampuero compartilha com Enríquez, Ojeda, Schweblin e outras a capacidade de transformar o pessoal em político. Seu trabalho dialoga com o realismo sombrio de Pilar Quintana, a prosa afiada de Brenda Navarro e o imaginário perturbador de Liliana Colanzi. Como essas autoras, Ampuero demonstra que as histórias mais assustadoras não estão nos reinos do fantástico, mas nas estruturas de poder que moldam nossos corpos e subjetividades. Sua literatura é um espelho quebrado – reflete fragmentos de uma realidade que muitos prefeririam não ver, mas que é impossível ignorar.














PROPOSTA
- O Labirinto do Cotidiano
Dois irmãos tentam encontrar a saída de um shopping center após o horário de fechamento. As luzes se apagam uma a uma, os corredores se multiplicam, e a relação fraternal começa a desmoronar conforme percebem que podem não estar sozinhos no local. - O Peso do Silêncio
Um casal em crise fica preso no elevador de seu prédio durante um blecaute. Sem sinal de celular e com o sistema de emergência quebrado, o silêncio entre eles se torna mais opressivo do que a escuridão, revelando verdades que nenhum dos dois queria enfrentar. - O Parque Noturno
Após uma discussão, um pai e sua filha adolescente se perdem em um parque de diversões abandonado à noite. Os brinquedos quebrados ganham vida de maneira sutil, e a busca pela saída se transforma em um confronto com os fantasmas da relação familiar. - O Estacionamento dos Espelhos
Uma mulher volta sozinha ao carro após uma festa de trabalho e percebe que o estacionamento subterrâneo parece ter se expandido. Todas as placas levam ao mesmo lugar, e seus próprios reflexos nos espelhos começam a agir de forma independente, questionando suas escolhas profissionais e pessoais. - A Última Carona
Três amigos embriagados não conseguem achar o carro onde deixaram o quarto amigo dormindo. Conforme procuram pelo estacionamento vazio, ouvem a buzina do veículo tocar ao longe, mas a direção do som muda a cada vez. Quando finalmente o encontram, descobrem que algo terrível aconteceu durante sua ausência. - Se quiserem uma inspiração cômica, tentem esse episódio clássico de Seinfeld, The Parking Garage.
Explore:
- A transformação de um espaço comum em ambiente de tensão;
- O espaço liminar como fronteira entre o conhecido e o desconhecido;
- A deterioração de relações interpessoais sob pressão;
- Um conflito subjacente entre os personagens, exagerado por conta da deriva;
- O terror psicológico surgido do banal, sem recorrer a elementos sobrenaturais explícitos.
Trabalhe diálogos. Não esqueça de descrições, que podem ser bem telegráficas.
Escreva em qualquer pessoa, em até uns 10 mil toques.
