O pau comeu
A cidade de Barbalha é a menor das três grandes cidades da região metropolitana do Cariri cearense. Mas sua festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio atrai gente das 33 cidades do Cariri cearense, dos Cariris pernambucano e paraibano, do nordeste inteiro. Nos últimos anos, a festa cresceu tanto que passou a atrair gente até do sudeste. Quando os locais encontram um sudestino no meio do desmantelo, mangam:
“Veio fazer pesquisa, foi?”.
No caso de Inácio, foi mesmo. Chegou com câmera de iPhone do último número, microfone sobressalente e cheio de “fome de mostrar essa expressão única da cultura popular”. Chegou ainda pro pré-Pau e já foi se espalhando. Dançou de forró pé-de-serra a forrozinho eletrônico e pisadinha, comeu de panelada a tripa frita e buchada de bode, bebeu de Ypioca a catuaba caseira e comeu de mulher casada a viado declarado e macho casado.
Até aí, problema nenhum, porque Barbalha é hospitaleira. Recebeu o galego bem no pré-Pau, nos festejos do corte no meio da mata, nos dias de paredão em que o Pau fica na cama e na Noite das Solteironas. O problema é que na manhã do dia mais importante dos 30 dias de festa, o cabra escreveu um trechinho do artigo dele pra universidade falando que o evento era “uma caricatura pitoresca e falocêntrica do que há de mais divertido, atual e ao mesmo tempo retrógrado da religiosidade rural nordestina”.
Ou seja, Inácio cuspiu no prato em que se lambuzou. E que ainda queria se lambuzar. Parou de escrever o artigo e desceu do hotel pra ver o cortejo dos carregadores, que levam o Pau até a Igreja da Matriz, fincam no chão e hasteiam a bandeira de Santo Antônio. Inácio tava alegre que nem saruê no galinheiro, deu bandeira da alegria mesmo. Esvaziou muitas vezes o caneco de cana, fez uns vídeos pra postar no Instagram e alardear como era um cara pra frente, que desprezava viajar pra Europa e valorizava conhecer o Brasil profundo.
Quando os carregadores soltaram o Pau no chão pra descansar, o chão tremeu e gemeu de dor. O povo se atirou em cima da madeira pra pedir bênção e casório. Inácio desligou a câmera, pra não registrar que ele era ateu do pau oco, e se jogou em cima também. Pediu paudurescência pra conseguir terminar de comer o tanto de gente que queria dar pra ele naquela terra de gente boa e besta. Aagarrou firme no pedido. Levantaram de novo a madeira, a mão de um carregador escorregou, o Pau caiu com tudo na cabeça do sudestino.
O chão tremeu e gemeu de gozo.
Mote:
Santo Antônio pequenino
Amansador de burro brabo
Amansai meus inimigos
Com setenta mil diabos
Amarradona
Leilane conheceu Moisés na festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio. Pediu um amor e o santo deu bem dadinho, na medida da pedida. Trabalhador, carinhoso, nem feio de fazer vergonha, nem bonito de fazer inveja. E ainda era atencioso. Foi procurar saber o que era BDSM, tinha zelo com suas taras, fazia um desmantelo na cama. Só ficava desatento quando tinha sede.
Noivaram ainda em junho. Numa noite de agosto, de goela bem seca, Moisés foi ao bar e esqueceu de desamarrar a noiva, que dormia o sono profundo de quem gozou baldes. Quando os bombeiros chegaram, encontraram o corpo carbonizado de uma mulher presa pelos pulsos na cabeceira da cama e um homem bêbado segurando uma chave nas mãos e tentando se atirar nas chamas.
Sim, Moisés esqueceu de desamarrar Leilane. Mas Leilane esqueceu de desamarrar a imagem de Santo Antônio depois que teve sua promessa atendida. A casa toda pegou fogo, a corda que amarrava o santo pegou fogo. Mas a imagem sobreviveu, inteirinha.
Mote:
Esse ano eu vou encontrar o amor
Nada me atrapalha
Quero matrimônio, viva Santo Antônio
Viva Barbalha
Lutemos com as armas da luz
Diz que lá pelos 1910, depois que o Padre Cícero rompeu com a Diocese do Crato e fundou seu povoado de romeiros e devotos, a mesma diocese quis proibir a festa do Pau da Bandeira de Barbalha. O argumento era que a tradição não passava de furdunço profano. Padre Cícero se saiu para a cidade vizinha e prometeu seu total apoio ao santo e à santa festa. Quando estourou a guerra contra o Crato pela emancipação de Juazeiro do Norte, o exército de Padim lotou de soldados barbalhenses, que prendiam nos cabos dos fuzis e dos facões fitinhas de Santo Antônio.
Diz também que bem antes disso, pelos 1840, quando o Padre Cícero nasceu e Barbalha foi fundada, os senhores dos engenhos de cana proibiram seus escravos de festejar e dançar em volta de um pedaço de pau. Os canaviais queimaram, o bolso dos senhores de engenho azedou e os quilombos da Chapada do Araripe engordaram. No ano seguinte, a Câmara Municipal oficializou a festa do Pau da Bandeira de Santo Ântonio.
Diz que agora, nesse mês de junho mesmo, o terreiro do Príncipe Nego Gerson vai fazer um Pau da Bandeira próprio. Tudo quanto é bairro, distrito e sítio da cidade tem seu pau. Mas nunca teve um pau de macumba na história de Barbalha. Ou se teve, ninguém diz. Mas esse ano diz que vai ter. Todo mundo de branco, carregando o pau da estrada até a porta do terreiro, passando pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário no caminho. Diz que o povo não vai gostar, diz que tem até risco de pedrada. O zelador de santo falou isso pro Príncipe Nego Gerson, que manteve a ordem da festa:
“A banda tá de ronda, jifio, ji quero vê quem vai jidizê conta”.
Mote:
Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira, Santo Antônio
Tranca-Rua e Marabô
