Tá pensando que beiço de jegue é arroz doce?

por Américo Paim

No bar de Tirulim, os mesmos de todo fim de noite. Dente Frito, assim chamado por não acertar falar “dentifrício”, que ouviu de seu avô; Peixinho, o de olhos saltados; Carne de Jegue, que era o que ele vendia no mercado, segundo o povo e Carneiro, que era José Barbosa, mas morou a vida toda perto da Farmácia Carneiro. E Discurso, único garçom naquele horário, que era mudo e conhecedor da trupe.

– Porra, Tirulim, conta aê – berrou Peixinho, alterado.

Tirulim sabia que só um causo pra se livrar daquele bando. Puxou cadeira diante deles. Discurso também foi.

Quem contou esse causo de primeiro foi Firmino Notre Dame, mas quem me falou tudo foi Juca Mentira, lascou de vez… E pra piorar, naquele dia foi tanto goró, mas tanto, que acordei na casa de Marilívia, leso de cachaça, os dois pelado de conchinha na cama da irmã dela, sem ideia do que se deu. Bem, isso é outra história. O causo se passou na serra, bem dentro do mato, com um conhecido nosso aqui de Pedra Velha.

Lembram da empresa que veio pra cá querendo construir prédio lá no meio do mato? Que ia ser a nova Pedra Velha, óia isso, que a vista em dia limpo dava pra enxergar até a capital? Que culhuda… Iam abrir estrada lá da federal, por dentro do mato. Os engenheiro chegaram e num faltou aviso: num entre lá não, é complicado. Se for falar do que tem nos mato daqui, cês sabem que vai faltar hora de dia e dia de semana pra terminar. É muita história e quase nenhuma acaba bem, né mermo? Pois se embrenharam lá. No começo foi tranquilo, até aparecer a pedra fundamental.

– Que pedra é essa, Tirulim?

– Uma que marca o começo da obra, Jegue.

– E quéquetem demais?

– Acontece que a tal da pedra ia ficar bem em cima da casa do Véi Satã.

– Oxe, oxe, oxe, é nada. Que povo mais doido…

– Tô lhe dizendo, Dente.

Silêncio no bar. Discurso buscou mais cachaça sem ninguém pedir. Quase todo mundo conhecia a história do Velho Satânico, que o povo reduziu pra Véi Satã. Uns diziam que ele vivia de fazer coisa ruim com quem se chegasse, e outros que ele já tinha morrido e a casa era mal-assombrada. Ninguém se atrevia a chegar perto de lá e os poucos que sabiam onde era, não revelavam. O único que contava que viu o Véi uma vez era Perfeitinho: que ele era alto de envergar, magro feito caniço com força de boi, preto como a noite e os olhos brilhando no escuro, feito farol que se via de longe. Fumava um cigarrinho de palha com cheiro forte de alecrim. Se alguém sentisse, que vazasse. Tirulim retomou sua narrativa.

Apois, os três da empresa que chegaram primeiro na casa se lascaram. Tudo morte feia e num foi morrida. A polícia descobriu foi nada e a empresa abafou, nem saiu no jornal. Se dizia que o Véi ficava dentro de casa o dia todo, que dava pra sentir o alecrim e tal e coisa. Enquanto os home da obra pensava em que caminho seguir, aconteceu um negócio no meio da mata que cês num vão acreditar…

– É o quê?

– Uma reunião dos bicho ruim, os monstro do mato. Juca me contou!

– Como é? – perguntou Peixinho, roendo as unhas.

– Aí tem jeito de acreditar não… – disse Carneiro.

– Só me escutem…

Os monstro tudo preocupado com essa modernidade toda, de Internet, celular e tal e coisa. Quase ninguém mais entrava na mata. Eles ficando desconhecidos e com fome. Cês sabem que tem uns ali que come gente, né? Quem me garantiu foi Joça, que ficou cara a cara com o Quibungo. Ele jura té hoje.

– O Quibungo num é o da bocarra nas costa, que cabe um peão inteiro? – falou Dente.

– Esse mermo.

– Oxe e Joça saiu vivo?

– O monstro tava de fastio. Ele contou assim.

– Mentira toda… – disse Jegue, entornando.

– Pois ele gravou a conversa dos monstro no celular.

– Tirulim, essa tá foda…

– Que Discurso fale agora se eu tô mentindo. Vou contar como me lembro.

Tava o Quibungo, Curupira e Caipora, lá no meio do mato. Diz que nem nasce mais nada onde eles botaram os pé. Queimou foi tudo. A conversa foi assim, mais ou menos:

– Eu pedi essa reunião porque a situação é grave – começou o Quibungo.

– Fale.

– Tá tão foda que agora tô comendo bicho da mata também.

– O que atrapalha nosso trabalho, né? – disse o Curupira e Caipora concordou.

– Fazer o quê? Os filhos seguem rebeldes só que os pais não estão nem aí.

– Nunca concordei com essa coisa sua de comer criança, que fique claro – comentou Caipora.

– Não escolhi. É minha natureza. Mas como adultos também.

– Esses agora só vêm pra fazer putaria ou fugir da polícia.

– Se adaptou à nova dieta, Quibungo? – voltou o Curupira.

– O gosto é estranho, ainda prefiro humanos.

– É tão diferente assim?

– Os pelos fazem cócegas e a carne é mais dura. Humanos são mais moles.

– Isso é nojento.

– Outra coisa, senhores: ninguém sabe que nós existimos.

– Isso faz tanto tempo. E muda como?

– Mobilização! Alguém tem que levar nossas demandas à frente.

– O que sugere?

– Atrair líderes de bairros, comunidades ou até fofoqueiros mesmo.

– Oxe, entendi não.

– Falar assim pro povo: se não vier comida, vamos buscar na cidade.

– Ué, a gente só existe no mato.

– Só que eles não sabem disso.

Nesse instante chegaram os dois que faltavam: Boitatá e Véi Satã.

– Já tinha desistido…

– Calma, Quibungo. Tô morando mais longe. Desmataram minhas árvores preferidas – disse o Boitatá.

– Oxe, tu não protege a mata?

– Tava de férias em outro estado. Tá pensando que beiço de jegue é arroz doce?

– E você, Véi? Tem desculpa?

– Vai se fudê, ô, peludinho!

– Muito nervoso.

– É essa putaria que tá rolando aí, de demolirem minha casa.

– Isso é sério mesmo.

– Vão desmatar pra porra e fazer estrada e prédio!

– Agora que reparei: mais gente por aqui e minha dieta pode voltar ao normal – disse o Quibungo.

– Porra niúma. Logo vem mais prédio e cabô a mata. Tá leso?

– Então, qual é o plano? – perguntou o Caipora.

– Um conhecido que me deve sempre aparece aqui, fugindo da polícia.

– E daí, Quibungo?

– Mando ele espalhar que vamos atrás de comida. Fake news tá na moda.

– Como cê sabe disso?

– Pelo celular dos meus últimos tira-gostos. Fico olhando até a bateria acabar.

– Aqui pega?

– Perto do Morro do Enforcado o sinal é bom.   

– Tá. E sobre minha casa? – interrompeu o Véi.

– A ideia é se concentrar em volta dela. E dali até a rodagem.

– Como vai ser?

– Curupira e Caipora assustam os caras que entrarem e levam eles até o Boitatá, que mata tudo.

– E o Véi nessa? Fica de boa, sem fazer nada? – provocou o Boitatá.

– Ele fica na casa dele o tempo todo, pra ninguém invadir ou derrubar nada.

Tirulim falava, os amigos se estressavam e bebiam mais. Dente já queria vazar, mas tinha medo de ir sozinho. Peixinho só ria, de cachaça e nervoso. Jegue e Carneiro atentos e perguntando. Discurso, sem opção, seguia calado.

– Tirulim, fio, esse leriado aí…

– Tô lhe dizendo, Jegue.

– Agora, explicou por que tanto sumiço na serra… acabou a história?

– Perainda que falta. Cês num vão acreditar.

– Oxe, oxe, tem mais é? – disse Dente, preocupado.

Tirulim retomou.

O plano funcionou um tempinho. Se entrasse no mato, dava de cara com o Curupira e o Caipora, que tocavam o terror, tangendo o povo. Quem acabava no Boitatá, dançava. Quem se perdia, morria comido pelo Quibungo. Os que fugiam pra Pedra Velha chegavam lá sem dizer coisa com coisa. Apesar dos avisos de pessoas da cidade, sobre as criaturas e que as coisas iam acabar mal, a empresa não desistia. Colocaram até caçador atrás dos monstros. Cês sabe que num adianta. Aí, um dia, o Véi vacilou.

– O Véi Satã? E foi?

– Ei, Discurso, traz mais cana aê – disse Peixinho, com a boca cheia de bola de gude. Conta, Tirulim.

O Véi, bruto que só, seguia em casa e num dava mole pra ninguém. Uma noite, ele amolava o facão na varanda e escutou um assovio, coisa parecida com cantilena, vinda do mato. Era lua nova e o assovio num parava, sedutor. Ele ficou curioso e foi atrás. Andava e parecia que o assovio num saía do lugar. Sem perceber, já tinha se embrenhado muito pela mata. Andou e andou, perdido de atração. Aí ele encontrou ela, a razão daquele encanto todo.

– Quem, Tirulim?

– Comadre Fulozinha!

– Ah, para com isso. Essa mulé existe nada… – disse Jegue.

– Culhuda da porra – gritou Peixinho, já muito além do jardim.

– Oxe, cês são tudo engraçado. Dos outros monstro todo ninguém duvida…

– Essa Comadre é invenção. Diz que é mulé-dama que jogaram no mato pra morrer.

– É nada, Carneiro. Cês tão por fora. Fulozinha existe.

– Tu viu por acaso, Tirulim?

– Vi não.

– Oxe, história de Juca Mentira e tu come esse agá?

– Deixa eu terminar? – pediu Tirulim.

O Véi Satã tava enfeitiçado e ficou ali na mata com ela por três dias e três noites, esquecido da vida. Quando ele voltou, encontrou a casa revirada, apesar da vigilância dos monstros. Destruíram tudo lá dentro. Revoltado, ele queria matar todo mundo. Quibungo controlou e fez ele voltar ao plano original. Acontece que toda noite o Véi saía atrás de Fulozinha. Mas a casa num ficava só. Tinha lá um cachorro, grande e forte. Ali ninguém se aproximava. Ao amanhecer, o bicho num tava mais lá, só o Véi.

– História maluca, viu, Tirulim?

– Mas é verdade. E cês vão endoidecer é agora.

– Como assim?

– Quem é que cês conhecem que só aparece por essas banda durante o dia?

– Oxe, quem é? – perguntou Carneiro.

– Véi Totó! – gritou Jegue.

– Isso! Alguém aqui já encontrou o Véi Totó de noite?

– Num é que é isso mermo? – disse Dente.

– Apois, o que se diz é que ele é o cão do Véi Satã. De dia é gente e de noite vira bicho.

– Crendeuspai! – disse Carneiro, se benzendo.

– Tirulim, essa tá foda – falou Jegue.

– Foi assim que se deu o causo.

– Discurso, buta mais uma pra nóis aê – disse Peixinho, escornado, envolvido em sua própria fauna, chamando urubu de “meu loro” e completou, entre surpreso e assustado, olhando para entrada do bar – Traz mais um copo, Discurso!

Parado, de pé sobre suas quatro patas, com caninos para fora e orelhas empinadas, enorme, de pelagem escura, um cão olhava firme na direção da mesa.

Deixe um comentário