Perdido & achado

Lilia Guerra, 49, paulistana, tem uma escrita que combina densidade poética e crítica social aguda. Sua obra, marcada por uma perspectiva periférica e feminina, desafia estereótipos e expõe as contradições urbanas, especialmente em seu aclamado livro Perifobia (2018; Todavia, 2025), em que explora o medo, o preconceito e a violência que marginalizam as populações periféricas. O livro mistura contos e crônicas, em que núcleos narrativos se combinam na direção da narrativa longa, como se fosse um romance entrecortado. Enfermeira e assistente social de formação, Guerra demonstra uma profunda empatia por seus personagens – escrevendo “como se seu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de seus personagens, dos quais poderia ter sido um”, conforme ensina Horacio Quiroga em seu Decálogo do Perfeito Contista.

A pesquisadora Mariana Alves, em ensaio para a Cult, ressaltou a dimensão política da obra: “Guerra subverte a ideia de ‘lugar de fala’ ao transformá-lo em ‘lugar de escuta’. Seus personagens não são vítimas passivas, mas agentes de suas próprias narrativas, ainda que esmagados por um sistema que os rejeita. Há uma potência revolucionária em sua escrita.”

Seu estilo é fragmentado, quase cinematográfico, mesclando gírias urbanas com uma linguagem literária refinada. Perifobia foi finalista do Jabuti 2019 na categoria contos e ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura como Melhor Livro do Ano.

PROPOSTA

Como você percebeu, a premissa da narrativa é: uma pessoa encontra um objeto que foi perdido por outra pessoa há muito tempo.

Este objeto vai conectar tanto o futuro (o objeto vai fazer Isabela, a pessoa que o encontrou, encontrar outras pessoas) e o passado (uma dessas pessoas é justamente quem perdeu o objeto, que talvez seja pai de Tiago, foco romântico de Isabela.

Como base nisso, criei outras premissas.

1. O relógio que conta ao contrário

Lara, uma jovem artista de rua que encontra um relógio de bolso antigo em um beco.

Victor, um homem misterioso que insiste que o relógio pertenceu a seu avô e que ele precisa tê-lo de volta antes que algo terrível aconteça.

2. A carta que nunca deveria ter sido lida

Daniel, um carteiro que, ao entregar uma carta extraviada, acidentalmente a abre e lê o conteúdo.

Clara, a destinatária real da carta, que contém um segredo capaz de destruir sua vida.

3. O livro que ninguém deveria ter

Eduardo, um estudante que compra um livro usado e descobre anotações sobre um assassinato não resolvido.

Isabel, a antiga dona do livro, que na verdade é a assassina e não pode deixar que ele descubra a verdade.

4. O celular dos segredos

Téo, um motoboy que pega um celular esquecido no banco de um ônibus.

Raquel, uma jornalista investigativa que usava aquele celular para armazenar provas de uma grande corrupção.

Preocupe-se menos com o destino do objeto e mais com as relações entre os personagens movidas pelo sumiço e pelo aparecimento do objeto, e se há ou não interações entre eles.

Você pode escrever:

  1. do ponto de vista do personagem que perdeu o objeto;
  2. do ponto de vista do personagem que achou o objeto;
  3. na terceira pessoa (impessoal ou discurso indireto livre)…
  4. ou do ponto de vista do próprio objeto.

Por volta de dez mil toques.

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