O interior de uma cobra

­­– Os vagões a esta hora são tristes.
– Porque estão vazios.
– Os cheios,  os muito cheios são insuportáveis, mas assim, sem ninguém, sinto aqui por dentro um vazio igual.
– Bom são aqueles privatizados, um único carro, como o interior de uma cobra.
– Boa comparação. Gostei.
– E não é isso? A gente meio engolido pelo trem.
­– Faz sentido. E quando faz curva parece que rasteja.
– O bom daqueles é que, mesmo de longe, a gente enxerga uma ou outra pessoa nos bancos. Pode até estar dormindo, mas se é gente, tem vida.
– O condutor, às vezes, é remoto. Não é gente, feito um trem fantasma.
– E aí?  A luz piscou.  Viu?
– Acontece.
– Piscou de novo. Ficou mais fraca e viu só? O trem parou. 
– Verdade. Essa é luz de emergência.
– E agora?
– Espera. Volta logo. Não sabe como é?
– Nem um aviso?
– Eles dão uma previsão de quando volta.

– Tem um chiado no alto-falante. Alguém da cabine. Ouviu?
– Parece um pigarro, um homem limpando a garganta.  Entendeu alguma coisa?
– Nada.
– Ouve só.  Mais um. Tiraram um fone do gancho. Percebe?
– Só outro chiado.
– A luz está ainda mais fraca.
– Vale gritar? Bater na porta?
– Espera. Senta aí. Logo volta.
– E o celular? Pega. O meu está sem bateria.
– O meu sem sinal.
– O trem balançou
– Balançou nada. Você que bebeu.
– Você também. Tô sentindo teu cheiro misturado com xixi de gato.
– Você também sente ? Nunca sei se é de xixi. De manhã é mais forte. 
Dizem que os gatos dormem dentro dos vagões quando os trens estão parados no pátio.
– Pelo jeito vamos dormir feito gatos aqui.
– Boa. Deita aí. Relaxa. Logo volta a funcionar.

 – Deitar neste banquinho duro? Brincou, né?

– Encosta o corpo no banco preferencial e estica as pernas para o corredor.

–  E você? Vai fazer igual? Que ideia! Quero sair daqui. Tá ficando quente.

– O ar-condicionado também parou.

– Parou tudo. Estou achando a luz mais fraca.

– Impressão sua.

– Quebra lá o botão de alarme. Olha pra trás. Tá em cima da sua cabeça.

–  Com o quê, Fernanda? Tem alguma coisa pontuda nesta sua bolsinha?

– Tem nada aqui. Só meu celular, uma carteira e os documentos.

– Uma chave. Não tem uma porra de uma chave?

– Não mais. Tudo no prédio é digital. E depois uma chave nem adianta. Tenta a sua. Você não tem?

– Não mais. Tudo no prédio é digital.

– Haha! Tá vendo! Agora aquela minha bolsa grande ia servir.

– E aqueles seus sapatos de salto fino. Hummmm. Sabe que eu gostava? Empinavam a sua bunda.

–  E me davam dor lombar. Para aí.

–  Você ficava gostosa.

– Vem não. Sai pra lá. Quer dar espetáculo pras câmeras?

–  Tá tudo desligado. Ninguém vê. Chega aqui.

– Cai fora.

 – Deixa eu cheirar esse pescocinho.

– Agora? Semana passada, tudo certo pra gente se ver eu terminei o trabalho mais cedo, desmarquei reunião e você manda mensagem pra  marcar outro dia porque a chuva deu preguiça. Lembra?

–   Você ficou bem brava e me disse que cartório não era cinema.

_  Boa memória.

_ E  lembro que hoje tem pressa  porque amanhã  tem que sair cedo, para o café da manhã com os chineses.

–  Nem eu me lembrava. Contei isso pra você? Que merda! Tenho, quero, preciso sair. Quebra a caixinha do botão de emergência. Vai logo.

– Quebrar com quê? Eu de tênis, você de tênis. Se ainda estivesse com os saltos.

– De novo, Moacir? Quebra com a mão.  Sei bem como ela é forte.

– Quer primeiro sentir em você?

– QUERO SAIR!!! ALGUÉM TÁ VENDO ISSO?

– Tá bom! Tá bom! Não grita! Cala a boca!

–  Odeio quando você me manda calar a boca.

– Odeio quando você diz Odeio.

– Isso já foi amor. Quebra lá o vidro da emergência.

– Não vou bater a mão direto. Empresta a sua blusa.

 – Tira a sua. Por que a minha?

 – Só tenho essa. Você, que morre de frio, tá aí com esse casaquinho de velha.

–  Você é ri dí cu lo. Sai fora que eu quebro.

 – Olha lá!! Incorporou a autossuficiente. Vai lá! Quero ver! Quebra pra eu ver.

– Pra VOCÊ ver?? Olha lá!! Incorporou o voyeur!  Hahahaha! Eu quebro mesmo e com o tênis. Nem parece um pesquisador, editor, tradutor, escritor, jornalista, poeta, fotógrafo, músico bissexto e chef. Muita atividade. Deve ser isso.  O raciocínio às vezes falha.

–  Esqueceu do padeiro, mas tudo bem. E o que a professora vai fazer?

–  Usar o tênis para proteger minha mão e dar o soco. O mesmo que você ia fazer com a blusa. Simples.

–  Eu posso fazer isso. Senta aí e vê.

–  Não. Ideia minha. Eu faço.

– Vai lá! Resolve então.

– Um, dois, três , só mais um soco. Pronto! Quebrou. Tá vendo?

–  Estou. Parabéns, professora, doutora Fernanda. Bom seria se o alarme tivesse tocado.

–  SOCORRO!! QUERO SAIR DAQUI. Grita também, Moacir.

– SOCOOOORRRO! QUERO SAIR DAQUI.

– ALGUÉM TÁ OUVINDO?? ESTAMOS PRESOS. CARRO NÚMERO 75.

– ALGUÉM TÁ OUVINDO?? ESTAMOS PRESOS. CARRO NÚMERO 75.

 – Moacir! Você não tem criatividade não? Parece aquela tua calopsita topetuda. Não sabe inventar um grito?

– Fernanda, meu amor. Você ainda tem ciúmes dela?

– Dela quem?

– Da calopsita.

– Tá brincando? Só não gostava quando sujava o sofá branco. E ela, hein?

 – Fugiu, Fernanda! Eu contei. Você até respondeu a mensagem com uns olhinhos de choro.

 –  Eu respondi nada. Você mandou para minha xará, a instrutora de ioga. Todo meu apoio à Brenda. Ela fez bem em fugir. Saiu mais vezes com ela?

– A Brenda?

– Seu ridículo. A Nandinha Ramayana Isha,. Sei bem como você aprendeu a respiração pranayama. Vai enche essa pancinha dura, uma narina de cada vez, inspira, solta o ar, inspira, solta o ar e grita. Vai, Moacir. Grita uma coisa diferente.  Diz que nunca saiu com ela. Grita, Moacir.

– EU ESTOU COM SEDE. AQUI TÁ MUITO QUENTE.

– Também estou com sede, Moacir. Vamos parar de falar. Estou meio tonta.

– Eu também.

– Vem aqui. Chega perto. Deita comigo aqui no chão. Vamos dormir enrolados feito dois gatinhos.

Deixe um comentário