Pior que velório

O passo não encaixa, as pernas não aguentam mais o corpo. Não sei o que enrosca ou escorrega. Estacionamento vazio, parece maior. Tem alguém aí? Sem resposta. Língua treme e segue o tremelique até o estômago. Festa ruim mesmo, não sobrou ninguém aqui. Oi! A voz some após a repetição infinita. Nada muito diferente dos meus dias de secretária-faz-tudo. Entrei como assistente da secretária, achei que poderia seguir para outro lugar da empresa. Depois pensei em mudar de ramo, estudei moda, quem sabe trabalhar com arte ou marketing, coisas bonitas. Sem nenhuma cor, fui de assistente para secretária júnior. Nunca vi uma moça com júnior no nome. Meu cargo tinha. Acho que o Seu Ademir, do departamento de pessoal, que resolveu colocar pompa na hora que estava dando nome ao novo cargo. O que eu virei? Secretária da secretária. 

Vejo o carro, chego perto, está além. Quanto mais me aproximo, maior o engano. Parece a geometria torta, um reflexo de provador de loja. Mudo de lugar, encontro 4 carros iguais. Observo melhor, infinitos. Ei?

 Sinto a imagem torta, mas entortou organizado. Parece engano, igual salto de um ponto do crochê. Falha. A peça aumenta mais para um lado do que para o outro. A gente avança e não sabe muito bem o que está acontecendo com o quadradinho. Nunca fui boa mesmo, continuo errando os pontos. Continuo pagando as contas que não são da empresa, são da família do Seu Afonso, seguindo o que me mandam fazer, não preciso ser criativa. A festa fica assim, nem boa nem ruim, só muito trabalho. Tem de tudo, só não diverte. Não tem vigilante nesse estacionamento?

Não achei outra profissão, não achei marido, não achei igreja. Bem que tentei. A Nani me levou no centro espírita, enjoei na hora do passe. Uma senhora me disse que eu deveria largar o emprego e seguir o meu propósito. Não acreditei, achei papo de coach. Assisti a palestra, só por protocolo. Passe não funciona sem palestra. Assisti e mesmo assim não acho a saída daqui; universo de imagens múltiplas do carro, pilastras com placas menos dois, cinco C e reproduções diagonais do meu corpo, nunca apareço de frente. Parece que não penteei os cabelos hoje.

Nem deu pra beber. Pouca bebida, pouca bebida. Festa da firma sem bebida é pior que velório. Não dá pra saber o que se estava comemorando. A Cleide que convenceu o Seu Afonso de colocar bebida na festa. Ele deve ter perguntado o que fazer no culto da igreja que ele coordena. Chegou com a resposta divina, só um pouquinho dona Cleide, um pouquinho pra cada um. Deve ter um pastor, ancião, sei lá qual nome dando respostas desse tipo. Será que tem inteligência artificial fazendo esse tipo de trabalho? Você constrói um bispo que te ajuda pela manhã com ideias para estar em equilíbrio e paz com suas culpas apesar de sua vida ter virado um buraco sem saída. 

Não chego ao carro, já cansei de gritar, por isso converso em voz alta, expresso tudo o que não interessa a ninguém. Se ficar resmungando, quem sabe alguém escuta. Minha mãe ainda não ligou. Talvez nem ligue hoje, perdeu a hora, deve estar achando que eu já estou dormindo. Nem falei da festa, esqueci. Nem é festa, é trabalho extra. Dispensei todos e fechei o salão. Vai ver dispensei o segurança. Ou dormiu, só pode. Não posso esquecer de levar o tíquete da cancela e entregar para o Seu Ademir. Será que isso para não me pagarem hora extra?

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