(contexto: Zenon, o último ascensorista, é um personagem criado para um cenário urbano paulistano, mas com uma série de elementos surreais. É um homem simples, prestes a se aposentar, casado com Alexandria, uma mulher acamada. Moram em um bairro da periferia e todos os dias Zenon sai para o trabalho no Ministério Federal das Inconcessões. O fantástico pode aparecer envolvido em sua vida passada ou ainda com personagens que transitam pelo seu elevador. Foi lido em diversos contos desta oficina, mas fazia um bom tempo que não reaparecia)
1
Zenon, o último ascensorista, nunca se viu como um detentor de conhecimento. Isso era mais coisa para Alexandria, ela que era mulher estudada, inteligente. Ele era um mero apertador de botões. Porém, um dia, Dr. Golvino Palhares, o encurvado Supervisor de Métodos e Incompetências, veio trocar ideias com ele. Em geral, gostavam de conversar sobre os resultados das partidas do final de semana. Mas, naquele dia, ele apareceu com um problema sobre elevadores.
– É algo que está acontecendo em meu prédio. Se existe uma pessoa que pode esclarecer o que é deve ser um ascensorista. O senhor já trabalha há muitos anos, certamente já viu coisa parecida, vai poder ajudar.
2
Dr. Golvino lembra que tudo começou numa quarta-feira. Não era início de quaresma, era uma dessas comuns, quando os bares lotam de torcedores de futebol.
Palhares esperou quase até o fim, apesar do jogo estar um tédio de dar sono. O Sport Atlético não estava mesmo em sua melhor fase. Melhor se cuidar ou seria rebaixado. Dez minutos antes do final, desistiu. Não quis nem esperar o troco: – Fica como gorjeta. –Levantou-se de sua mesa predileta, despediu-se do garçom pelo nome e cambaleou até seu prédio, algumas calçadas dali – tempo de acabar o cigarro e de xingar jogadores, comissão técnica, cartolas, televisão. Todos mercenários. Não existe mais amor à camisa. Isso ainda vai acabar com o futebol.
Ao entrar no elevador, percebeu que além dos tradicionais dez andares, térreo, garagem, botão de alarme e de abrir porta, surgira mais um, na parte inferior do painel. O desenho do botão era estranho; um círculo cortado ao meio, feito a marcação do meio do campo.
Mas o cansado Palhares nem se preocupou muito: culpou o excesso de cervejas. Acendeu as luzes do apartamento e ligou a tevê, deixou-a em um canal qualquer. A ideia não era assistir, mas provocar barulho para disfarçar o fato de estar sozinho. Foi direto para o banho. Dessa vez, nem conferiu a secretária eletrônica para ver se a sua filha adolescente, Cecília, havia ligado.
No dia seguinte, Golvino foi preparar o café. Desprezou o que sobrara do dia anterior. Ele não conseguia mais acertar a quantidade exata de café depois que voltou a morar sozinho. Se ele tentava fazer menos, o café ficava fraco ou forte demais. Na hora de sair para o Ministério Federal das Inconcessões, Palhares notou que o botão de meio de campo continuava ali no painel do elevador.
Estava ligeiramente deslocado das linhas paralelas onde ficavam os demais botões do painel, um zagueiro fora de posição. Será que sempre esteve ali e nunca notou? O pai de Cecília ficou matutando, relembrando os detalhes de dentro da cabine do elevador, aqueles lugares que se contempla para escapar de encarar os vizinhos: o peso máximo suportado, a proibição de fumar, o palavrão arranhado na fórmica, o balançar da viagem, o papel torcido de bala, o inseto confinado, a recomendação para não deixar crianças de até nove anos sozinhas, os relevos para cegos. Certamente, deixei passar e não tinha percebido. Logo que ligou o motor do carro na garagem, já se esquecera do botão.
Entretanto, com o passar das semanas, começaria a se sentir incomodado. Não era apenas o caso de Cecília reduzir cada vez mais suas ligações, a secretária eletrônica vazia de mensagens. Afinal, a menina estava crescendo, era natural um certo distanciamento. A questão estava no elevador. Novos botões surgiram e já não era fácil identificar as fileiras originais do painel.
Aparentemente, os vizinhos não sentiam a mesma dificuldade para achar o seu andar. Os assuntos continuavam os de sempre: clima, trânsito, campeonato. Talvez fosse falta de intimidade. Dr. Golvino não era de falar com o povo do prédio. Mal reconhecia quem era quem, quando esbarrava nas pessoas na padaria ou no supermercado. Lu dizia que ele devia falar melhor com os vizinhos, ir à reunião de condomínio, fazer parte. Ela dava muita atenção a essas coisas.
– A gente vive em sociedade, ninguém pode ser alguém sozinho.
Já Palhares não tinha a menor paciência. Sabia o básico, fazia o básico. Não gostava de depender de ninguém, nem de ninguém se enxerindo em sua vida. Golvino veio do interior, uma cidade há trezentos e tantos quilômetros da capital. Lugarzinho pequeno, cheio de gente pequena, beata, intrometida. Muito melhor era a cidade grande, onde você pode ser ninguém tranquilamente.
Mas logo a situação beirava o insustentável. Os botões cobriam as paredes, pipocavam sobre o interfone, até na superfície do espelho. Ficavam feito olhos de insetos, cada botão refletindo o passageiro no interior da cabine. Golvino tinha que ficar procurando onde estava o da garagem e o do sexto andar, tinha que ficar tateando com cuidado para não errar o andar. A coisa não tinha limites. Precisava de auxílio, nem que fosse daquele senhorzinho ascensorista do Ministério.
3
O senhorzinho escutou o relato do torcedor do Sport Atlético com atenção. A história não era longa, mas tão bizarra que precisou ser repetida várias vezes entre os andares para ser compreendida e assimilada. Mesmo assim, ao final, Zenon só pôde admitir sua incompetência para oferecer uma resposta adequada:
– Nunca ouvi falar disso não, doutor Golvino.
– É um absurdo isso. Não consigo mais me enxergar direito. Antes eu ajeitava a gravata dentro do elevador. Agora é impossível. Olha minha gravata torta. Meu cabelo. É culpa desse negócio. Não ensinaram isso na escola dos ascensoristas?
– Não existe escola de ascensorista, doutor Golvino. O senhor já tentou falar com o porteiro do prédio?
Sim, ele tentara recorrer ao zelador, mas o homem nunca estava na portaria, sempre correndo atrás do chamado dos vizinhos, sempre havia um vazamento em um banheiro, tudo parecia mais importante que essas estranhas erupções no elevador.
O primeiro de todos os botões, o meio de campo, continuava lá, pequeno, espremido entre os demais, que não indicavam apenas números, mas também letras, incluindo de outros alfabetos, hieróglifos, símbolos gráficos, sinais de trânsito ou ícones de computador. Palhares não reconhecia um padrão, hoje aparecia uma flecha, amanhã surgia uma ferradura e depois o número 1607.
E se fosse uma reforma no prédio? Algo decidido em uma das assembleias de condomínio, uma das tantas que se recusara a participar. Talvez por isso o zelador nunca tivesse tempo. Ele estava envolvido em alguma reforma grande, alguma reengenharia, algo que acrescentava andares e mais andares ao prédio e, para cada novo andar, um novo botão. Não faria sentido: a quantidade de botões seria o suficiente para uma torre daquelas que arranham o céu, o predinho ficaria como uma agulha espetada em meio ao horizonte picotado de edifícios. A não ser que eles estivessem sendo escavados, andares e mais andares sob o solo, uma árvore desesperada estendendo suas raízes em busca de alguma água nas profundezas.
– Eu não imagino o que possa ser… Se eu tiver alguma ideia, aviso ao senhor – Zenon condoeu-se ao ver o pobre Dr. Golvino Palhares sair mais encurvado do que o normal no andar da Seção de Perícias e Atestados.
4
As paredes do elevador cobriram-se de botões. Palhares não podia mais encostar-se na parede enquanto não chegava ao sexto andar ou esperava o térreo. Preocupado com a possibilidade de Cecília decidir apertar todos os botões, decidiu que era melhor evitar que a menina dormisse em seu apartamento. Até a coisa se estabilizar, buscaria a filha na casa de Lu e iriam viajar por cidades próximas no final de semana. De certa forma, essa foi a melhor consequência daquela temporada.
Entretanto, nem foi tão excelente quanto parecia. Cecília tinha pouca paciência com as conversas do pai e o pai não entendia bem as conversas da filha. Os jogos de tabuleiro que ele trouxera para a viagem eram infantis demais. Procuraram então um fliperama para poderem passar o tempo, mas todos haviam se transformado em lan houses e fediam à testosterona adolescente. Na piscina do hotel, ela tinha vergonha de mostrar o corpo.
Sobrou a tevê. Na maior parte do tempo, ela só queria ver MTV e ele achava aquilo tudo muito besta. Tentaram ver um filme, era um desses do espaço. Palhares não suportava. Coisas que não existem, muito para minha cabeça. Cecília topou acompanhar uma partida de futebol. Ela até se empolgaria se o jogo estivesse bom. Mas era um tal de bola para lá e para cá, artilheiro cavando falta rolando no gramado, goleiro fazendo cera. Golvino soltou até uns bocejos.
No domingo, prestes a retornarem, viram um homem portando um celular-tijolo, fazendo questão de falar bem alto. Cecília perguntou se o pai não iria comprar um.
– Mamãe ganhou um do namorado.
5
– Imagina só. Ele queria que eu desse um jeito no elevador da casa dele.
Zenon estava sentado na beira do colchão, enquanto raspava o finalzinho de feijão e farofa do prato. Alexandria, deitada, não reagia ao marido que chegara há pouco do serviço. Ainda assim, ele descrevia o diálogo para a mulher na cama.
No distante Jardim Trismegisto, não havia prédios como o do Dr. Golvino Palhares. Apenas conjuntos habitacionais construídos pelo governo ou puxadinhos erguidos andar a andar, à custa de muito esforço e churrascos para a construção de lajes. Ainda assim, Zenon se sentia desconfortável com a história.
No fundo, gostaria de fazer alguma coisa. Enquanto contava a história para Alexandria, ela escutava deitada, quieta e em silêncio, os dois iluminados pela luz azulada da televisão, o volume bem baixo, para não atrapalhar a conversa.
Sem dar aviso, Alexandria passou a falar com os olhos fechados e Zenon não sabia se estava sonâmbula ou sem forças para abrir as pálpebras:
– Já ouviu falar em placebo? Às vezes, você não precisa de uma solução. Só precisa achar que tem a oportunidade. Pega um papel e uma caneta. Vou dizer o que ele tem que fazer.
6
Ao retornar para casa depois de viajar com a filha, Dr. Golvino descobriu que a proliferação de botões se disseminara pelo teto e sobre o piso. Chegou o momento em que precisou pisar na ponta dos pés para não apertar acidentalmente algum botão. Presenciou o surgimento de um botão, emergindo lentamente como uma bolha em um líquido denso. Não era número ou letra, poderia ser uma nota musical ou um símbolo de calculadora científica. Arrependeu-se de não ter feito engenharia ou aprendido a ler partituras.
Golvino também precisava resistir à vontade de escolher algum daqueles novos botões estranhos e apertá-lo. Eles acendiam e piscavam com cores diferentes, certamente atendendo aos chamados dos novos moradores; entretanto, a máquina sempre cumpria os seus chamados antes dos vizinhos, indo ao sexto, ao térreo, ao subsolo. Palhares jamais encontrou os vizinhos correspondentes aos novos andares.
É verdade também que, em algumas ocasiões, houve indícios inegáveis da presença de estranhos, que ele acreditava serem dos novos moradores: um nome pichado em cirílico, folhas mortas de laranjeira, um anel de cerveja, cheiro doce de jasmim, cápsulas de rifle, uma pena de arara azul, um jarro cheio de aranhas, um anel de granada, um punhado de esterco seco, unhas, um siri ainda vivo e espumando.
Palhares teve então um sonho. A porta do elevador se abria e finalmente havia os novos vizinhos lá. Eram dois apenas: uma mulher nua, baixinha e com um chumaço de pelos escuros entre as pernas; e um senhor de terno e gravata e um cubo a substituir-lhe a cabeça. Quando fez menção de entrar, foi impedido pela sua ex-mulher, Lu.
– Você tem um emprego. Tem a pensão da sua filha para pagar.
Decidiu evitar aqueles encontros. Passou a subir os seis andares de escada. Faria bem ao coração, afinal de contas. As luzes acendiam-se à sua passagem, e os passos ressoavam pelos corredores. Sentia-se uma espécie de espião, escutando os sons provenientes do interior dos apartamentos: louça sendo lavada, gritos, velocípedes, forno de micro-ondas, canários, queda de talheres. Aqueles sons quotidianos o sufocavam. Relembravam sua família enorme, cheia de gente querendo controlar sua vida. As primas obrigando-o a ficar nu, o tio espiando pelo buraco da fechadura, as brigas, as conversas.
Quando chegava ao seu andar, o elevador estava ali, esperando-o. A luz interna da cabine iluminando o corredor, a porta convidando-o a entrar.
7
– Como estão as coisas lá no seu prédio, doutor Golvino?
O ascensorista do Ministério aproveitou um momento em que estavam apenas os dois na cabine para perguntar sobre os problemas no condomínio. A expressão exausta do homem respondia mais que qualquer palavra. Zenon então interrompeu a viagem entre os andares e retirou do bolso da camisa um lenço puído e o entregou a Palhares. Havia um conteúdo cúbico embrulhado com cuidado no lenço. Ao entreabrir o lenço, a coisa tinha a cor e a textura de um pedaço de carvão. Fechou-a rapidamente para não sujar os dedos.
– O senhor faça o seguinte. Mergulhe isso num copo com água mineral. Fria, tem que ser fria, nem gelada e menos ainda quente. Leve esse copo até o piso do elevador de seu prédio e o tampe com uma Bíblia fechada. A Bíblia tem que estar com nove voltas de uma linha virgem branca. O senhor deixe lá o copo sozinho e recite o Salmo 69 por oito minutos nesse meio tempo. Depois o senhor volte, retire a Bíblia, desamarre, jogue fora a água no ralo. Do banheiro, de preferência. Faça isso por sete dias e depois veja se a história dos botões não melhora.
O ascensorista fez o elevador voltar a andar. Dr. Golvino agradeceu muito, encurvando-se quase como um japonês faria. Correu para sua sala para anotar as instruções. Mas o telefone tocou e ele precisou atender: era o médico da Seção de Perícias e Atestados. Depois de desligar, um colega estava com dificuldades para passar um fax, Palhares tentou ajudar. Tudo decidiu acontecer naqueles dez, quinze minutos, de modo que a receita anotada por Palhares era muito mais simples e pobre em detalhes.
8
Em seu apartamento, Golvino repassava os passos e os ingredientes. Lu, sua ex-mulher, levara a Bíblia de casa. Ela era muito mais apegada a essas coisas. Para ele, religião o fazia se lembrar de sua vida no interior. Precisou comprar uma especialmente para o procedimento. Reparou que as letras pequenas e aglomeradas lembravam bula de remédio. Como precisava deixar o elevador sozinho com o copo, decidiu realizar o procedimento de madrugada, quando não havia movimento.
No terceiro dia, enquanto recitava o Salmo, acabou dormindo na cadeira da cozinha, enquanto aguardava os tais quinze minutos. Despertou assustado. Foi para o corredor e o elevador não estava no andar. Apertou várias vezes o botão com força, como se a máquina fosse entender sua pressa. Quando a porta se abriu, o copo continuava ali no piso em meio aos botões. Mas a Bíblia desaparecera, bem como o cubo de carvão. A água havia enegrecido e estava densa feito óleo cru. Golvino pegou o copo e derramou o conteúdo escuro na pia da cozinha.
Então, dali em diante, os botões retrocederam. Foi um processo mais rápido. Difícil precisar, foi logo depois da licença médica, havia menos necessidade de sair de casa. O elevador estava como antes, e ele sentiu-se aliviado pela menor pressão visual. Exceto pelo desaparecimento do interfone; achou um absurdo e se o elevador parar e a pessoa estiver sem celular e tiver vergonha de gritar socorro? Interfonou para a portaria novamente e quem atendeu explicou que o zelador decidira retornar ao Delta, cansara desta cidade e que ainda esperavam alguém para substituí-lo.
O espelho já não estava mais lá: se estivesse, poderia ter notado que usava sapatos de pares diferentes. Logo, o botão do nono andar e o de alarme desapareceram, assim como os garranchos arranhados. Pressentiu o prédio encolher aos poucos, como se afundasse no chão, como se desdobrasse para dentro de si como aqueles robôs transformando-se em carrinhos. Mas ao olhar pela janela de madrugada tudo permanecia no lugar, então perturbou-se com a possibilidade de o edifício esvaziar-se, uma caixa de fios, alvenaria, encanamento, colunas e alicerces, um tronco oco e podre devorado por térmitas.
Em uma sexta-feira, deixou o carro em um estacionamento. Depois colocou o tíquete e a documentação referente ao carro em um envelope pardo e postou em uma agência do correio. Voltou de metrô, a composição cheia de jovens casais trocando carícias e torpedos, passou pelos botecos cheios, mesas na calçada, todos cheios de amigos e cervejas. O vestíbulo iluminado pela porta escancarada do elevador: apenas restava o botão do sexto andar no painel.
Jantou o que sobrara na geladeira, bebeu o que restara no bar. Assistiu a uma reprise dos Flintstones: o elevador funcionava atrelado a um dinossauro; observou que os animais, a despeito do cinismo de suas falas, jamais se rebelaram contra os seus captores. Era quase meia-noite: ligou para Cecília.
Quem atendeu foi a Lu. Ela foi educada e receptiva, afinal – apesar de tudo – era o pai da filha. Pediu para falar com a garota, mas ela estava dormindo; a menina tinha prova amanhã. Começaram a conversar um pouco. Palhares resistiu bravamente à tentação de fazer uma jura de amor despropositada. Não faria sentido, estavam divorciados há quanto tempo mesmo?
– Não seja patético, Golvino – Lu disse antes de desligar o telefone. Só nesse instante que ele percebeu que nunca esteve no – ou houve – controle. Colocou o fone de volta no gancho. Fazia calor e dormiu de janelas abertas.
Acordou com o sol. Não havia recado de Cecília. Apesar da ressaca, sentiu o revigor. Decidiu que conheceria os vizinhos: usaria as escadas, perguntaria como estavam fazendo para subirem e descerem os andares sem os botões do elevador. Então, usando esse pretexto, convidaria a todos para uma festa, poderia ser em seu apartamento, na metade do caminho para todos, comemorando ainda não sabia o quê.
Mas ao descer para ir à padaria, as luzes do corredor não se acenderam. Usou um isqueiro para iluminar o ambiente e descobriu que a parede engolira a porta do elevador. Os extintores continuavam à guarda da parede vazia. Tateou a parede, ela parecia estar lá desde sempre. Precisou ir pelas escadas. Era muito cedo e não escutou movimentação nenhuma do interior dos apartamentos vizinhos. Tudo estava silencioso, nem o sol da manhã decidiu aparecer por baixo das frestas das portas. O calor do isqueiro o fazia apagar a chama, e ele descia no escuro, tateando o corrimão, testando os degraus com o pé.
Finalmente chegou ao térreo. Percebeu que o gramado do jardim estava descuidado. Mas não havia ninguém na portaria com quem reclamar. O portão estava escancarado, pôde sair para a rua, deserta como se fosse jogo de Copa do Mundo, silenciosa como um feriado em dia frio. Estava distante, dobrando a esquina, quando ouviu estalos. Interrompeu seu caminho para a padaria e voltou-se para trás, a tempo de ver o início do desmoronamento, o edifício desaparecendo sob seu próprio peso, o estilhaçar de janelas, o disparar dos alarmes dos carros estacionados. Lembrava uma avalanche ou uma erupção. Golvino Pacheco estacou no meio da rua e esperou pacientemente ser engolido pela nuvem de detritos.
