Fado

por Américo Paim

Ele nem olhou para o céu. O vento súbito lhe disse que ia chover.

De frente para o antigo sobrado, morada dos avós, inspirou feliz por estar ali, mais uma vez.

Sua avó havia morrido bem antes e seu avô resistiu mais tempo no lugar. Na sua infância, Gino se acostumou a brincar no sótão daquela casa, o canto favorito do velho, Seo Armindo, que tinha energia de sobra para subir a curta escadaria, dobrar um pouco o corpo e acessar o cômodo. Ali, naquele lugar especial, Gino ouvia histórias, lanchavam e até tiravam sonecas, embalados pela brisa constante entrando pela pequena janela de ventilação voltada para a mata, que lhes falava com cheiros e sons diversos.

Seu avô, de descendência espanhola, era o amigo, o confidente. Lhe contava causos e histórias. Lia livros para ele e brincava de desvendar charadas e adivinhações. Lhe ensinou a dar o laço no sapato, empinar arraia, os primeiros chutes na bola, a ler as notas musicais, tocar instrumento, pedalar e até deu dicas com as meninas, quando veio a adolescência.

Aquele outrora refúgio, pela distância até a chamada zona urbana, virou quase vizinho de condomínios de casas e apartamentos. Gino, agora nos seus vinte e cinco, preservava o prédio pelo prazer dos seus melhores anos infantis e por uma vida mais isolada. Seu sonho era reformar o prédio. Faltava o dinheiro, mas não os planos, detalhados por sua arquiteta e namorada recente, Diana, que sempre o acompanhava à velha casa. Ela não conheceu Seo Armindo, cuja morte, há cinco anos, ainda incomodava Gino, que tinha sonhos frequentes com o saudoso avô.

– Que tal terapia? – ela lhe disse, durante um café na cidade.

– Pra quê?

– Os sonhos podem ser explicados.

– Não é nada especial. Só sinto falta dele.

– Será que seus pais não podem ajudar a esclarecer?

– Eles vivem na capital, lembra?

– Sim, mas vocês não se visitam?

– Pouco. Esqueça isso. E aí, vamos ao sobrado no fim de semana?

– Claro.

A realidade é que Gino não se recuperou da perda. O velho tinha saúde de ferro e se foi de repente. Ataque do coração, pela certidão de óbito. Ele estava numa fase boa, lúcido, com planos de fazer obra na fachada da casa. Deixou o sótão, seu santuário, com tudo no exato lugar. Muitos objetos, caixas, empilhadas com cuidado, quase todas identificadas. Duas cadeiras descombinadas do sofá, uma mesa pequena entre elas e uma maior, sempre com algo por cima. Prateleiras com discos, livros, álbuns de fotografias, cartas, lembranças de viagens. Quase tudo ligado a Melina, sua esposa por quase cinquenta anos. Tinha também um violão, que regulava sua idade, e algumas partituras, embora quase tudo que tocasse fosse de cabeça. Dois abajures de pé bem inteiros. As paredes não tinham enfeites, exceto um quadro com foto do casal, em ambiente rural, sentado em um banco com rio ao fundo e mato ao longe, atrás. Ninguém sabia onde foi aquela foto, nem os pais de Gino. Sequer sabiam quem tirou a fotografia. E não deu tempo de perguntar a Melina, perdida para um Alzheimer rápido e agressivo. Armindo não contava nada sobre a foto. Só se concluía que eram muito jovens e, segundo ele, ainda namoravam.

Anoitecia quando Gino e Diana, já próximos da casa, pararam em um posto para abastecer o carro dele. O frentista limpava o vidro e um homem de aparência desgastada e roupas sujas se aproximou da porta onde estava Diana. Pediu dinheiro para comer. Ela tirou da bolsa um porta-moedas e lhe deu uns trocados. O homem agradeceu e seguiu seu rumo, em direção oposta para onde o carro apontava. O gesto corriqueiro não passaria despercebido por Gino. Ao chegarem ao sobrado, após descarregarem tudo e partirem para queijos e umas taças de vinho, ele lhe falou.

– Observei você dando dinheiro àquele homem no posto.

– Você conhece?

– Não é isso. É que me deu um clique.

– O que foi?

– Pode ser uma besteira, mas…

– Fale.

– Seu porta-moedas. Há quanto tempo você o tem?

– Sei lá. Comprei em uma dessas feiras de coisas antigas. Eu gosto.

– Posso ver?

– Claro.

Ela lhe entregou e ele foi até a mesa da sala. Abriu cuidadoso. Era feito de couro, sem zíper ou botões. O encaixe com tampa comum, de ajuste apertado. Havia poucas moedas. Ele as retirou. Ela o observava, curiosa e ele fitava comovido o objeto. Não havia qualquer dúvida. Era o de seu avô.

– Como isso foi parar em uma feira?

– Ué, como eu posso saber?

– Meu avô nunca ia descartar uma coisa como essa.

– Tem certeza de que é dele mesmo?

– Absoluta. Ele sempre me dava moedas que retirava daqui. Cansei de ver isso.

– Bem, tá claro que ele se desfez.

– Ainda duvido muito. Isso não seria ele.

– Usava muito?

– Para cima e para baixo.

– E esse desenho?

Ele não conhecia aquela gravura no fundo do porta-moedas, pois nunca olhava dentro. Apenas via seu avô abrir e lhe dar o dinheiro. Não tinha como saber se sempre esteve lá. Era uma figura em cores de paisagem rural com o que parecia ser um rio. Tinha um sol desenhado, e entre ele e o chão, uma pequena partitura, com notas escritas. Era só isso. Ele notou que o desenho poderia ter sido manuseado, pois as bordas pareciam coladas. Achou estranho, mas considerou irrelevante, e nem comentou sobre isso com Diana.

Nos próximos encontros entre eles, Diana voltou ao assunto várias vezes. Como o porta-moedas foi parar naquela feira? E o desenho? Sempre esteve ali? No início ele ria da curiosidade dela, mas as perguntas começaram a incomodar. Ela parecia levar a sério. Chegou a pedir que ele perguntasse aos pais. Gino o fez. Mostrou o objeto, o desenho, indagou sobre nomes, pessoas, um lugar favorito que ele desconhecesse. Não conseguiu nada. Não encerrou o assunto, porém. Pediu que ela deixasse o objeto com ele. Queria analisar mais.

Poucos dias depois, estava no sótão, em uma das cadeiras. O porta-moedas aberto. Olhava a gravura, sem imaginar caminho por onde seguir. Cansado, pegou o violão de seu avô, com o qual aprendeu a tocar. Só queria olhar de novo. Estava bom, precisando apenas de limpeza, regulagem e cordas novas. No estojo achou partituras envelhecidas. Lembrou o que ele lhe dizia: o papel falava pelas notações. Era só aprender a ler. Ele pensou: será que… Voltou ao papel de fundo do porta-moedas. A partitura ainda legível. Ele pegou um pedaço de papel, leu as notas e escreveu.

DÓ RE DÓ (pausa) MI SOL FÁ (pausa) MI FÁ DÓ

Nada daquilo fazia sentido. Estava calor. Foi ao sofá, local mais ventilado do sótão. O papel lhe hipnotizava. O largou por instantes e desviou o olhar para a prateleira dos discos, diante dele. As etiquetas delimitavam a ordem alfabética: A, B, C, D etc. Teve um estalo quase ao mesmo tempo que começou uma chuva forte. O desenho era uma mensagem. Se substituísse o primeiro Dó por C, que significa a mesma coisa em notação musical, teria algo como: “Credo, meu sofá, meu fado”. Sentiu que achou o caminho. Seria algo no sofá onde ele estava? Levantou e olhou ele todo, na frente, atrás, embaixo. Nada. As almofadas? Uma delas tinha um zíper escondido. Abriu e deu certo! Uma pequena caixa de madeira, sem ornamentação que ele logo reconheceu. Ali ele guardava bichos miúdos que capturava no mato: gafanhotos, besouros, formigas. Por que estava ali? Afoito, abriu e encontrou uma bíblia de bolso. Ela não tinha páginas, só um espaço como um estojo, um baixo relevo e, dentro dele, uma chave, das antigas, bem ajustada ali. Um novo mistério. Chave de onde? Não via mais pistas na caixa ou na almofada. Não havia fechadura ou caixa no sótão que ele não conhecesse. Voltou à partitura. O que mais teria ali? “Meu fado”? Não esclarecia. Segurou a chave, a examinou. Nada. Conferiu o papel mais uma vez e viu algo discreto, porém, significativo para ele. Sob a Clave de Sol, o que lhe pareceu um discreto morrinho, com formato que ele conhecia. Parecia o que ele e o avô chamavam de morro da formiga. Clave é chave, concluiu animado. Ficou claro para ele que lá havia algo sob a terra. Queria cavar naquela mesma hora da noite, só que a chuva torrencial impedia. Deixou para o outro dia, mas ligou logo para Diana, contou as novidades e pediu a ela que viesse logo cedo:

– É sério tudo isso?

– Sim, com certeza!

– E como sabe o lugar?

– Tem que ser lá. É um morrinho que eu e ele conhecíamos bem.

– O que espera encontrar?

– Não faço ideia. Deve ser a última parte da mensagem.

– Pode ser só uma coincidência, não?

– Duvido. O resto deu certo. A clave, o sofá…

– Então vamos logo. Estou ansiosa!

– Nem me fale.

Pela manhã, ela chegou animada. Como o tempo não parecia seguro, apressaram-se em sair. Não andaram muito. Gino identificou o local do morrinho e passou a cavar com cuidado. Diana apenas observava. Em pouco tempo, a pá bateu em algo mais duro. Ele continuou a cavar, contornando o que parecia ser um objeto pontudo, e desvelou-se uma caixa, essa maior que a do sofá. Ele a retirou e colocou ali mesmo no chão. Não aguentaria a ansiedade de levar até a casa. A chave funcionou quase sem esforço.

Ao constatar o conteúdo, Gino ficou estático e incrédulo. Virou-se para Diana e entendeu ainda menos ao vê-la com um revólver apontado para ele e uma expressão que não prometia final feliz.

Ele nem olhou para o céu. O vento súbito lhe disse que ia chover.

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