Roberto Efrem Filho
Aparício assiste à notícia da morte de Janete Clair, recosta-se no futon de camurça salmão e chora. Da TV, a imagem em preto e branco de Cid Moreira se reflete nas lágrimas que Aparício conta, agora são dezesseis, como imagina fazerem as melhores atrizes de telenovela. É para dosar o drama, querida. Aparício abraça as pernas e apoia o queixo nos joelhos. Assim, em posição quase fetal, o rosto ainda molhado, resolve pensar na coluna da semana. Toda palavra é sua, Janete amada. Faz cinco anos, Aparício dedica trechos e mais trechos de sua coluna semanal no Diário de Pernambuco ao que ele chama de a clarividência de Clair. Bastou a dúvida sobre quem matou Salomão Hayala alastrar-se pelo país para que Aparício reconhecesse em O Astro a obra de um gênio das nossas letras. Janete é clara, límpida e premonitória, ele estava convencido. Translúcida, sua novela alcança a essência brasileira, nossos dilemas mais ordinários, vicejantes e cortantes, ele escreveu em janeiro de 78.
Aparício enxuga a vigésima terceira lágrima com o lenço que retira do bolso traseiro da calça e pula do futon para buscar a Olivetti. Desvanece o sol maior da nossa dramaturgia, ele datilografa logo no topo do papel ofício. Jaz o ápice do verbo que se fez imagem, é a linha de abertura do texto. Aparício aperta os botões da máquina com pressa e violência. Seus dedos homenageiam Janete enquanto, ele pensa, apontam duro na cara dos colegas da redação do jornal. Uns comunistinhas arrogantes, sabe como é? Chatos. Ah, mas é cultura de massas, ah, é a terrível alienação de um povo, ui, ui que perigo, o rescaldo ideológico da indústria cultural. Aparício nega, faz que não se importa. Desdenha dos comentários que, à boca pequena, acaba ouvindo das rodinhas de intelectuais e artistas do Recife. É, aquela gente muito bem alimentada que lota o Bar Savoy para se queixar da fome, do regime, do modo de produção capitalista e de Gilberto. Claro, mais relevante o intelectual será quanto mais se queixar de Gilberto Freyre. Pois se eu lambesse macio os filmes de Glauber, se eu chupasse fundo cada linha de Graciliano, se eu engolisse até o talo os poemas de João Cabral, aí sim, meu bem, o professor Aparício Siqueira constaria na lista das referências autorizadas. Me poupe.
Nesta noite, a raiva que Aparício costuma dirigir à maledicência da crítica de esquerda não avança. O homem está quebrado, dilacerado. Frágil demais até para se querer maldito. Nesta noite, as mãos sobre a Olivetti fraquejam. O texto que se precipitou ligeiro, agora não prossegue, claudica. O homem está só. Aparício sente-se só. E é tomando consciência da própria solidão que ele recorda o corpo, a sede e a fome, a urgência do desejo, o dia da semana. É cedendo ao peso da falta que Aparício procura o relógio, confere a hora, revisa na memória tudo o que havia se prometido fazer. A cerveja gelada, os salgadinhos de queijo da Padaria Santa Cruz, o frasco novo do Azaro. Sim, foi ao caixa eletrônico mais cedo, depois da aula na Católica. Não, não esqueceu de passar no chaveiro. Aí, enfim, Aparício encara a urgência de telefonar para Otávio. Tinha se preparado para este momento. Vinha ansioso por ele. Jurou para si mesmo que não o adiaria novamente, não se daria mais desculpas. Janete amada, eu sinto muito, a coluna será sua, o amanhã é seu. Aparício maneira a luz do abajur de porcelana chinesa, senta-se de volta no futon, puxa o aparelho e disca o número do pensionato.
Aparício telefona para Otávio às quintas-feiras. Antes de aquele rapaz tão bonito aparecer suado, num sábado de janeiro de 82, metido numa sunga incandescente sobre o elevado do salão principal da boate Misty, outros jovens haviam visitado o futon de camurça salmão da sala de estar de Aparício. Eram homens que ele pescava dos anúncios de acompanhantes de boa aparência ou dos poucos bares frequentados por entendidos na cidade. Aparício os desejava e temia. Abria a porta de seu apartamento no Edifício Módulo, no centro do Recife, para lhes servir doses cavalares de Dry Martini ou Campari, algum prazer e certa angústia. Eles jamais retornavam. E se três ou quatro de fato tentaram, Aparício declinou. Não quero intimidade com um homem que esteve dentro de mim. Com Otávio foi diferente. Mal o rapaz desceu do elevado, vestiu um robe de cetim branco e ofereceu um sorriso a Aparício. Tu me paga uma cerveja? Aparício pagaria a fábrica da Brahma, a fábrica da Antarctica, mas se conteve. Em menos de uma hora, o corpo nu de Otávio manchava de suor a camurça salmão e, como esta era a sua chance, Aparício sorriu. Daí em diante, o jovem passou a ler e comentar as colunas de Aparício no Diário. Otávio expressa opinião sobre o andamento da novela das oito. Analisa as personagens e a trama, o desempenho dos atores, o cenário. Evidente, prefere Janete Clair. A conexão que Aparício acredita existir entre os dois é tanta que, sem confessar para Otávio, fabula a possibilidade de beijar a sua boca. Ou, quem sabe, os dois adormecerem juntos para o café da manhã da sexta-feira.
Aos 30 anos, Aparício não possui amigos e nunca amou. Ministra aulas matinais no curso de jornalismo da Universidade Católica e escreve sua coluna para o caderno de cultura da edição do domingo. Telefona para a mãe diariamente às 19h. Confirma alô, mamãe e entabula uma palestra de 50 minutos sobre algum familiar, de costume seu irmão Afrânio, alguém que, a senhora tá cansada de saber, mamãe, conspurca o nome da família, bate ponto no prostíbulo do Chanteclair, queima o espólio de papai com rapariga atrás de rapariga. Aos 50 anos, viúva, católica apostólica romana e mãe de três filhos já criados, Ofélia escuta desinteressada a rançosa homilia de seu mais velho. No mesmo silêncio em que educou suas crianças e que Aparício apreendeu com especial cerimônia, Ofélia pensa que, dos três, melhor está Odete, a filha do meio. É que se Afrânio gasta para foder com alarde; e Aparício gasta para ser fodido com discrição; Odete se casou com Seu Anacleto, o pai viúvo de Cidinha, sua melhor amiga do Colégio das Damas. Com o velho marido, Odete herdará patrimônio e, até onde se tem notícia, não gasta, não alardeia, não se esconde e não se sente obrigada a foder.
A união entre Anacleto e Odete, Aparício comemorou solene em sua coluna no Diário, três anos atrás. Descreveu a seus leitores dominicais a prestigiada cerimônia laica que, com poucos convidados, nada mais de duzentas pessoas da sociedade pernambucana, selou os laços entre duas famílias cujas trajetórias se encontraram décadas antes, quando o pai de Anacleto e o pai de Ofélia travavam relações comerciais no mercado açucareiro. Neste novo tempo, tantos anos após o infeliz falecimento de Dona Virgínia, a primeira esposa de Anacleto e mãe de Cidinha, nada mais natural e saudável que aquele homem, senhor de si e de sua consciência de sete décadas, voltasse a se enredar em sentimentos por uma segunda mulher. Ainda mais se esta segunda mulher fosse exatamente Odete, íntima de toda a família e, desde muito nova, sincera apreciadora da notória hombridade do senhor Anacleto. Contra as acusações de que Odete casava por simples interesse, Aparício antecipou, na coluna, vistosas informações sobre o seu patrimônio familiar. Mencionou, como curiosidade, que os nubentes planejavam passar o seu próximo veraneio nos engenhos da família de Odete na região da mata-sul, entre jambeiros e abacateiros frondosos, rodeados por canaviais. A menção aos engenhos deixava esquecer que, a essa altura, todas aquelas propriedades rurais respondem a ações judiciais de falência, possuem dívidas trabalhistas ou são reivindicadas por famílias de posseiros.
Aparício abre um Pinot Noir e espera. Se, ao discar o número do pensionato onde Otávio vive, sentia-se inconsolável pela morte de Janete e ansioso por esta noite, o tom de voz de Otávio ao telefone o preocupou. Aparício sabe que Otávio atende às suas ligações no único telefone existente na casa. O aparelho foi instalado sobre um balcão na saleta de entrada, bem ao lado do sofá onde, neste instante, o casal de donos do pensionato assiste ao capítulo de Champagne, quer desvendar o mistério do assassinato da copeira Zaíra. Ali mesmo, diante da TV acesa, Otávio costuma aparentar simpatia. Simula conversar com uma namoradinha ou combinar uma mesa de bar com um colega do curso técnico de eletromecânica. Hoje isso não aconteceu. Aparício sequer conseguiu cumprimentá-lo, Otávio se adiantou explicando que o dia foi pesado, minha linda, eu tô cansado de verdade, doido pela minha cama, acho melhor a gente se ver outro dia, tu fica chateada? Aparício estranhou o jeito. Ficou incerto, no escuro. Otávio não recusava os convites. Estava sempre disponível a cumprir o acordo. Tanto que Aparício o percebia cada vez mais perto. Na semana passada, pouco antes de bater a porta da sala em direção ao corredor do prédio, Otávio olhou calmo para Aparício, que permanecia ali, deitado e melado sobre o futon. O rapaz vestia as calças e subia o fecho ecler quando deixou escapar baixinho, entre os dentes, bebe o que tá na tua boca, Aparício, eu gosto de te ver me engolindo. É daí que a nova reação de Otávio, esta recusa desacostumada, confunde Aparício que, sem saber como responder, apenas insistiu no convite. Fez questão de lembrar que tinha sacado no banco o valor de sempre, comprara inclusive os salgadinhos de queijo da Padaria Santa Cruz e a cerveja tinia no congelador, como você me pede. Em tréplica, Otávio disse à namoradinha que tudo bem, minha linda, eu também tô com saudade, vou trocar de roupa e já chego por aí. É só o tempo da condução.
A uma hora dessas, de Casa Amarela até o centro da cidade, a viagem de ônibus leva meia-hora. Por isso e pelo estado de ansiedade em que Aparício se põe, quando o interfone do apartamento toca, a garrafa do Pinot Noir já passou da metade e Aparício, além de inconsolável, ansioso e preocupado, está alegre. Ele abre a porta para Otávio e corre para a radiola. Aparício se abaixa e vai tateando os discos sob o aparador. Otávio se abaixa ao seu lado. Tu tá procurando qual, Aparício? Aquele de Rô Rô. Escândalo? Ah, Aparício, eu deixei em cima da caixa de som. Tá aqui desde quinta passada, oh. Aparício se enternece. Pensa em perguntar se está tudo bem. Procura em seu olhar a estranheza de alguns minutos atrás, na ligação telefônica. Bebe uma taça? Vou abrir uma cerveja, tu não disse que tá tinindo? Aparício quer falar sobre Janete. Ensaia contar a Otávio sobre sua dor desmesurada. Otávio, quero dedicar a coluna do próximo domingo à mulher que iluminou o país. Aparício quer que Otávio compreenda, que seus leitores compreendam que sua própria capacidade de imaginar se deve às estórias imaginadas por Janete Clair. Mas encarando o jovem tão bonito recostado em seu futon de camurça salmão, Aparício intui que não deve seguir por aí.
Eu sei que tu tá triste com a morte de Janete. Otávio tira a camiseta de malha, depois a calça jeans, que ficam no chão da sala. De cueca, o corpo inteiro no futon, começa a manipular o pênis e encontra medo nos olhos de Aparício. Quando ouvi a notícia no repórter, pensei em vir aqui. Ajoelhando-se, Aparício se dobra sobre o futon de camurça salmão. Entrevê na fala de Otávio um protesto a uma de suas regras fundamentais. É terminantemente – repete ter mi nan te men te – proibido vir aqui sem que eu lhe convide, nunca se sabe, é possível que meus irmãos me façam uma visite surpresa, é possível que eu traga amigos pro almoço ou pra jantar, A gente não pode se expor, concorda? A regra é evitar constrangimentos. Numa história como a nossa, é preciso respeito. Respeito e circunspecção. Aparício se recorda da norma dita logo no primeiro encontro e, a boca inteira ocupada com Otávio, ressente-se da inverossimilhança. Seus irmãos, Afrânio e Odete nunca o visitaram, nunca o visitariam. Aparício sabe, Afrânio rejeita suas inclinações, acusa nojo, ofende-se com o mero fato de partilhar o sobrenome com alguém como ele. E Odete se socorre em Anacleto. Ah, meu irmão, eu prefiro evitar proximidade com seu estilo de vida. Veja, eu respeito suas opções, não me entenda mal. Mas Anacleto é um homem de outra época, percebe? Ele não gostaria. Amigos tampouco há. Por escolha, Aparício repele qualquer oportunidade, toda hipótese de se deter ou permitir ficar. As únicas visitas que adentram aquele apartamento são os rapazes. Há um ano e dez meses, apenas Otávio.
Ainda retesado sobre o futon de camurça salmão, Aparício estende a mão e alcança o bolso da calça procurando um envelope. Entrega-o a Otávio, que vai saindo devagar de Aparício, agradecendo o cuidado. Aparício se levanta. Quer outra cerveja? Otávio abre o envelope e não entende. Caralho, Aparício, é muito dinheiro. A lâmpada do congelador clareia a cozinha. Aparício volta para a sala com uma Brahma e dois copos, entrega um a Otávio. Você me disse que sua mãe queria reformar a casa, não foi? E tem as despesas do curso de eletromecânica. Tem o seu filho em Condado. Você me falou que quer trazer o menino pro Recife, por conta da escola. Eu achei que não faria mal em ajudar. Na noite em que se conheceram, Aparício pagou a Otávio o triplo do valor usual. Na semana seguinte, viram-se mais uma vez. Na seguinte à seguinte, viram-se novamente e Aparício propôs que Otávio largasse o trabalho na boate. Você não precisa daquilo, eu banco um valor maior, pode confiar. Minha condição é você não sair com nenhum outro homem. É comigo e mais ninguém. Aparício queria Otávio. Otávio aceitou a proposta. E, ciente das regras, passou a esperar os telefonemas de Aparício nas noites de quinta-feira.
Acontece que isso que Otávio vê no envelope excede em muito a proposta original. É dinheiro suficiente para reconstruir a casa de sua mãe. Para garantir os estudos de Inácio. Terminar o curso de eletromecânica. Tanto que Otávio se intimida. Ele conhece Aparício. Sabe que bem ali, em pé diante do futon, Aparício ensaia uma cena à la Janete Clair. O gesto de Aparício é uma promessa, a inauguração de um arco dramático. Aparício espera um final feliz. É então que Otávio recua. Porra, Aparício, se tua segunda regra não proibisse, eu podia te dar um beijo na boca, meter minha língua na tua. Otávio se levanta do futon, vira o copo de cerveja, procura as roupas no chão e se veste, calça o tênis e abre a porta do apartamento. Com olhos mansos, encara Aparício e segue para o elevador. Aparício tranca a porta. Sobre o futon encontra o envelope e confirma, Otávio levou o dinheiro. Não levou apenas a chave do apartamento que Aparício mandou fazer e, solitária, sobrou no fundo do papel. Aparício se recosta no futon de camurça salmão e começa a contar, agora são vinte e seis.
